Crítica | Backrooms: Um Não-Lugar
É impossível falar sobre “Backrooms: Um Não-Lugar” sem falar sobre novos cineastas vindos do YouTube que estão fazendo sucesso em Hollywood. Além do jovem Kane Parsons, de 20 anos, destacam-se Curry Barker, de 26, diretor de “Obsessão”, e Markiplier, de 36, responsável por “Iron Lung: Oceano de Sangue“. Todos eles começaram a dirigir curtas lançados no streaming de vídeo do Google e lançaram longas-metragens em 2026 que fizeram grande sucesso de bilheteria e tiveram orçamentos pequenos para os padrões da indústria de cinema americana.
Parsons foi o que teve acesso ao maior orçamento: US$ 10 milhões (R$ 52 milhões aproximadamente), bancado pela produtora A24. Ainda teve direito a um elenco com dois grandes nomes de Hollywood: Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve.
Inspirado na série de curtas dirigido pelo próprio Parsons, o roteiro de Will Soodik desenvolve uma história para justificar a presença dos personagens nos backrooms (“salas dos fundos”, ou o “Um Não-Lugar” do subtítulo em português, se preferir). O conceito do local surgiu em 2019 em fóruns da Internet, e caso queira saber mais sobre a origem, recomendo esse artigo da BBC Brasil: “Backrooms: como surgiu a ideia para o perturbador filme que se tornou um dos maiores sucessos de 2026“. Segundo o texto: “Backrooms são, essencialmente, salas abandonadas e sinistras, sem fim à vista”.
A trama se passa nos anos 1990, o que justifica um pouco do clima retrô da estética do filme. O protagonista é Clark (Chiwetel Ejiofor), um homem recém-divorciado e dono de uma loja de móveis. Ele perdeu sua casa para a ex-esposa e mora na própria loja. Para lidar com a situação, ele faz terapia com a Dra. Mary (Renate Reinsve).
Clark notou problemas com a eletricidade do local e um dia ao descer para investigar o problema na parte subterrânea da loja, descobre por acaso um tipo de passagem secreta para um local misterioso. O lugar tem paredes amarelas, parece abandonado e tem alguns móveis largados por lá. Além disso, ao explorar o espaço, ele descobre que a estética é bem peculiar, sem parecer seguir qualquer lógica e aparentemente sem fim.
Seria o lugar algum tipo de reflexo ou refúgio da mente do protagonista? Ou melhor, como o backroom altera o comportamento de quem entra no local? O diretor Kane Parsons não está interessado em entregar respostas fáceis para o espectador. É possível perceber a influência de David Lynch na estética experimental que remete à lógica dos sonhos. Sendo assim, Parsons explora a estranheza dos backrooms priorizando a experiência sensorial do espectador.
Isso funciona graças a uma ótima parte técnica. O principal elemento é a cenografia na construção dos cenários dos backrooms. A riqueza de detalhes impressiona, e cada nova sala revela elementos inesperados capazes de causar estranhamento.
Outro elemento importante é a trilha sonora feita pelo próprio Kane Parsons em parceria com Edo Van Breemen, que apresenta temas com um tom misturando instrumentos eletrônicos com sons diegéticos dos ambientes, criando uma imersão fascinante dentro da narrativa.

Por último, a fotografia de Jeremy Cox explora com eficiência os movimentos de câmera, especialmente quando apresenta o ponto de vista subjetivo de algum personagem que está com uma câmera na mão. Como a história se passa nos anos 1990, a filmadora é em VHS e esses momentos remetem a obras de “found footage”. Temos a mudança da razão de aspecto para o formato “quadrado”, das antigas televisões, que além da nostalgia, tornam as imagens captadas mais assustadoras e claustrofóbicas.
O elenco também merece destaque, pois tanto Ejiofor quanto Reinsve entregam atuações nas quais a expressão corporal desempenha papel fundamental. A forma como os personagens reagem às situações é interessante e a narrativa funciona justamente pelo espectador acreditar nas sensações transmitidas tanto pelos atores quanto pela já citada parte técnica.
Dessa forma, “Backrooms: Um Não-Lugar” é uma grata surpresa e que mostra quanto o gênero terror é responsável por obras experimentais e provocadoras. O diretor Kane Parsons demonstra um grande talento para o cinema e resta agora aguardar pelos seus próximos projetos, que terão uma expectativa bem alta.

Uma frase: – Clark: “Venho toda noite desde que achei este lugar, e mal arranhei a superfície.”
Uma cena: Quando a Dra. Mary entra na Backroom.
Uma curiosidade: A produção construiu cerca de 9144 metros quadrados de cenários das “Backrooms”, o que levava alguns membros da equipe a se perderem ocasionalmente no set.

Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms)
Direção: Kane Parsons
Roteiro: Will Soodik
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell
Gênero: Terror, Suspense, Horror, Ficção científica
Ano: 2026
Duração: 110 minutos
