Crítica | Obsessão (Obsession)

Crítica | Obsessão (Obsession)

Como saber se a pessoa na qual você está apaixonado sente alguma coisa por você também? Se vocês foram amigos e não for recíproco, será que se você confessar isso irá estragar a amizade? Inicialmente esse seria o tema de “Obsessão”, filme de estreia do diretor Curry Barker. Felizmente, o cineasta aposta em uma abordagem mais intensa e usa o terror como tom da narrativa, criando uma obra tensa, assustadora, verossímil e um pouco tragicômica sobre relacionamentos, mais especificamente sobre relações abusivas.

A história gira em torno de Bear, um jovem que tem uma paixão platônica por sua melhor amiga e colega de trabalho Nikki. Parece até haver um certo flerte inocente entre os dois, mas parece que a moça só quer o rapaz na “zona de amizade”. Um dia ela comenta que perdeu um colar e ele resolve comprar outro em uma loja meio exotérica, mas ao chegar lá se depara com um produto curioso. É um “salgueiro sagrado”, um pedaço de madeira que promete realizar o seu desejo, bastando quebrar o objeto. O protagonista resolve levar para casa e ver se funciona, mas a maneira como as coisas evoluem não é exatamente como ele imaginava.

Obsessão” parece inicialmente ser como um episódio de “Além da Imaginação”, com um tom que parece apostar no fantástico. Contudo, o diretor e roteirista Curry Barker é inteligente em desenvolver a premissa. Se tudo que Bear queria era que Nikki fosse apaixonada por ele, o jovem não estava preparado para aguentar o sentimento de obsessão (do título) da moça.

A grande sacada de Barker é apresentar uma metáfora sobre um relacionamento abusivo, só que do ponto de vista masculino. No entanto, é difícil falar sobre “Obsessão” sem citar alguns elementos da trama. A partir daqui a análise entrará em spoilers sobre a história.

Quando Bear faz o seu desejo ele fala que gostaria de ser a pessoa que Nikki mais ame no mundo. Assim, é curiosa a abordagem da moça após se “apaixonar”. Ela tem receio de descobrir se seus sentimentos serão correspondidos, assim como ele também temia. Então a jovem chega de “mansinho” e até inventa mentiras, como dizer que está com problemas em lidar com um problema de saúde do pai, somente porque no início da história o gato de Bear morre. É a estratégia que ela encontra de conquistar sua empatia e criar algum tipo de conexão.

A forma como a fotografia de Taylor Clemons filma as cenas é brilhante em criar um clima de tensão em torno do que seria um momento romântico. Muitas vezes vemos Nikki sob sombras, mostrando que ela está sob efeito de algum “feitiço”. Ela parece ser apenas uma mulher fofa e apaixonada, mas seu comportamento escala abruptamente, principalmente quando não se vê correspondida por Bear.

Outro elemento que ressalta essa dualidade de tons entre romance e terror é a mistura entre a trilha sonora de Rock Burwell e o desenho de som. Um bom exemplo é a cena de sexo entre Bear e Nikki, que deveria ser algo romântico, mas o tema composto por Burwell deixa claro que estamos diante de algo assustador. Como Nikki está privada de sua autonomia pelo efeito do pedido feito por Bear, a relação sexual apresentada pelo filme assume contornos de violência sexual. O diretor usa muitos planos longos, então essa sensação de desconforto muitas vezes é prolongada de maneira eficaz em provocar uma reação no espectador. A montagem é eficaz nesse ponto em alterar esse prolongamento com um corte abrupto, intensificando a emoção do que foi apresentado anteriormente.

Nesse ponto, é importante deixar claro algo que talvez muitos espectadores, principalmente homens, não enxerguem, ou não queiram admitir: o vilão da história é Bear. O rapaz inicialmente pode até ser bem-intencionado, ou ser um pouco ingênuo, mas não demora para perceber que existe algo de errado no que ele está fazendo, só que ele decide levar adiante. Principalmente quando ele descobre que a Nikki “de verdade” está aprisionada dentro da versão enfeitiçada de si mesma, observando tudo o que acontece. Tudo bem, o protagonista depois de um tempo se sente culpado e tenta fazer alguma coisa. O problema é que a resolução envolve um dilema moral ainda maior. O desejo só deixará de existir se ele morrer ou então se ela for morta. Entretanto, isso não o exime da culpa inicial.

Dessa maneira, é necessário ressaltar as atuações. Michael Johnston está muito bem como Bear e mostra como mesmo uma pessoa ingênua e bem-intencionada pode se tornar um monstro, sem deixar sua humanidade de lado. O ator não deixa seu personagem cair num clichê de obras de terror. Contudo, quem rouba a cena e entrega uma atuação brilhante é Inde Navarrette. O que ela faz na construção de Nikki é louvável, onde a mudança de comportamento abrupta explora as nuances dos clichês da “mulher louca” sem deixar de ser verossímil. O drama da personagem é complexo e intrigante, e Navarrette entrega uma performance visceral.

Dessa forma, “Obsessão” é uma grata surpresa e mostra o quanto o gênero terror é capaz de produzir obras tão únicas e singulares. O gênero é responsável por apresentar novos talentos, como é o caso de Curry Barker, que pega uma premissa simples e um orçamento pequeno, entregando um filme brilhante e que não tem medo de arriscar. Ao transformar uma fantasia romântica em um pesadelo moral, Barker entrega um terror que assusta menos pelos elementos sobrenaturais e mais pelas implicações humanas de seus personagens


Uma frase: – Bear: “Desejo ser a pessoa que a Nikki Freeman mais ame no mundo.”

Uma cena: Quando Bear e Nikki fazem sexo pela primeira vez.

Uma curiosidade: O filme foi rodado com menos de um milhão de dólares e adquirido pela Focus Features para distribuição por mais de 15 milhões de dólares após uma disputa acirrada. Várias distribuidoras queriam o filme, incluindo a A24 e a NEON.


Obsessão (Obsession)

Direção: Curry Barker
Roteiro: Curry Barker
Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless e Andy Richter
Gênero: Terror, Romance, Thriller
Ano: 2025
Duração: 109 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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