Crítica | Coyote vs. Acme
“Coyote vs. Acme” é um filme que transborda nostalgia, mas traz uma roupagem madura e politizada. Ao apresentar o Coyote como uma figura mais humanizada, o espectador percebe que ele, assim como outros desenhos, é apenas outra vítima do sistema capitalista e da implacável e perversa corporação Acme.
Para quem cresceu assistindo aos desenhos da Warner Bros o sentimento de saudosismo aflora ao rever personagens, situações cômicas e familiares, mas nesse filme a realidade é transformada e uma nova visão se estabelece. Acompanhamos inicialmente a usual perseguição do Coyote para alcançar o Papa-Léguas. Como sempre, ele consegue fugir, deixando o Coyote para trás após algum trágico acontecimento, como cair de um penhasco e explodir em um foguete. Situações essas, inusitadas, mas que possuem um fator em comum: os produtos da empresa Acme.
Ao mesmo tempo em que o longa-metragem alterna entre flashbacks e o tempo atual, “Coyote vs. Acme” começa mostrando que um cientista, desaparecido há uns anos, havia trabalhado em um projeto da Acme. Após algum tempo, percebeu o perigo que esse projeto poderia trazer aos personagens de desenho. O filme cria um universo em que desenho animado e pessoas “reais” convivem normalmente. Mas nesse ponto fica o questionamento, até que ponto os desenhos também não seriam “reais”?
Aqui a corporação Acme detém o monopólio de produtos e invenções, desde telefones celulares a utensílios de caça como os que o Coyote usa para capturar o Papa-Léguas. Inúmeros acidentes então acontecem envolvendo esses produtos. Diante do conhecimento geral desse fato, o advogado Kevin Avery (Will Forte) atua em pequenas causas de indenização para os desenhos. No momento em que o Coyote, cansado do seu fracasso, vê o comercial de Kevin na televisão, automaticamente percebe a oportunidade de obter sucesso em sua empreitada Então viaja para encontrá-lo e contratar os seus serviços.

O longa desenvolve uma relação entre Kevin e Coyote apresentando também a figura de Buddy Crane (John Cena) representante e advogado da Acme, e Paige Avery (Lana Condor) como a recém-formada advogada e braço direito de Kevin durante todo o processo. Mesmo sem falar, Coyote desenvolve uma ótima comunicação utilizando placas, como na animação que conhecemos, mas com algumas restrições. Assim é formada a trama do filme que prende o espectador e dá uma nova impressão sobre como os desenhos podem ser cruéis e os vilões podem ser as vítimas.
“Coyote vs. Acme” acerta ao desenvolver situações com fechamento aceitável para cada uma das subtramas, diverte e envolve. Provoca no espectador a sensação de que tudo que se conhece sobre o universo da Warner Bros pode ser manipulado, e amadurece a animação trazendo o questionamento do quanto as grandes corporações e o capitalismo têm influência na vida de todos, incluindo tanto cartoons como humanos.
Isso é tudo, pessoal!

Uma frase: – Kevin: “Você foi gravemente ferido por produtos da Corporação Acme? A culpa não é sua. Com certeza, alguém é responsável.”
Uma cena: O interrogatório de Papa-Léguas sobre o Coyote.
Uma curiosidade: Este é o terceiro filme que David Zaslav engavetou para fins de abatimento fiscal durante sua gestão à frente como CEO da Warner Bros. Discovery. Os primeiros foram “Batgirl” e “Scooby! Um Natal Mal-Assombrado”, engavetados perto do final da pós-produção em agosto de 2022. No entanto, diferentemente dos dois anteriores, os direitos do filme foram vendidos com sucesso para uma distribuidora alternativa.

Coyote vs. Acme
Direção: Dave Green
Roteiro: Samy Burch; história de James Gunn, Jeremy Slater e Samy Burch
Elenco: Will Forte, Lana Condor, Tone Bell, Luis Guzmán, Martha Kelly, P.J. Byrne, Eric Bauza, Kenneth Choi e John Cena
Gênero: Comédia, Animação, Aventura
Ano: 2026
Duração: 101 minutos
