Crítica | Coração Partido (2026)
“Coração Partido” é uma produção russa e que, como um bom e velho drama adolescente, segue a fórmula básica de romance jovem. A diferença aqui é que esse longa tenta se justificar o tempo todo por um machismo acentuado, violência gratuita e estereótipos exagerados. No entanto, a história é curiosa e deve atingir em cheio o seu público-alvo, especialmente devido aos exageros de um romance adolescente.
O filme é dirigido por Michael Vaynberg, ganhador de diversos prêmios de cinema independente e com indicações em festivais internacionais. O roteiro é escrito por três mulheres (Anna Dzheyn, Mariya Elisovetskaya e Marianna Kadrzhanova) que ditam o tom sensível, porém forte, do longa. Aqui a história é adaptada de um best-seller escrito pela autora russa Anna Jane, conhecida pelas obras intensas, cheias de reviravoltas e romances improváveis, tornando-se uma das autoras mais lidas e publicadas na Rússia no gênero juvenil. “Coração Partido” foi adaptado postumamente, uma vez que a autora faleceu em 2010, porém sua propriedade intelectual ainda é gerenciada pela família.
A regra é semelhante a qualquer outro ‘teen romance’: a menina boazinha encontra um menino bad boy, eles se apaixonam em meio a um turbilhão de emoções e tentam vencer os diversos obstáculos para alcançar esse amor. Inicialmente o filme apresenta proximidade às produções norte-americanas, o que frustra um pouco visto que sendo um filme russo era de se esperar algo que refletisse mais a cultura local. No entanto, ao decorrer da história, e com o desenvolvimento das personagens, é possível entender que estamos à frente de algo intenso, com muita violência e recheado de machismo estrutural. Então fica a dúvida se o filme exagera no estereótipo russo de máfia e subserviência feminina, ou se de fato reflete uma normalidade social.
A protagonista Polina (interpretada por Veronika Zhuravleva) é uma jovem que muda de cidade com sua mãe e padrasto e sente muita dificuldade em se adequar à sua nova realidade, sofrendo bullying e perseguição de colegas na escola. Ao conhecer o problemático Bars (Daniel Vegas) acaba aceitando firmar um relacionamento de fachada em troca de proteção. O romance é um pouco problemático pois explora a ingenuidade da garota com suas descobertas amorosas, mas também mostra a falta de consentimento da relação, uma vez que a condição de Bars em protegê-la é que ela faça o que ele mandar sem questionamentos.

O longa extrapola o núcleo escolar e mostra diversos outros cenários, como a família de Polina, a difícil relação de Bars com seu pai, o grupo de jovens que promove rixas ilegais de moto, uma oficina mecânica onde o rapaz trabalha informalmente, enfim… muitas variáveis que não se desenvolvem direito para uma só equação. Isso confunde um pouco o espectador e fica difícil entender em que momento tudo isso irá convergir. Uma coisa unânime é certa, o filme mostra muita violência física e psicológica (especialmente em cenas misóginas e obsessivas), relacionamentos tóxicos e dependência emocional. Aqui a agressividade também é entre mulheres que buscam o lugar de poder, como as colegas de Polina que a perseguem e a espancam inúmeras vezes sem qualquer necessidade narrativa aparente.
Apesar dos pesares, ao final do filme algumas peças se encaixam. É possível entender o apelo para entreter o público jovem. São 2 horas e 14 minutos de caos e romance, o enredo até prende, mas o exagero e os estereótipos acabam por desconectar o espectador, que passa a não se envolver tanto com a história e a ter um olhar mais crítico, em alguns momentos, até cômico. O direcionamento da história é consistente, há alguns plots mas nada que fuja dos clichês do gênero. Em alguns momentos chega a ser um dramalhão, mas que, ao tentar dar o tom de absurdo, acaba por prender o espectador.

Uma frase: – Polina: “Mesmo com o coração partido, valeu a pena.”
Uma cena: Quando Polina e Bars se beijam pela primeira vez.
Uma curiosidade: O lançamento do filme no Brasil será em 20 de agosto de 2026, mas uma continuação já foi confirmada pelos criadores e produtores da adaptação, correspondente ao segundo livro de Anna Jane “Pelos Fragmentos do Seu Coração” (Shards of Your Heart).

Coração Partido (Tvoyo serdtse budet razbito)
Direção: Michael Vaynberg
Roteiro: Anna Dzheyn, Mariya Elisovetskaya e Marianna Kadrzhanova
Elenco: Veronika Zhuravleva, Daniel Vegas, Alya Mayer, Maksim Saprykin, Evgeniya Loza, Pavel Kuzmin, Ivan Trushin e Alexandra Tikhonova
Gênero: Drama Adolescente, Romance
Ano: 2026
Duração: 134 minutos
