Crítica | Ponto Sem Retorno (2026)
Em um subgênero desgastado por mortos-vivos ou mutantes espetaculosos, Ponto Sem Retorno assusta justamente por colocar a maior ameaça do fim do mundo onde ela sempre esteve: na regressão moral e civilizatória da humanidade. O cineasta Ridley Scott recusa a urgência mecânica das produções contemporâneas para focar mais na resposta psicológica diante do isolamento absoluto. Sem pressa, ele constrói um apocalipse crível, sem misticismos ou soluções mágicas enquanto nos cerca de uma selvageria que cresce de forma pandêmica.
Na trama, acompanhamos Hig (Jacob Elordi), um piloto viúvo que vive em um hangar de aviação na companhia de seu cão e de Bangley (Josh Brolin), um ranzinza ex-fuzileiro naval. Enquanto o pragmatismo militar (e fascista) de Bangley garante a segurança do perímetro, Hig nutre uma melancolia profunda pelo mundo antigo. A rotina de sobrevivência da dupla é balançada no momento em que uma transmissão de rádio capta a atenção de Hig, acendendo a esperança de encontrar vida além de seu território e motivando uma jornada de alto risco e sem ponto de retorno.

A narrativa mescla a crueldade seca de Cormac McCarthy (A Estrada) com momentos de alegria e uma sensibilidade poética muito próxima de Estação Onze. Hig não quer apenas sobreviver e seguir a vida; ele busca preservar a beleza, a memória, a leitura e a afetividade no meio das ruínas. Essa ameaça constante ganha forma nos grupos errantes que, por onde passam, deixam um rastro de morte, caos e destruição. Em vez de zumbis, o perigo real vem da proliferação de um tribalismo selvagem e territorialista, é como se, aqui, nesta história, o verdadeiro terror do fim dos dias fosse civilizatório e moral.
Ridley Scott não precisou se reinventar, mas se mostrou bem “contido” com suas marcas registradas. A estética do “mundo sujo” faz com que o hangar e a cabine do Cessna (a pequena e surrada aeronava amarela de Hig) transpirem realidade, seja n o desgaste das ferramentas, no couro gasto do manche e também na poeira acumulada nos cantos, tudo isso ajuda a construir um universo bastante crível em que nada parece ter saído estúdio estéril, limpo. Além disso, a fotografia tátil recortada por feixes de luz solar e o contraste geográfico entre o abrigo claustrofóbico e a vastidão hostil resgatam o melhor da linguagem que o consagrou no gênero da ficção científica. A diferença aqui é que tio Scott desacelera voluntariamente: dando tempo para cada cena respirar, substituindo a habitual frieza técnica por uma vulnerabilidade emocional latente, algo incomum em sua filmografia recente.
O quanto de tudo isso veio das mãos hábeis de Scott ou do livro o qual a história é inspirada daria uma boa discussão. O fato do livro ser “antigo” (2012), também ajuda a trazer esse, bem-vindo, desaceleramento em cada uma das sequências da história.
Da mesma forma que o longa inicia, ele se encerra. O desfecho conclui o terceiro ato sem pressa, recusando clichês de tiroteios desenfreados apenas para agradar fórmulas de bilheteria, honrando a densidade psicológica de seus personagens. Ainda que não seja uma produção tão indicada para as mentes mais jovens ou inquietas dos tempos atuais, para aqueles que já estão cansados dessa correria desenfreada das produções recentes, Ponto Sem Retorno se consolida, assim, como uma das experiências mais maduras, corajosas e genuinamente humanas do cinema distópico recente.

Uma frase: “Sinto falta de música. Cantar no caminho para o mercado. Sinto falta do mercado.
Uma cena: As sequências de voo em que Hig contracena na cabine do Cessna com seu cão de guarda sobre a vastidão desolada.
Uma curiosidade: O cão que contracena com Jacob Elordi é um Malinois belga chamado Raksha. Quando o cachorro corria espontaneamente para perseguir algo no cenário durante as gravações, Ridley Scott mantinha as câmeras rodando e incluía esses improvisos no corte final para garantir mais autenticidade.

Ponto Sem Retorno (The Dog Stars)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Mark L. Smith
Elenco: Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley, Guy Pearce, Allison Janney
Gênero: Ficção Científica, Drama, Thriller
Ano: 2026
Duração: 1h 58min
