Crítica | Mundurukuyü: A Floresta das Mulheres Peixe
Por Kaime Silvestre Silva Oliveira, advogado, formado em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Direito Internacional Público pela Université Libre de Bruxelles (ULB). Atua nas áreas de direitos humanos e direitos dos povos indígenas.
Durante muito tempo, os povos indígenas foram filmados, fotografados e descritos a partir do olhar de quem vinha de fora. Em Mundurukuyü: A Floresta das Mulheres Peixe, esse caminho se inverte. São três jovens mulheres Munduruku que pegam as câmeras, os celulares e os drones para contar suas próprias histórias, registrar seu território e mostrar como memória, espiritualidade e vida cotidiana continuam profundamente ligadas à floresta.
Dirigido por Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay, do coletivo audiovisual Daje Kapap Eypi, da aldeia Sawre Muybu, no Pará, o documentário acompanha a vida Munduruku às margens do rio Tapajós. Mas talvez seja pouco dizer que o filme simplesmente “acompanha” essa comunidade. O que vemos é uma história contada de dentro, por pessoas que pertencem àquele território e às histórias que estão registrando.
Isso fica evidente logo no início, quando as três jovens aparecem conversando sobre o próprio documentário que estão começando a fazer. É uma escolha simples, mas importante: antes de conhecermos a história, conhecemos quem decidiu contá-la.
A partir daí, o filme atravessa relatos dos moradores, histórias transmitidas entre gerações, rituais, momentos da vida comunitária e imagens da floresta. Em alguns momentos, animações acompanham as histórias narradas pelos personagens, criando uma ponte muito bonita entre a tradição oral e o audiovisual.
Uma fala das próprias diretoras ajuda a entender esse movimento: “Para nós, diretoras, é importante estar fazendo este filme porque estamos contando a história que antigamente era contada oralmente.”
Talvez esteja aí uma das maiores forças de Mundurukuyü. O filme não apresenta a câmera, o celular ou o drone como elementos estranhos à cultura Munduruku. Pelo contrário, essas tecnologias se tornam novas ferramentas para uma tarefa muito antiga: guardar histórias e transmiti-las às próximas gerações. E são histórias extraordinárias.
Uma das principais narrativas apresentadas conta que os homens saíam para caçar enquanto as mulheres iam ao rio encontrar um homem que havia se transformado em anta. Elas namoravam com ele e ficavam grávidas. Quando os homens descobriram o que acontecia, mandaram as mulheres embora e foram atrás do amante-anta para matá-lo.
O mais interessante é que o filme não transforma essas histórias em algo distante ou solene demais. Há muito humor. Quem conta ri, quem está em volta ri e nós acabamos rindo junto. Isso me marcou bastante.
Existe uma tendência de retratar povos indígenas no cinema e no jornalismo quase exclusivamente por meio da violência que sofrem. São invasões, garimpo, desmatamento, conflitos e assassinatos. Evidentemente, tudo isso faz parte da realidade e não pode ser ignorado. O próprio território Munduruku enfrenta as ameaças do garimpo ilegal, da exploração da madeira e da falta de proteção territorial.
Mas um povo não pode ser definido apenas pelas violências cometidas contra ele. Em Mundurukuyü, os Munduruku também riem, brincam, contam histórias, celebram, pescam, recebem parentes, fazem festa e vivem. E é justamente nesses momentos aparentemente mais simples que o documentário encontra algumas de suas imagens mais bonitas.
Em um dos rituais apresentados, parentes chegam de diferentes lugares da região para participar da celebração. “Parente” é a forma como indígenas de diferentes povos costumam se reconhecer e se chamar, e o filme consegue transmitir muito bem esse espírito coletivo.
Durante o ritual, as mulheres retiram de galhos de uma árvore uma substância branca usada para pintar os homens. A pintura rapidamente se transforma numa grande brincadeira. Há risadas e provocações até que todos seguem para o rio para se lavar.
Depois, o bagaço da árvore é colocado na água. A substância liberada paralisa temporariamente os peixes, que são recolhidos e utilizados para alimentar as pessoas reunidas na festa. É uma sequência aparentemente cotidiana, mas que diz muito.
A árvore fornece a pintura. O rio recebe os corpos. A mesma planta ajuda na pesca. Os peixes alimentam a celebração. A celebração reúne os parentes.Tudo está conectado.
A partir dessas cenas, fica mais fácil compreender outra dimensão fundamental do documentário: a floresta não aparece apenas como paisagem. Ela é personagem, memória, alimento, território e também família.
