Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia
A solidão e a importância dos amigos deveriam ser o tema principal de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”. No entanto, o formato Marvel de fazer filmes não permite que algo simples desse jeito seja realizado. É necessário incluir outros personagens para dar a sensação de “universo compartilhado” e fazer propaganda deles, para lembrar o espectador de que existem outros filmes e séries dos quais esses personagens fazem parte. Para completar, existe a exigência da apresentação de pelo menos um novo personagem que será mais bem explorado em um próximo filme do universo. Todas essas questões atrapalham o desenvolvimento da trama.
Encontramos Peter Parker (Tom Holland) novamente enquanto ele lida com as consequências do apagamento da memória das pessoas que sabiam sua identidade secreta (conforme vimos em “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa”). A forma de encarar a situação foi concentrar-se no trabalho como Homem-Aranha. Sua única amizade é a policial Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas), pois eles trocam informações sobre os crimes, e ela serve como uma fonte de desabafo para o protagonista. Entretanto, surge uma nova ameaça misteriosa que exigirá bastante do herói.
Antes de surgir essa ameaça, aparecem algumas distrações. Um dos primeiros problemas é um tanque transitando pela cidade de Nova York. É curioso como “Homem-Aranha: Um Novo Dia” transforma isso em um caos quase do nível de Thanos. Tanto que é necessário surgir o Justiceiro (Jon Bernthal) para ajudar. Mas, quando um vilão clássico dos quadrinhos como Escorpião (Michael Mando) aparece na tela, é tratado como um coadjuvante sem importância. Esse é só um exemplo de como a Marvel parece mais interessada no universo compartilhado do que em focar no próprio mundo do Homem-Aranha.
O filme apresenta diversas questões interessantes em torno de Peter Parker / Homem-Aranha, mas sempre dilui a profundidade do tema com o uso das participações especiais. Um bom exemplo é a participação do Justiceiro. A ideia é fazer um paralelo entre os personagens, pois ambos perderam a família. No entanto, como o desenvolvimento do personagem de Jon Bernthal foi feito em outra mídia, essa comparação só funciona para quem assistiu à série sobre o personagem ou já o conhece. O resultado é algo forçado e artificial, ainda mais porque são personagens bem diferentes. Assim, o Justiceiro acaba sendo perdoado por seu comportamento destrutivo sem que haja uma justificativa bem construída.
Outro tema importante é a mudança genética de Peter. Nos quadrinhos, ele não produz sua própria teia, mas a versão atual do cinema, sim. Tivemos algumas piadas sobre isso no filme anterior, quando as outras versões do Homem-Aranha estavam presentes. Poderia ser uma tentativa de alterar o protagonista para algo mais próximo das HQs. O problema é que isso resulta também em uma mudança no humor e na força física. E qual outro personagem tem um problema similar? Sim, ele mesmo: Hulk / Bruce Banner (Mark Ruffalo). Obviamente, sua presença pouco contribui para o desenvolvimento desse tema, então se torna apenas uma desculpa para se transformar em uma nova ameaça.
Agora, o que deveria ser o tema principal da trama, que é a solidão de Peter, se perde totalmente dentro da história envolvendo a ameaça misteriosa. A identidade da personagem interpretada por Sadie Sink foi mantida em segredo e deveria ser a grande reviravolta de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”. Infelizmente, ela se torna apenas mais uma distração, pois o roteiro não dá tempo de tela suficiente para que o espectador crie empatia por ela ou entenda se ela é uma ameaça ou não. Ou seja, serve apenas para apresentar esse novo “boneco” a ser explorado em futuros filmes do MCU.

Quando finalmente o roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers lembra que precisa focar no relacionamento entre Peter e MJ (Zendaya) e na amizade entre Peter, MJ e Ned (Jacob Batalon), já é tarde demais. Esse tema serve apenas para criar um respiro dentro do filme, enquanto o espectador se prepara para a ameaça final.
O diretor Destin Daniel Cretton retorna ao MCU após comandar “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” e adota uma direção protocolar. Tudo visto na tela parece correto, mas sem alma. A emoção é diluída dentro do formato Marvel de filmar. E isso se reflete em todos os aspectos técnicos, especialmente na trilha sonora de Michael Giacchino. Apesar de ser um grande compositor, ele não tem espaço para apresentar temas interessantes, então tudo soa meio genérico na tentativa de servir como muleta para ditar o tom da narrativa.
Tom Holland é a alma do filme. Com seu carisma e seu talento, ele segura as pontas de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, fazendo o possível para que o espectador não se importe com os problemas da narrativa. Contudo, não é o suficiente para tirar a obra do lugar-comum.
Em síntese, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” é um longa-metragem correto e protocolar, isto é, segue de maneira eficiente o formato atual dos filmes da Marvel. Infelizmente, essa fórmula faz com que cada novo capítulo não tenha destaque ou atrativos que o diferenciem dos demais, preferindo se sustentar em participações especiais que pouco acrescentam à narrativa.

Uma frase: – Homem-Aranha [para MJ]: “Prometi que ia te proteger.”
Uma cena: A ida ao “escritório” da Viúva Negra.
Uma curiosidade: Tom Holland sofreu uma lesão que resultou em uma concussão durante as filmagens, o que o levou ao hospital e exigiu uma pausa de alguns dias por precaução.

Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day)
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Florence Pugh, Tramell Tillman, Marisa Tomei, Mark Ruffalo, Michael Mando e Liza Colón-Zayas
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Ano: 2026
Duração: 145 minutos
