Crítica | La perra (2026)

Crítica | La perra (2026)

O filme “La perra”, de Dominga Sotomayor, faz um estudo de personagem centrado em uma mulher que vive em uma ilha isolada no Chile após adotar uma cadela. Inicialmente, vemos um pouco de seu cotidiano enquanto ela trabalha catando algas no mar. Essa rotina muda com a chegada do animal.

A ideia do roteiro de Inés Bortagaya, que adapta o livro de mesmo nome da autora Pilar Quintana, é mostrar como a substituição da maternidade humana pela adoção de um animal afeta a protagonista. Tanto o argumento de Bortagaya quanto a direção de Sotomayor utilizam sutileza para retratar a personagem.

Isso tem o lado positivo de deixar para o espectador a possibilidade de criar suas próprias interpretações sobre o efeito da chegada de Yuri na vida de Silvia. A atriz Manuela Oyarzún é muito expressiva e, por meio de suas expressões corporais, entendemos um pouco de seus sentimentos. Isso é importante, pois ela é uma mulher de poucas palavras. A relação com seu companheiro, Mario (David Gaete), é marcada por poucos diálogos e momentos de afeto. É visível o efeito da cadela na vida deles.

Por outro lado, essa sutileza leva a uma falta de aprofundamento da história. Aos poucos, descobrimos mais sobre a vida de Silvia, um trauma do passado e como isso afeta o presente. No entanto, a forma como esses elementos são retratados deixa muitas questões em aberto e torna a narrativa um pouco superficial. Nem sempre as ações da personagem deixam claras suas motivações e seus sentimentos.

A fotografia capta a beleza natural da ilha e reforça o isolamento da protagonista naquele ambiente. Contudo, quem tem os melhores momentos explorando a natureza é a cadela Yuri. Em determinado momento da história, ela foge, e sua jornada é um dos pontos altos de “La perra”. É muito interessante acompanhar algumas cenas do ponto de vista do animal. A forma como ela é filmada capta de maneira fascinante a expressividade da cadela.

Outro destaque do filme é a participação de Selton Mello como tio Duda, de Silvia, que aparece para visitar a família. Esse momento funciona como um flashback da vida da protagonista, no qual conhecemos um pouco de sua infância. Descobrimos mais sobre o trauma da personagem e a origem de seu gosto por cantar. A cena em que Duda canta “Aguenta Coração”, de José Augusto, é muito tocante.

A cena simboliza um pouco da influência do Brasil na América Latina, pois a jovem conhece a canção por meio da novela “Barriga de Aluguel”. Ao mesmo tempo, ela nos lembra de como nós, brasileiros, temos pouco contato com a cultura dos países vizinhos. Curiosamente, “La perra” tem um pouco dessa mistura latina, pois reúne um produtor brasileiro (Rodrigo Teixeira), uma diretora e uma protagonista chilenas, uma roteirista uruguaia e uma escritora colombiana, autora do livro.

Outro simbolismo importante é a caverna, onde ocorre o trauma de Silvia. Trata-se de um lugar isolado dentro de outro lugar isolado: a ilha. A protagonista parece enterrar esse sentimento o mais profundamente possível, a ponto de tornar difícil compreender sua dor e sua dificuldade em superá-la. A presença da cadela, evocada pelo título em espanhol, afeta a protagonista. É uma pena que a obra de Dominga Sotomayor não consiga se aprofundar tanto quanto poderia, mas, ainda assim, é um bom filme, beneficiado por belas paisagens, ótimas atuações e, principalmente, pela presença da cadela Yuri e de Selton Mello.


Uma frase: Silvia: “YURI!”

Uma cena: Quando Duda (Selton Mello) canta “Aguenta Coração”, de José Augusto.

Uma curiosidade: O filme estreou em 18 de maio de 2026 na mostra paralela Quinzena dos Cineastas (antiga Quinzena dos Realizadores) do Festival de Cannes. No Brasil, a primeira exibição foi no encerramento da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, realizada em agosto de 2026.


La perra

Direção: Dominga Sotomayor
Roteiro: Inés Bortagaya
Elenco: Manuela Oyarzún, David Gaete, Selton Mello, Paula Luchsinger, Paula Dinamarca e Rafaella Grilberg
Gênero: Drama
Ano: 2026
Duração: 112 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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