Os espíritos que habitam aquele universo não são apresentados como figuras de um passado distante ou como elementos de um folclore a ser explicado para quem assiste. Eles fazem parte da vida. Na própria mitologia Munduruku apresentada pelo filme, humanos se transformaram, na origem do mundo, em floresta, plantas e animais. Isso muda completamente a maneira de compreender o que significa defender aquele território.
Quando se destrói uma floresta como aquela, não se derrubam apenas árvores. Desaparecem lugares sagrados, caminhos, memórias, plantas conhecidas há gerações, espaços onde determinadas histórias aconteceram e relações construídas entre humanos e outros seres.
Por isso, Mundurukuyü também é profundamente político, mesmo quando não está fazendo um discurso político direto. Filmar a floresta é uma maneira de defendê-la. Filmar uma anciã contando uma história é uma maneira de preservá-la. Filmar um ritual é construir memória.
E colocar uma câmera nas mãos de três jovens mulheres indígenas significa também disputar quem tem o direito de produzir as imagens pelas quais os povos indígenas serão conhecidos.
Esse talvez seja o elemento que mais me interessa no documentário.

Aldira, Beka e Rilcélia aparecem diante e atrás das câmeras. Nós as vemos preparando as gravações, conversando e construindo o próprio filme. Isso impede que esqueçamos que existe uma escolha por trás daquelas imagens e que, desta vez, essa escolha pertence às próprias mulheres Munduruku.
Há ainda algo especialmente bonito no encontro entre gerações promovido pelo filme. Os mais velhos carregam histórias transmitidas pela oralidade; as mais jovens aprendem essas histórias e, ao mesmo tempo, encontram novas maneiras de fazê-las circular. Não existe contradição entre ancestralidade e tecnologia.
Um drone sobrevoando a Amazônia nas mãos de uma jovem Munduruku pode ser tão importante para a proteção da memória quanto a câmera que registra a palavra de uma anciã. A tecnologia, nesse caso, não apaga a tradição: ajuda a carregá-la adiante.
Tecnicamente, o documentário também impressiona. A qualidade das imagens, as tomadas aéreas, as animações que acompanham as narrativas e a maneira como os depoimentos são costurados ajudam a construir um filme bonito e envolvente. Mas sua maior qualidade não está simplesmente na beleza das imagens. Está na intimidade. As pessoas filmadas não estão falando com completos desconhecidos. Estão falando com parentes.
Isso aparece nas conversas, nas brincadeiras e nas risadas. A câmera consegue entrar em espaços aos quais dificilmente teria acesso da mesma maneira se estivesse sendo conduzida exclusivamente por uma equipe externa.
Ao final, Mundurukuyü: A Floresta das Mulheres Peixe deixa uma reflexão que vai muito além da preservação ambiental. O filme fala sobre o direito de continuar existindo e sobre a importância de um povo poder contar a própria história.
Em determinado momento ouvimos:
“A gente ainda não perdeu a nossa língua, nossas histórias, nossos lugares sagrados, e a gente continua resistindo. Sawé!” O “ainda” dessa frase carrega séculos de ameaças. Mas o restante dela carrega algo muito maior: permanência.
A língua continua sendo falada. As histórias continuam sendo contadas. Os lugares sagrados continuam sendo lembrados e defendidos. Os parentes continuam se reunindo. As crianças continuam aprendendo. E agora três jovens mulheres Munduruku também apontam suas câmeras para tudo isso.
Talvez essa seja a imagem que permaneça depois dos 72 minutos de filme. Não a de um povo preso ao passado, nem a de um povo condenado a desaparecer, mas a de uma geração que aprendeu a usar as ferramentas do presente para garantir que suas histórias cheguem ao futuro.
Uma frase: “A gente ainda não perdeu a nossa língua, nossas histórias, nossos lugares sagrados, e a gente continua resistindo. Sawé!”
Uma cena: Quando as três jovens aparecem conversando sobre o próprio documentário que estão começando a fazer.
Uma curiosidade: O coletivo Daje Kapap Eypi começou a trabalhar com filmes em 2014, quando câmeras foram usadas para filmar a autodemarcação do povo Munduruku. Desde então, além do trabalho político em prol dos direitos indígenas, as diretoras usam da tecnologia para defender seu território.

Mundurukuyü: A Floresta das Mulheres Peixe
Direção: Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay
Roteiro: Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay
Gênero: Documentário
Ano: 2024
Duração: 72 minutos
