Crítica | Resident Evil (2026)
Tem sido uma era gloriosa para as adaptações cinematográficas de videogames. Após décadas de películas cuja qualidade variava entre “aceitável” e “desastre de trem”, finalmente tivemos bons exemplos recentes, principalmente com adaptações de jogos indie, como “Iron Lung: Oceano de Sangue” e “Exit 8”. Faltava, porém, uma adaptação realmente de qualidade de um título “triplo-A”. E, para isso acontecer, eram necessárias, pelo menos, três coisas: gente talentosa de verdade por trás do projeto, vontade de fazer algo diferente sem deixar de ser genuíno e liberdade criativa.
Pois eis que essas três coisas finalmente convergiram, e o resultado foi o reboot da franquia “Resident Evil” nos cinemas.
Sob a tutela de um dos queridinhos do terror moderno, Zach Cregger (do excelente “A Hora do Mal”), a nova adaptação se arrisca a sair da zona de conforto na qual a esmagadora maioria das adaptações de games escolheu se situar. Em vez de adaptar diretamente a história de qualquer um dos jogos, o filme parte para uma premissa inédita, paralela aos acontecimentos do segundo game da série, com personagens novos e uma ausência total dos queridinhos dos fãs: Leon S. Kennedy, Chris Redfield, Jill Valentine, Claire Redfield, Ethan Winters ou Ada Wong. Nenhum deles é sequer mencionado durante o filme – o que é excelente.
Primeiro, porque, ao contar uma história inédita, o filme escapa das armadilhas de tentar transportar para o cinema situações e convenções que funcionam muito bem em um jogo, mas que podem se tornar bastante artificiais quando levadas para as telonas. Segundo, porque os personagens clássicos da série – me perdoem os fãs, e olha que sou um deles – têm a profundidade de um pires.
A trama acompanha o jovem Bryan, um entregador que trabalha transportando materiais médicos entre hospitais, geralmente órgãos para transplante. Prestes a encerrar o dia, ele recebe uma última encomenda, de altíssima prioridade, para entregar no hospital de Raccoon City. É noite, o tempo está péssimo, a estrada está coberta de neve, mas ele acaba aceitando a missão por uma tentadora oferta: receber o pagamento em dobro. É no meio desse trajeto que as coisas começam a dar vertiginosamente errado.
Se considerarmos apenas a premissa, um tanto genérica, “Resident Evil” poderia ter qualquer outro nome e ser apenas mais um filme de zumbis. No entanto, a liberdade conquistada ao não precisar reproduzir a história de nenhum dos jogos permite que o filme explore o universo da franquia por outro caminho: através de seus tropos.
De maneira muito inteligente, o roteiro de Cregger incorpora diversos elementos familiares da série de games sem transformá-los em fan service gratuito. O resultado é que, enquanto um jogador veterano consegue reconhecer claramente essas referências e se sentir dentro de uma experiência de “Resident Evil”, quem não conhece os jogos pode simplesmente aproveitar o filme sem esbarrar em situações que pareçam deslocadas.
Um exemplo é a escassez constante de recursos, um dos elementos mais recorrentes dos jogos, utilizada aqui como uma fonte permanente de tensão. Outro é a progressão do arsenal: Bryan encontra armas cada vez melhores durante sua jornada, quase como se estivesse fazendo upgrades, mas isso acontece de maneira tão orgânica que não parece uma mecânica de videogame transplantada para o cinema.
O próprio jogo de câmera também brinca com a linguagem da franquia, recorrendo a enquadramentos e ângulos que remetem especialmente aos primeiros jogos, quando a série ainda utilizava um sistema de câmera fixa. Cregger, porém, entende que simplesmente reproduzir uma mecânica visual não seria suficiente. Ele incorpora essa linguagem à própria mise-en-scène do filme, fazendo com que ela funcione tanto como referência para quem conhece a série quanto como recurso cinematográfico por si só.
Cregger também se mostra um mestre em criar e sustentar tensão. Desde o primeiro encontro de Bryan com uma criatura até os créditos finais, o filme mantém uma sensação constante de perigo, com pouquíssimos momentos para respirar. E, quando esses momentos acontecem, geralmente vêm acompanhados de cenas engraçadas, mas sempre na dose certa.
Em nenhum momento o humor quebra o ritmo ou suspende a descrença. O filme sabe exatamente quando aliviar a tensão e quando voltar a apertar o parafuso, alternando os dois extremos quase como uma boa montanha-russa.

Ajuda ainda o fato de o elenco ser de muita qualidade, ainda que em sua maioria composto por atores pouco conhecidos (o mais famoso talvez seja Zach Cherry, o excelente Dylan G. de “Severance”). Bryan, interpretado por Austin Abrams, em especial, entrega uma performance bastante convincente, explorando a fragilidade do personagem sem apagar sua determinação em concluir a entrega. Isso fica especialmente evidente quando ele finalmente entende tudo o que está em jogo naquele trabalho.
Apoiando o trabalho de Cregger está a edição fenomenal de Joe Murphy, que já havia trabalhado com o diretor em seus dois filmes de terror anteriores e foi bastante elogiado por seu trabalho em “A Hora do Mal”. Boa parte da tensão frenética que percorre o filme vem justamente dessa montagem, do ritmo que ela imprime à narrativa, e dos sustos muito bem construídos.
O resultado é um filme delicioso, que entrega 100% do que promete – e vai além. O final talvez seja um pouco polêmico – alguns vão odiar – mas o filme é principalmente sobre a jornada, e essa foi irretocável. Melhor adaptação cinematográfica de um jogo de videogame, de todos os tempos? Sem a menor sombra de dúvidas.

Uma frase: SIM! VIDEOGAMES!
Uma cena: Bryan sobe uma rua correndo desesperadamente, enquanto “coisas” não muito agradáveis despencam do céu…
Curiosidade: Zach Cregger é um grande fã de verdade dos jogos, e isso fica muito evidente no carinho que ele dedicou ao filme.

Resident Evil
Direção: Zach Cregger
Roteiro: Zach Cregger e Shay Hatten
Elenco: Austin Abrams, Zach Cherry, Kali Reis e Paul Walter Hauser
Gênero: Terror, Ação, Ficção científica
Ano: 2026
Duração: 94 minutos
