Crítica | Supergirl (2026)
“Seja uma boa garota, mas não leve desaforo pra casa – seja ela onde for.”
Supergirl começa praticamente em movimento. Em continuidade direta com Superman, Kara Zor-El está no espaço, farreando como quem tenta transformar deslocamento em estilo de vida, quando Ruthye Marye Knoll aparece em um boteco pé-sujo intergaláctico impossível de não comparar – como os outros botecos do filme – com a velha cantina de certo planeta chamado Tatooine. Mas sem dúvida o filme acerta ao entrar logo na aventura, deixando os traumas de Kara borbulhando sob a superfície.
O passado surge em flashbacks que marcam a estrutura emocional do filme, especialmente no fim do primeiro e do segundo atos. Zor-El – irmão de Jor-El e pai de Kara – tenta salvar parte de Krypton criando um campo de força ao redor de Argo, cidade que sobrevive como fragmento condenado depois da explosão do planeta. Kara cresce nesse resto de civilização, cercada por morte, até ser enviada à Terra já adolescente.
É daí que nasce a melhor ideia do filme: o grande poder de Kara não são seus superpoderes, mas sua personalidade. Ela é briguenta, cínica, beberrona, imprudente e, no início, quase flerta com o niilismo. Mas por baixo da casca grossa existe empatia verdadeira, uma disposição para fazer o bem sem cair na ingenuidade escoteira. Kara não quer ser Superman, e o filme entende isso muito bem.
A trama de vingança de Ruthye funciona porque se cruza com esse trauma sem precisar explicar tudo de uma vez. Filha de um armeiro intergaláctico assassinado por Krem e os Brigands, ela busca alguém que a ajude a punir os culpados. Quando Krem rouba a nave de Kara e envenena Krypto, a perseguição ganha urgência concreta. Mas o verdadeiro conflito está em impedir que Ruthye deixe sua própria perda virar ferramenta de destruição.
Em matéria de direção, Supergirl é protocolar, claramente atravessado pela mão pesada de James Gunn como produtor e arquiteto desse novo universo. Isso tem virtudes e limites. Por um lado, o filme conversa muito bem com Superman, preservando o mesmo tom colorido, afetivo, estranho e levemente bagunçado. Por outro, Craig Gillespie parece cumprir o papel de diretor funcional de Hollywood, competente, mas sem assinatura própria.
As boas notícias da parte técnica ficam mesmo nos efeitos visuais acima da média, especialmente nas cenas de voo e no espaço, que dão a Kara uma fisicalidade mais convincente do que algumas sequências vistas em Superman. Em termos de direção de arte, o destaque fica para as novas camadas da sociedade kryptoniana apresentadas através de Argo City, onde o filme encontra beleza, cultura, luto e solenidade quase barroca.

Por outro lado, ao ambientar o mundo presente de Kara Zor-El, a direção de arte se revela limitada e pouco criativa, desperdiçando a grandeza do universo cósmico da DC em uma sucessão de botecos alienígenas tão genéricos quanto aquela cópia da cantina de Tatooine citada lá no começo. A única diferença – e ponto divertido – desses botecos é o Maioral, com Jason Momoa quase roubando o filme como Lobo.
Por pouco Momoa não sequestra tudo com uma caracterização quase perfeita de um personagem que parece mesmo ter sido criado sob medida para ele, ainda que Lobo tenha surgido décadas antes de Momoa se tornar o ator que passamos a conhecer e admirar. Com essa pequena aparição, um filme solo – ou pelo menos novas participações em outros filmes da DC – do último czarniano vivo parece mais do que garantido.
Embora seja um filme divertido, despretensioso, bem executado e sustentado por um trio de atores principais carismáticos o suficiente para nos fazer importar com eles, Supergirl está longe de ser livre de problemas. O terceiro ato, por exemplo, sofre com uma falsa urgência bastante evidente quando Kara é convenientemente enfraquecida pela radiação de um sol verde no planeta onde os Brigands foram se refugiar. O problema é que o próprio roteiro anuncia que aquele planeta orbita dois sóis, um verde e outro amarelo, e sabemos que é apenas uma questão de tempo até Kara se recuperar – assim como é bastante evidente, a essa altura, que esse atraso narrativo em nada vai colocar em risco a vida de Krypto.
Isso nos leva a outro elemento narrativo interessante que, por uma limitação da fotografia, acaba se revelando incômodo: o filme usa sóis vermelhos, amarelos e verdes como mecanismo para ligar, desligar ou contaminar os poderes de Kara, mas raramente traduz essa diferença em atmosfera. O sol verde ganha presença visual clara, enquanto os mundos sob sóis vermelhos ou amarelos parecem iluminados de maneira quase indiferente, como se a cor dos astros importasse apenas para a ficha técnica kryptoniana da personagem. E, ainda que volta e meia sejamos lembrados da contagem regressiva para salvar Krypto, à medida que o filme se aproxima do fim nos convencemos cada vez menos de que é mesmo a vida dele que está em risco. O resultado é um clímax funcional, bem filmado e divertido, mas apoiado em uma urgência mais mecânica do que emocional.
Não que falte emotividade. O filme acerta bem ao explorar o verdadeiro ato de heroísmo de Kara: superar sua própria dor e amargura para impedir que uma garota, que poderia ter sido ela, perca a alma em um ato de vingança. Kara, por sua vez, sofreu o bastante para saber que ser boa não significa ser ingênua, e que ser forte sem ser cruel não significa ser sempre clemente.
É por entender isso que o filme de Craig Gillespie funciona melhor justamente quando Supergirl recupera seus poderes e parte para o resgate de Ruthye, finalmente trajada com o uniforme que seu primo lhe deu, mas agora sabendo melhor quem ela é – e não apenas como uma cópia feminina do Superman. É isso que faz a catarse funcionar: Supergirl é uma personagem incompleta, mas não inacabada. Pelo contrário. Ela sabe exatamente quem não é, embora ainda esteja no processo de descobrir que tipo de heroína, amiga, prima e supermulher ela de fato é.

Uma frase: O último pedido de Alura a Kara – ser boa, mas sem confundir bondade com submissão, fragilidade ou ingenuidade – é a bússola moral de toda a personagem.
Uma cena: O funeral de Alura em Argo. É ali que o filme empacota luto, origem, cultura kryptoniana, trauma e beleza visual em seu momento mais sensível e mais bem realizado.
Uma curiosidade: Argo City não é uma invenção aleatória do filme: a cidade faz parte da mitologia clássica da Supergirl nos quadrinhos. A confusão comum é com Kandor, outra cidade kryptoniana famosa, associada à ideia da cidade engarrafada.

Supergirl (Supergirl)
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Ana Nogueira
Elenco: Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham, David Corenswet e Jason Momoa
Gênero: Ação, Aventura, Drama, Ficção científica
Ano: 2026
Duração: 107 minutos
