Crítica | Porta dos Fundos – Contrato Vitalício

Poucos não conhecem o canal do Portas dos Fundos no YouTube. Sucesso nacional, o grupo está sempre inovando graças à liberdade que tem para criar na internet. O resultado de tanto prestígio é a migração natural para outros veículos. Os humoristas foram primeiro para a televisão com “O Grande Gonzalez” e agora chegam aos cinemas com “Porta dos Fundos – Contrato Vitalício”, provando que são capazes de mostrar conteúdo de qualidade na telona.

O desafio de migrar de vídeos curtos (em média 2 minutos no YouTube) para um longa metragem de quase 2 horas foi grande. Era essencial que o filme não parecesse como uma enorme colagem de diversos vídeos do canal Porta dos Fundos. O roteiro de Fábio Porchat e Gabriel Esteves se sustenta com uma boa narrativa, ainda que os momentos cômicos sejam isolados e não da trama como um todo.

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Na história, Rodrigo (Fábio Porchat) vive um ator, enquanto Gregório Duvivier é Miguel, um diretor de cinema. Juntos, eles vão à Cannes e ganham o prêmio de melhor filme. Durante a comemoração, regada à muita bebida alcoólica, Rodrigo assina um contrato vitalício que escreve em um guardanapo de papel, onde afirma que estará presente em todos os futuros filmes de Miguel. Antes de retornarem ao Brasil, Miguel desaparece misteriosamente. Dez anos após esse incidente. Rodrigo é um ator de sucesso, porém insatisfeito com os projetos que seu empresário seleciona para sua carreira. Ao retornar à Cannes, desta vez como júri, ele reencontra Miguel. O diretor afirma ter sido abduzido por alienígenas que habitam o centro da terra e pretende fazer um filme narrando o que ele passou.

Porta dos Fundos cria humor não convencional e tenta fugir dos padrões e clichês. Daí o filme usar o surreal e o nonsense para criar um universo próprio. É interessante notar como Rodrigo parece ser a única pessoa “normal” na história. Só ele vê o absurdo de toda a situação. O resultado são momentos hilários precisamente por serem ridículos.

Um dos pontos fortes do longa são os personagens secundários. Retratados de maneira caricata e exagerada, fazem crítica àquilo que representam. Um bom exemplo é o de Fernanda (Thati Lopes), uma blogueira de sucesso e namorada de Rodrigo na trama. Para ela, o sucesso é medido por números de curtidas e visualizações. Gabriel Totoro é um dos melhores personagens. Ele interpreta, de forma cômica, um stalker. A repetição das piadas em cada personagem ajuda a apresentá-los ao público e aperfeiçoa o humor das características de cada um.

O personagem de Porchat funciona como uma escada. Ele apenas reage a todas as loucuras que acontecem ao seu redor e às quais todos, menos ele, acham absolutamente normais. O filme constrói, de maneira interessante, a relação entre Rodrigo e Miguel. No início, tudo o que o diretor diz parece absurdo e sem sentido, entretanto, aos poucos, nota-se que ele é o único que, de fato, se preocupa com o amigo, falando coisas sensatas, apesar de tudo. Aliás, o trabalho de construção do personagem de Duvivier é muito bom e o público fica na dúvida se ele realmente diz a verdade ou se enlouqueceu completamente.

O arco dramático do protagonista Rodrigo é um pouco óbvio. Ele tornou-se um profissional medíocre e sente que está perdendo a essência artística, até ter seu momento de epifania. A forma como ele muda é abrupta. Esse é, sem dúvidas, o principal problema do roteiro, mas não chega a comprometer o resultado final do filme. A parte cômica compensa.

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O humor do filme mistura vários estilos (não convencional, nonesense, surreal) e aposta também em piadas físicas (banho de lama, por exemplo) e escatológicas como barulhos de peidos (recurso muito utilizado em comédias americanas). Mesmo assim, como nos vídeos do YouTube, o longa se sustenta principalmente com tiradas inteligentes e referências pop. Para os padrões brasileiros, principalmente no cinema, eles fogem bastante do estilo e da convenção. Mas, algumas piadas, apesar de não serem novidade, tiram boas gargalhadas do público, como a cena em que os personagens fazem graça com o nome de um patrocinador do filme, recurso usado em “Wayne´s World” (Quanto mais idiota melhor).

O diretor Ian SBF, que tinha mostrado talento como cineasta em “Entre Abelhas”, aparece um pouco mais acomodado em “Contrato Vitalício”, e aparenta estar no “modo automático” na parte técnica. Ele acaba seguindo um caminho mais tradicional, mas de forma correta e competente. A direção de elenco é boa ao conseguir dar espaço para todos os personagens, principalmente os secundários. Dessa forma, faz com que todos tenham destaque e justificativa na tela. Nesse ponto, vale chamar a atenção para ótimas participações especiais as quais não vou citar nomes para não estragar a surpresa.

É bom ver o Porta dos Fundos nos cinemas mostrando seu talento em outra mídia, e trazendo um humor diferente dos padrões brasileiros atuais. A migração da Internet para o cinema foi bem sucedida. Agora é torcer para que nos próximos trabalhos a qualidade continue e entreguem um filme ainda melhor. Eles já conseguiram provar que são engraçados. Inclusive, eu dei mais risada no filme do que com a maioria dos vídeos do grupo no YouTube. Ainda assim, o talento deles é muito bom e eles têm capacidade para fazer algo ainda melhor.

* Texto revisado por Elaine Andrade


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Uma frase: Otacilio – “Você quer que eu de uma investigada e ele desapareça ou que eu de uma investigada e ele não ande nunca mais?”.

Uma cena: O beijo entre Fábio Porchat e Gabriel Totoro.

Uma curiosidade: O cartaz do filme foi inspirado no cartaz do filme “Os Vingadores – The Avengers”, com os personagens assumindo a mesma posição que os do blockbuster da Marvel.

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contrato-vitalicio-cartazPorta dos Fundos – Contrato Vitalício

Direção: Ian SBF
Roteiro: Fábio Porchat e Gabriel Esteves
Elenco: Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Luis Lobianco, Thati Lopes, João Vicente de Castro, Rafael Portugal, Júlia Rabello, Antonio Tabet, Gabriel Totoro e Marcos Veras
Gênero: Comédia
Ano: 2016
Duração: 100 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

4 thoughts on “Crítica | Porta dos Fundos – Contrato Vitalício

      1. Finalmente assisti e não gostei muito.

        Não me diverti, não me entrenti. Não chega a ser ruim não, mas é bem perdível

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