Crítica | A Morte do Demônio: Em Chamas

Crítica | A Morte do Demônio: Em Chamas

“A Morte do Demônio: Em Chamas” é mais um filme bem-sucedido da franquia Evil Dead. Quem comanda o longa-metragem é o diretor francês Sébastien Vaniček, e ele mantém o tom mais de terror das últimas obras que não foram dirigidas por Sam Raimi (“A Morte do Demônio: A Ascensão” e o remake “A Morte do Demônio” de 2013), deixando o humor em segundo plano. Raimi segue apenas como produtor junto com Rob Tapert, a dupla responsável pelo filme de 1981.

“Em Chamas” foca a história em Alice (Souheila Yacoub), que, após a morte do marido Will (George Pullar), vai junto com o irmão dele Joseph (Hunter Doohan) e a namorada Thya (Luciane Buchanan) para o velório, onde encontram os pais do rapaz: Susan (Tandi Wright) e Edgar (Erroll Shand). A tensão dentro da família Price é evidente, e pode-se dizer que o filme seja basicamente uma sessão de terapia misturada com terror.

O relacionamento entre Alice e o marido não era bom, pois o homem tinha um comportamento tóxico e abusador. Os pais dele culpam a protagonista pela morte e aparentemente já não gostavam dela, então o clima no velório e depois na residência da família não é dos melhores. Somente Joseph e sua namorada parecem ter simpatia por Alice.

Como estamos dentro de um filme Evil Dead, a confusão começa por conta do Necronomicon, o livro dos mortos. Durante a morte de Will, ele é amaldiçoado pela moça que ele atropelou, que cita uma passagem do livro.

Quando o caos começa na residência da família Price, é que “Em Chamas” mostra o seu diferencial. Os personagens possuídos retornam dos mortos para atormentar os vivos, apostando no tom psicológico. É uma forma de cada um colocar para fora o que está sentindo, mesmo não sendo a melhor maneira possível.

Esse terror psicológico rende ótimos momentos, e falar sobre eles pode ser um pouco de spoiler.

A partir daqui a análise entrará em spoilers sobre a história.

O primeiro personagem a ser possuído é o patriarca da família Price. Então Joseph e Thya o levam para o hospital. Durante o percurso, a possessão piora e Edgar os ataca. O filho consegue pegar uma arma, mas não tem coragem de atirar no próprio pai. Esse detalhe é importante, pois algum tempo depois quem volta dos mortos é Thya. Só que agora Joseph não hesita em atirar na namorada.

Como ela não morre após levar um tiro, questiona sobre o relacionamento deles. Afinal de contas, o pai não pensou duas vezes antes de atirar.

Toda essa relação entre os personagens é muito bem explorada pelo roteiro. É curioso notar como Susan, mãe de Will, parece não saber do comportamento tóxico do filho. É mais fácil acreditar que a culpa da morte dela é de Alice. A protagonista sente uma sensação de “alívio” pela morte do marido, mas, ao mesmo tempo, é agredida psicologicamente pela família dele. Para completar, ela é estrangeira e está em um país que não é o dela, o que só aumenta a sensação de incômodo. Possivelmente uma metáfora sobre a situação atual dentro dos EUA com o ataque contra os estrangeiros.

No entanto, o tema principal de “Em Chamas” é o luto. Os exageros em torno do ataque dos possuídos são uma ótima metáfora sobre como os personagens lidam com a morte de um ente querido. Será que a volta deles é a solução? Parece que não, ainda mais quando eles voltam com um humor ácido e sem medo de tocar em feridas psicológicas.

Agora, é claro que os melhores momentos do filme são as lutas dos vivos com os mortos. A fotografia de Philip Lozano é um dos destaques na parte técnica, pois ele explora bem a geografia da casa e ressalta a claustrofobia do local. O movimento de câmera impressiona usando poucos cortes, dando uma maior imersão dentro das cenas.

Os efeitos visuais também merecem destaque, principalmente a maquiagem. A mistura entre efeitos práticos e computação gráfica faz com que fiquem mais verossímeis. Já os exageros de sangue e cenas de morte contribuem para manter o humor, ainda que um pouco involuntário no caso de “Em Chamas”, da franquia Evil Dead.

Outro elemento importante é a trilha sonora de Double Danger, que usa sintetizadores para criar tensão e suspense. O compositor utiliza um coral de vozes para criar um coral fantasmagórico, que funciona muito bem para ditar o tom da narrativa. A trilha se mistura muito bem de forma orgânica com o desenho de som do filme, criando um clima ainda mais assustador.

Por último, é importante destacar também as atuações do elenco. Os atores fazem um ótimo trabalho ao equilibrar o drama da tensão da situação com a performance física, necessária para a luta entre mortos e vivos. Nesse ponto, os principais destaques ficam por conta de Souheila Yacoub, que assume bem o protagonismo com muito carisma e talento, e de Tandi Wright. Talvez Susan seja a personagem que mais sofre no filme, pois, além de ter perdido o filho, agora tem que lidar com a possessão do restante da família.

Em síntese, o diretor Sébastien Vaniček faz um ótimo trabalho ao manter o padrão de qualidade da franquia Evil Dead com “A Morte do Demônio: Em Chamas”. Ele conseguiu apresentar uma obra autoral, com suas próprias características marcantes, sem deixar de se manter fiel ao universo da história.

Apesar de manter personagens femininas como protagonistas, cabe agora aos produtores Sam Raimi e Rob Tapert colocar uma mulher para comandar o próximo filme de Evil Dead.


Uma frase: – Alice: “Você sabe que eles não me querem lá.”

Uma cena: A briga entre Joseph e Thya em cima da lava-louças.

Uma curiosidade: Bruce Campbell, que anteriormente interpretou Ash Williams em todos os títulos anteriores da franquia, faz uma participação especial em duas fotografias que retratam Benjamin Price.


A Morte do Demônio: Em Chamas (Evil Dead Burn)

Direção: Sébastien Vaniček
Roteiro: Sébastien Vaniček e Florent Bernard
Elenco: Souheila Yacoub, Tandi Wright, Hunter Doohan, Luciane Buchanan, Erroll Shand e Maude Davey
Gênero: Terror
Ano: 2026
Duração: 109 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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