Crítica | Bone Tomahawk

Acredito que nada poderia ser mais inusitado do que a mistura do gênero Western e Terror que Bone Tomahawk faz. Não me refiro ao terror B, toques de aventura como em Cowboys & Aliens ou a carga dramática de Rastros de Ódio, mas uma atmosfera diferente de tudo que já vi e com vilões que levam o horror a uma dimensão desconhecida daqueles que gostam do estilo faroeste.

O filme tem uma história simples: Um forasteiro (David Arquette) chega a uma pacata e isolada cidade mas logo desperta a desconfiança do xerife local. Após um incidente, ele leva um tiro e vai para a cadeia aos cuidados da enfermeira local (Lili Simons) e um sub-xerife. Durante a noite, os três são sequestrados por uma tribo de índios e uma equipe de resgate vai ao deserto com a missão de resgatá-los.

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Em Bone Tomahawke temos apenas quatro personagens em tela na maior parte do tempo. Kurt Russel faz o papel do xerife local que se sente em dívida e responsável pelo sequestro, pois foi ele quem atirou no forasteiro e todos foram tirados de dentro da delegacia; Richard Jenkins, o ajudante dele, é um idoso que está claramente procurando uma morte honrosa e se reencontrar com a esposa já falecida; Patrick Wilson é o marido da enfermeira que, apesar de estar com uma tíbia quebrada e o pé com uma tala, não permite que a excursão vá sem ele; e para arrematar temos Matthew Fox como o sedutor John Brooder, um exímio caçador de índios. Esses três homens se lançam ao deserto em uma missão suicida onde todos tem a total consciência que provavelmente não voltarão vivos e muito menos com os reféns a salvo.

Quem são os vilões tão temidos?

Você pode até acreditar que um velho, um homem de perna quebrada, um xerife de meia idade e um galanteador de terno poderiam ter chances contra alguns índios, correto? Mas quando se diz índios leia-se uma tribo de antropófagos que são rejeitados pelos próprios índios e denominados como demônios e abominações pelos outros. Segundo dizem “estupram as mães e depois as devoram“. Como não temê-los? Mas aqueles que acreditamos serem os vilões são, na verdae, algo quase mitológico, pois eles aparecem pouquíssimo em tela no primeiro ato, em pequenos relances e em dois momentos que não dizem muito a respeito de sua maldade.

Embora o maniqueísmo teime em rondar a trama como histórias de índios malvados que sequestram e matam, os homens brancos também não tem do que se orgulhar. Já no início do filme assistimos ao latrocínio de homens no deserto enquanto um dos ladrões diz que não deve queimar uma Bíblia pois “dá azar”. O medo do desconhecido é grande, mas no deserto os perigos são outros. O grupo precisa se preocupar o tempo inteiro com legiões de salteadores, ladrões de cavalos e gente que mataria para roubar as suas alianças. O deserto é um espaço aberto muito opressor e com uma paisagem tão dura que é fácil imaginar que eles não chegarão ao seus destinos.

Bone Tomahawk é um filme lento, pode parecer arrastado mas todo o argumento é válido. São três mundos que começam a se fundir e preparar para o terceiro ato do filme: Os homens brancos da civilização, ladrões do deserto e bestas selvagens. O embate final do filme é conduzido de uma forma assustadora e acredito que nunca vi nada parecido em filmes na linha do Western. Posso dizer que é uma aula para muitos filmes de terror da atualidade. S. Craig Zahler mostrou muita destreza em conduzir cenas de assassinato e antropofagia com uma sensibilidade de invocar medo inclusive quando os “índios” não estão em cena, algo que Eli Roth não chega nem perto em seu mais recente Canibais[i]. Espero que mais interações inusitadas de gêneros tão distintos possam acontecer com mais frequência. O público agradece!

[i] Leia a crítica do filme Canibais (The Green Inferno ) de Eli Roth clicando AQUI.


 

Título Original: Bone Tomahawkbone_tomahawk_poster
Gênero: Western/ Suspense
Ano: 2015
Duração: 2h13min
Diretor: S.Craig Zahler       
Roteiro: S.Craig Zahler
Elenco: Kurt Russell, Lili Simmons, Patrick Wilson, Richard Jenkins, Matthew Fox, David Arquette

 

 

 



3 thoughts on “Crítica | Bone Tomahawk”

  1. Filmão! A cena mais “gore” do filme fica na sua cabeça por dias… de tão brilhantemente sádica que é.

  2. A cena “gore” que falam aconteceu de fato, mas com os papéis invertidos, aqui no Brasil. Em 1963, entre as muitas atrocidades cometidas na ocupação de terras para agricultura, uma mulher da etnia “Cinta Larga” foi cortada ao meio, em um território indígena, na região entre o Mato Grosso e Rondônia. Essa imagem foi registrada em fotografia e faz parte do vergonhoso episódio conhecido como Massacre do Paralelo Onze. É só pesquisar.

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