Crítica | Anatomia do Caos

Crítica | Anatomia do Caos

A epidemia da Covid-19 matou 715 mil pessoas no Brasil, que durante o período foi presidido pelo pior presidente da sua história: Jair Bolsonaro. Em abril de 2021 foi realizada a CPI da Pandemia para investigar suspeitas de descaso e corrupção. Essa comissão foi formada pelos senadores Omar Aziz (PSD-AM) – Presidente, Randolfe Rodrigues (REDE-AP) – Vice-Presidente e Renan Calheiros (MDB-AL) – Relator. Em “Anatomia do Caos”, a diretora Dandara Ferreira faz um ótimo resumo do que ocorreu durante a investigação e apresenta um pouco dos bastidores da comissão.

O documentário serve principalmente para resgatar e preservar a memória, pois já se passaram cinco anos da entrega do relatório e nada ocorreu com os indiciados. O documento foi engavetado pelo procurador geral da república da época, Augusto Aras, por não achar que existiam provas suficientes. A obra de Dandara Ferreira mostra que isso não é verdade, pois há inúmeras evidências de descasos, omissões no enfrentamento ao vírus e até mesmo corrupção envolvendo a compra de vacinas.

Relembrar esses momentos é doloroso, mas é fundamental para não se esquecer de um período tão trágico e marcante da história recente do nosso país. É interessante ver como a cineasta baiana Dandara Ferreira, que resgatou a memória musical do Brasil com o filme “Meu Nome é Gal”, sobre a cantora Gal Costa, agora volta sua câmera para outro tema de extrema importância para o país.

Em “Anatomia do Caos” a diretora faz um paralelo entre os eventos ocorridos durante a pandemia com a investigação realizada pela CPI. Então vemos um trecho de imagens do caos durante a falta de oxigênio em Manaus, e, em seguida, o documentário apresenta o depoimento do ex-ministro da saúde General Eduardo Pazuello, aquele que nem sabia o que era o SUS, sobre o ocorrido. Quando ele foi questionado do motivo por que deixou o comando da pasta simplesmente respondeu “missão cumprida”.

O depoimento dos membros do governo Bolsonaro são assustadores, pois o negacionismo era absurdo. Quando eram questionados sobre o uso de remédios que não tinham eficácia comprovada, como a cloroquina, eles apresentavam justificativas inconsistentes ou citavam estudos que não comprovaram a eficiência. E claro, Dandara Ferreira faz questão de incluir também imagens do próprio presidente Jair Bolsonaro, que defendia o uso desses remédios e repetia o discurso de seu “histórico de atleta”. Ou imagens mais chocantes, como ele simulando uma falta de ar.

Mas sem dúvidas, um dos momentos mais emocionantes do documentário é o depoimento de pessoas que perderam familiares durante a pandemia. A fala de Katia Shirlene Castilho dos Santos na CPI é avassaladora, pois ela lembra como até hoje ninguém da equipe do governo Bolsonaro, e muito menos o próprio presidente, fez um pedido de desculpas àqueles que perderam algum ente querido durante o período. O depoimento evidencia a ausência de empatia e humanidade demonstrada pelo governo diante das vítimas da pandemia.

Embora frequentemente alvo de críticas, o Congresso teve, naquele momento, um papel relevante. Com certeza os senadores Aziz, Rodrigues e Calheiros tiveram atuação decisiva durante a CPI e apontaram todos os problemas ocorridos durante a gestão do governo Bolsonaro na pandemia. As cenas de bastidores captadas por Dandara Ferreira mostram o quanto eles estavam focados em fazer um bom trabalho.

No conjunto, “Anatomia do Caos” faz um resumo fundamental do que aconteceu na CPI iniciada em abril de 2021. O documentário ajuda a manter viva a memória em torno das omissões do governo Jair Bolsonaro diante de uma das maiores crises sanitárias da história. Mais do que recuperar os acontecimentos, o documentário evidencia a sensação de impunidade que ainda cerca muitos dos envolvidos. Pelo menos o ex-presidente está preso, ainda que em prisão domiciliar, por tentativa de golpe de Estado. Ainda assim, permanece a sensação de que as responsabilidades pelos acontecimentos durante a pandemia continuam insuficientemente punidas.


Uma frase: – Bruna Morato (advogada de ex-médicos da Prevent Senior): “A expressão que eu ouvi ser muitas vezes ser utilizada é: óbito também é alta.”

Uma cena: O depoimento de Katia Shirlene Castilho dos Santos, familiar das vítimas da Covid-19, que perdeu os pais que faziam parte do plano de saúde Prevent Senior.

Uma curiosidade: O lançamento de “Anatomia do Caos” será marcado por um amplo circuito de exibições seguidas de debate, com a presença da diretora, reforçando o papel do filme como um espaço de diálogo e reflexão coletiva sobre a história recente do Brasil.


Anatomia do Caos

Direção: Dandara Ferreira
Roteiro: Dandara Ferreira e Élcio Verçosa Filho
Elenco: Omar Aziz, Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros
Gênero: Documentário
Ano: 2026
Duração: 88 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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