Review | Vientos de Agua (2006)
Um dos meus filmes preferidos é O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella. Por isso, quando descobri que o diretor argentino havia criado uma minissérie frequentemente presente nas listas de melhores produções da televisão argentina fiquei intrigado.
Vientos de Agua conta duas histórias separadas por décadas mas que estão conectadas. A primeira acompanha José, um jovem que após uma tragédia precisa deixar as Astúrias dos anos 1930 e vai tentar a vida na Argentina. A segunda se passa em 2001, quando seu filho Ernesto está diante de uma das piores crises econômicas da história da Argentina e decide fazer o caminho inverso: abandona o seu país e parte para a Espanha em busca de novas oportunidades.
São 11 episódios que abordam o tema da imigração com honestidade, sensibilidade e uma força emocional que impressiona. A série não romantiza a experiência de quem deixa sua terra natal e nem transforma seus personagens em heróis sem falhas. São pessoas comuns, com medos, desejos, contradições e uma imensa vontade de encontrar o seu lugar no mundo.
Um dos grandes méritos da série é sua preocupação com a História. Os anos passam, os personagens envelhecem e períodos históricos são abordados com a devida importância. A Guerra Civil Espanhola, o franquismo, a ascensção e derrocada do peronismo, a força de Eva Perón, os nazistas refugiados na Argentina, Che Guevera, a revolução Cubana são alguns dos acontecimentos que de alguma forma influenciam a narrativa.
Logo no primeiro episódio uma sequência já deixa claro o tom de Vientos de Agua. Durante a travessia do atlântico em um navio, imigritantes de diferentes nacionalidades conseguem se comunicar por gestos e através da música. É uma cena das mais bonitas e que conseguiu arrancar minhas primeiras lágrimas. E foram mais algumas nos outros 12 episódios.
Abandonar o próprio país muitas vezes pode ser consequência do desespero, mas a coragem necessária para dar esse passo é enorme. Deixar para trás família, amigos, a lingua, os costumes para apostar em um futuro incerto exige muita força. E chegar ao destino está longe de significar que os problemas acabaram. Geralmente se começa do zero, muitas vezes em ambientes hostis, com dificuldades financeiras, solidão e enfrentando os mais diversos tipos de preconceitos.
A série mostra tudo isso, mas também mostra que eventualmente é possível encontrar pessoas que estendem a mão para ajudar os outros. Pequenas atitudes generosas podem mudar completamente o destino de alguém e o roteiro sabe explorar isso sem cair em exageros melodramáticos.
Ao longo dessa jornada, conhecemos diversos personagens interessantes que enriquecem a narrativa com suas próprias histórias. Há espaço para humor, amizades improváveis, amor e também aqueles pequenos momentos de felicidade que fazem tudo ser mais suportável.

Talvez o que mais me chamou a antenção na série foi ver pai e filho enfrentando situações semelhantes em épocas completamente diferentes. As dificuldades de adaptação se repetem, mas cada um reage a sua maneira. O tempo passa, o mundo muda, mas certos dilemas humanos parecem os mesmos de sempre.
Vientos de Agua me envolveu, me fez vibrar, sorrir e chorar. Em várias cenas me vi torcendo pelos personagens como se fossem velhos amigos. E quando a história chegou ao fim fiquei com aquela rara sensação de ter acompanhado algo realmente especial.
Treze episódios depois ficou mais do que provado que a presença da série nas listas de melhores não é exagero e que Campanella é um dos grandes autores do nosso continente.


Vientos de Agua
Criado por: Juan José Campanella
Emissora: Telecinco, Pol-ka
Elenco: Ernesto Alterio, Héctor Alterio, Angie Cepeda, Eduardo Blanco, Marta Etura, Pablo Rago
Ano: 2006
Episódios: 13
Onde assistir: Netflix
