Crítica | A Sombra do Pai

A morte é uma das únicas certezas que temos na vida, mas sem dúvidas é um momento pelo qual não estamos preparados. Como lidar com o luto e com a perda de um ente querido? Agora imagine como isso seria para uma criança. Dalva, a protagonista de A Sombra do Pai, acabou de perder a mãe e ainda está lidando com isso. A criança vive com a tia (Luciana Paes) e com o pai (Julio Machado), e cada um deles lida de uma forma diferente diante do ocorrido.

O novo filme de Gabriela Amaral Almeida é mais denso que seu trabalho anterior O Animal Cordial, mas o clima de suspense é o mesmo. Em A Sombra do Pai temos um ritmo mais lento, a tensão e o mistério são construídos devagar e com diversas camadas. É um longa que o espectador capta os elementos da narrativa lentamente e que após a sessão ainda terá que ter um tempo para absorver tudo que foi apresentado na tela. São nos detalhes que a diretora mostra toda o seu talento como cineasta e roteirista.

Sem dúvidas esse é o seu trabalho mais pessoal e na coletiva de imprensa realizada em Brasília, no dia seguinte à exibição no filme na mostra competitiva do Festival de Brasília, foi possível perceber como diversos elementos da narrativa são reflexos da própria vida de Gabriela. A pequena Dalva, assim como ela, são fãs de filmes de terror. A televisão exibe obras do gênero que servem de companhia para compensar a ausência do pai, sempre ocupado com o trabalho na construção civil.

Se os filmes vistos na tv são americanos, clássicos como: Cemitério Maldito (que também foi dirigido por uma mulher) e A Noite dos Mortos-Vivos, os medos e angústias dos personagens tem como referência a realidade brasileira. Então o pai tem o medo de perder o emprego após um colega e amigo ser demitido, algo que vivemos com o alto índice de desemprego. As alucinações experienciadas por ele são bem interessantes, principalmente na figura do “soldador”, um personagem icônico criado por Gabriela que tem tudo a ver com o universo dos slasher movies, gênero de grande influência da cineasta.

No entanto temos elementos que são universais. Dalva é apenas uma criança, mas tem que aprender a viver sozinha sem muita ajuda do pai. Ou seja, a perda da mãe faz com que ela tenha que amadurecer rapidamente. Ela tem ainda uma figura materna da tia, mas a mulher se casa e “abandona” a pequena. Sem saber direito como lidar com a situação, a menina começa a perceber seus instintos e dons.

A Sombra do Pai, foto

Dalva poderia ser definida como um tipo de bruxa, mas no realismo fantástico criado pela diretora talvez essa não seja a melhor palavra. O Brasil é um país que tem um lado forte do misticismo, então ele é explorado muito bem pela narrativa. Assim, a maneira que a criança encontra de lidar com a perda da mãe é arrumar uma forma de trazê-la de volta à vida. A cena durante uma festa de São João na qual a pequena se dá conta dos seus “poderes” é fascinantes, como na imagem da criança com uma “chuvinha” na mão, como se fosse uma varinha mágica.

São nesses pequenos detalhes que o roteiro escrito pela própria Gabriela cria uma história fascinante. Nada no filme é óbvio, então todos os elementos da mise-en-scène são importantes na narrativa. Toda a parte técnica é de um primor de qualidade impressionante.

A montagem de Karen Akerman dá o ritmo necessário para que o filme seja lento e contemplativo, mas sem se tornar monótono ou arrastado. A trilha sonora de Rafael Cavalcanti, que era mais marcante em O Animal Cordial, em A Sombra do Pai ganha um tom mais minimalista, pontuando determinados momentos para aumentar a emoção e a tensão. A trilha se combina com o desenho de som, então os sons orgânicos se misturam à música, além de explorar também os momentos de silêncio.

A fotografia de Bárbara Álvarez é excelente em captar as emoções dos personagens em planos fechados, e acerta em captar imagens vistas de baixo, principalmente para deixar clara a diferença do tamanho de Dalva diante dos adultos. O filme também tem ótimas rimas visuais, como ao mostrar uma marreta quebrando a parede onde o caixão da mãe de Dalva está guardado, para depois mostrar o mesmo instrumento sendo utilizado no trabalho do pai. A Sombra do Pai se comunica com o espectador de maneira muito visual, como um bom trabalho para o cinema tem que ser.

A Sombra do Pai, foto

O elenco também está muito bem com uma ótima química entre si. Julio Machado constrói o pai com poucas palavras, então sua expressão corporal é fundamental. A cena em que ele e Dalva tentam ser uma família normal indo em um parque é brilhante em mostrar a relação existente entre eles. Mas sem dúvidas quem brilha é a pequena Nina Medeiros. A criança tem uma expressão facial impressionante e passa muito sentimentos com ela, mesmo que muitas vezes vemos apenas o cabelo em sua cara, mostrando sua timidez e seu lado anti-social que quer esconder as próprias emoções.

A Sombra do Pai tem um final impactante e emocional, que é construído de forma magistral durante toda a narrativa. Gabriela Amaral Almeida se consolida como uma diretora de qualidade e que sabe o quer passar para o espectador através da lente da câmera. Um filme excelente que vai além do gênero, explorando os principais elementos do terror e suspense, sem deixar de lado a sua parte dramática. A construção dos personagens é essencial para o público se conectar com a trama e realizar a imersão nesse universo fantástico, mas também tão verossímil.


Uma frase: – Dalva: “Eu quero que você morra! Eu quero que você morra! Eu quero que você morra!”

Uma cena: Quando Dalva se esconde embaixo da cama do pai e ele sem saber da presença da filha se emociona ao lembrar da sua mulher que faleceu.

Uma curiosidade: Longa exibido pela 1ª vez na mostra competitiva da 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.


A Sombra do Pai, cartazA Sombra do Pai

Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro:
Gabriela Amaral Almeida
Elenco: Nina Medeiros, Julio Machado, Luciana Paes e Rafael Raposo
Gênero: Drama
Ano: 2018
Duração: 90 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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