Crítica | Gostosas, Lindas & Sexies

A foto e a fonte utilizadas no título do cartaz de Gostosas, Lindas & Sexies remetem ao seriado Sex and the City. A premissa parece interessante ao ser uma versão brasileira do programa americano, só que estrelado por mulheres “gordinhas”. No entanto o roteiro é tão absurdo e sem noção que quase nada se salva do longa, a não ser a sua boa intenção inicial. A ditadura do corpo imposta pela sociedade em que vivemos é terrível, principalmente com as mulheres, e o filme deixa de lado uma boa oportunidade de fazer uma crítica ao assunto.

A trama acompanha a história de quatro amigas que são “gordinhas”, mas aparentemente bem resolvidas em relação a seu próprio corpo. Cada uma lida com alguma questão relacionada ao peso e aparência. Beatriz (Carolinie Figueiredo), a personagem principal, escreve para uma revista de boa forma e é questionada pela diretora da publicação sobre o fato de não seguir as dicas que ela mesmo escreve. Marilu (Mariana Xavier de Minha Mãe é uma Peça 2), é uma professora obcecada por sexo – quase uma ninfomaníaca – que está se relacionando com um aluno, que é bem mais novo, e se interessa por ela porque a moça é menos “dura” em comparação com a própria namorada do garoto, quando se trata de sexo. Já Ivone (Cacau Protásio) é uma empresária dona de uma rede de salões de beleza. Enquanto Tânia (Lyv Ziese) está com problemas no casamento porque seu marido está sempre ocupado sem tempo para ela.

Observando assim na superfície as situações vividas pelas personagens tem um conteúdo interessante, mas o roteiro de Vinícius Marquez falha completamente em abordar os temas e, principalmente, em construir situações cômicas. A história se prende à situações absurdas, humor sem graça e piadas ruins, principalmente as envolvendo sexo. Mas o principal problema é falhar em conseguir apresentar situações verossímeis do preconceito enfrentado pelas protagonistas por estarem acima do peso. Essas cenas são gratuitas e artificiais, como por exemplo quando elas se encontram para irem juntas a uma festa. Primeiro ao entrarem no elevador do prédio de uma delas, e ao parar em um determinado andar, uma mulher se recusa a entrar junto com o seu marido por medo do equipamento não aguentar. Depois elas pegam um táxi e o motorista – uma participação embaraçosa de Paulo Silvino – reclama que nunca tinha colocado três gordas dentro do seu carro e estava com medo do veículo não aguentar. O pior mesmo é a relação de Beatriz com suas colegas de trabalho que mais parece uma briga de meninas no colégio na adolescência. Nada funciona, a não ser quando o assunto é constranger o espectador com o ridículo da situação sem conseguir ser engraçado.

Já a montagem de Ricardo Carvalho tem cortes abruptos e não consegue sempre seguir uma sequência lógica entre as cenas, principalmente ao alternar entre as ações das personagens, como se cada uma delas estivesse em seu próprio núcleo dentro do filme. A longa duração sem necessidade atrapalha o ritmo da narrativa que fica arrastada, principalmente na parte final quando ele parece que nunca vai acabar, se prolongando sem motivo. Uma cena que demonstra bem isso é a que mostra uma cliente – participação também embaraçosa, agora de Márcia Cabrita – do salão de Ivone, sendo atendida pela própria, para mostrar o quanto ela está estressada e não consegue lidar com os “caprichos” da freguesa. A situação é prolongada em busca do humor, mas é apenas longa e irritante.

O diretor Ernani Nunes parece perdido durante todo o filme sem saber o que fazer direito com as suas personagens. Diversos temas relevantes são apresentados durante o longa, como traição, família, amor, entre outros, só que eles são “jogados” na tela sem serem inseridos no contexto da narrativa de forma orgânica e interessante. Em algumas cenas boas idéias são apresentadas, mas falham desastrosamente na execução. Um bom exemplo são as conversas de Beatriz com sua geladeira, que se recusa a abrir para que a personagem evite comer, enquanto discutem sobre isso. O problema é que a voz do refrigerador é de um homem gay, então a boa piada é perdida por se transformar em algo sexista e preconceituoso, do que algo genuinamente engraçado.

Falando em sexismo, mesmo com mulheres como protagonistas o filme abusa disso e em muitos momentos é machista. Por exemplo, ao explorar o corpo da atriz Carolinie Figueiredo – a menos “gordinha” das protagonistas – com cenas dela fazendo danças sensuais ou ao aparecer de lingerie. Enquanto o namorado dela aparece a maior parte do tempo em tela sem camisa, mostrando sua boa forma física, para depois ouvirmos a Marilu dizer: “ainda bem que ele gosta de gordinha“.

Quando o filme tenta ser de alguma forma “feminista”, ele também erra brutalmente. Tânia ao descobrir que seu marido a está traindo, vai ao encontro do homem e sua amante e espanca os dois, já que por acaso é mencionado durante a narrativa que ela faz artes marciais. Será que essa é a melhor forma de se lidar com a situação? O julgamento moral das personagens muda em relação a traição quando Beatriz trai seu namorado com um colega de trabalho e nenhuma das amigas condena o ocorrido. Afinal, traição é errado ou não? Não importa, o problema é a forma que o julgamento de valores é apresentado na história.

A situação mais absurda é a vivida por Ivone. É apresentado que ela tem dois filhos gêmeos: uma menina branca e um menino oriental, sendo que ela é negra. A garota sempre que aparece questiona a mãe, mas o tema é deixado de lado. A piada é que a mãe aparentemente não quer admitir que eles são adotados, mas a explicação é muito “vergonhosa” para ela assumir para os filhos. O moralismo ataca novamente! Mas não é só isso, ela se envolve amorosamente com um homem – um Batman da favela com uma voz rouca ridícula – que a sequestra para roubá-la. Seria um típico caso de síndrome de Estocolmo se não tivesse um desfecho ridículo.

Gostosas, Lindas & Sexies perde a chance de abordar bem temas como a ditadura do corpo e principalmente sobre bullying. Os diálogos artificiais entre as personagens prejudica tanto a parte cômica quanto as que deveriam causar alguma emoção. Falta carisma por parte das atrizes que não conseguem fazer com que o espectador se identifique com elas pelo absurdo das situações, mesmo existindo alguma química entre elas. O único momento que chega próximo de mostrar a forma como as protagonistas lidam com o fato de serem “gordinhas” é quando elas dançam juntas ao som da música “All About That Bass” de Meghan Trainor. A canção de três minutos fala sobre o tema de forma divertida e interessante muito melhor do que o filme com quase duas horas de duração.


Uma frase: – Ivone: “Eu sóbria me acho linda, alcoolizada eu me acho linda, gostosa e muito sexy.”

Uma cena: As protagonistas dançando e cantando a música “All About That Bass” de Meghan Trainor.

Uma curiosidade: A atriz Carolinie Figueiredo disse em entrevista que sofria bullying aos 18 anos quando atuava em malhação, e agora por causa do filme está sofrendo bullying por não ser gorda o suficiente.


Gostosas, Lindas & Sexies

Direção: Ernani Nunes
Roteiro: Vinícius Marquez​
Elenco: Carolinie Figueiredo, Mariana Xavier, Cacau Protásio, Lyv Ziese, Marcos Pasquim, André Bankoff, Juliana Alves, Eliane Giardini, Paulo Silvino, Márcia Cabrita, Juan Alba, Guta Ruiz, Guilherme Hamacek e Gianne Albertoni 
Gênero: Comédia
Ano: 2017
Duração: 110 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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