Crítica | Beco do Pesadelo (Nightmare Alley, 2021)

Crítica | Beco do Pesadelo (Nightmare Alley, 2021)

Beco do Pesadelo é um estudo de personagens sobre a fronteira turva que separa homens e monstros.

A obra do cineasta mexicano Guillermo del Toro sempre foi habitada por monstros. Habitada, de fato, é o termo mais adequado, pois, monstros através da lente de del Toro perdem seu caráter teratológico e assumem um ar sempre romântico: às vezes trágico, às vezes idílico, às vezes heroico. Assim o diretor de películas como Hellboy, “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água” (esses dois últimos ambos oscarizados) abusa da alegoria e do lirismo para, através do estranhamento, apresentar todas as contradições que perfazem aquilo que entendemos como humanidade.

Dessa forma, Guillermo del Toro se tornou o principal representante de Dark Fantasy – um subgênero da literatura fantástica, muito popular a partir da década de 80 graças a autores como Gaiman e Moore – no cinema de nosso tempo. Por isso, num primeiro momento, seu novo filme Beco do Pesadelo (Nightmare Alley, 2022), causa a quem conhece a obra do autor um certo estranhamento. Afinal, não há o recurso à fantasia na película, e os monstros que nos são apresentados são de outra natureza.

Beco do Pesadelo, o filme de del Toro, é uma adaptação do romance noir de William Lindsay Gresham, publicado em 1946. No Brasil o livro ganhou o título de “Beco das Ilusões Perdidas” em referência à primeira adaptação para o cinema do filme lançada em 1947, protagonizada por Tyrone Power. A quem defina a obra de Gresham como dostoievskiana, e a adaptação de Guillermo del Toro – diferindo um pouco da adaptação de 1947 – pretende levar muito a sério essa definição.

Cate Blanchett, como Dra. Lilith Ritter e Bradley Cooper como Stanton Carlisle.

Na trama acompanhamos Stanton Carlisle (Bradley Cooper), um homem com um passado obscuro que é acolhido por uma comunidade de carnivales (ou simplesmente “carni” como chamam a si próprios) – um grupo de artistas itinerantes, algo como saltimbancos ou circenses, que montam um parque de diversões com diversos brinquedos e atrações[i]. No mundo marginalizado e cheio de truques para iludir dos carni, Stan não apenas encontra seu lar, como sua verdadeira vocação: a ilusão e a trapaça.

Os monstros, assim, que Guillermo del Toro nos apresenta em Beco do Pesadelo são de outra monta. Não se trata apenas da visão estereotipada da sociedade sobre os carni, evidentemente. A partir dali o cineasta avança em um genuíno noir que irá explorar, através de um detido e bem estruturado estudo do personagem de Bradley Cooper – bem como de outros a sua volta – o quão monstruosa e desumana a humanidade pode ser.

Além do ótimo roteiro – escrito pelo próprio Guillermo del Toro ao lado de sua companheira a também atriz e roteirista Kim Morgan – Beco do Pesadelo conta com um competente elenco de apoio que além de trazer colaboradores de longa data do diretor como Ron Perlman e Richard Jenkins, traz atuações inspiradas de Willem Dafoe, Toni Collette, Cate Blanchett e David Strathairn. Reforçam a qualidade da película, ainda, o design de produção (Tamara Deverell), figurinos (Luis Sequeira) e direção de arte (Brandt Gordon) que combinam de maneira inspirada o clima sedutor e soturno tão necessários a filmes de época e noir.

Mas é mesmo na direção de Guillermo del Toro e na cinematografia do já antigo parceiro Dan Laustsen que o Beco do Pesadelo se destaca. Lausten capta cada momento da história com o uso preciso de luz e sombras que definem toda a atmosfera que um noir precisa, e com enquadramentos belíssimos que, ao mesmo tempo, tiram a todo momento o espectador de sua zona de conforto e o fazem imergir na trama como se nos atirássemos em um lindo e delicioso abismo. E cabe a del Toro organizar todo esse material artístico em uma história que nos absorve a cada momento em uma cadência adequadamente lenta e também irresistível.

O resultado é uma obra de encher os olhos. Um estudo sobre corrupção e degeneração em nossa sociedade que habita e define as turvas fronteiras que separam as figuras, ambas imaginadas, tanto de monstros quanto de seres humanos. Talvez, por sair da sua zona de conforto de Dark Fantasy os fãs de Guillermo del Toro, assim como eu, estranhem a ausência do fantástico em Beco do Pesadelo. Mas os monstros, a verdadeira constante da obra do diretor, estão todos ali, em sua mais aterrorizante face. A face real da humanidade.


[i] Quem já assistiu à série Carnivale (Carnivàle, 2003) da HBO, deve saber exatamente do que estamos falando. Os Carni (como os membros desse ramo específico do mundo do showbiz se chamam) são considerados por seus espectadores, o restante da sociedade, os mais marginais e estranhos de uma atividade social que já tem em si imprimida o caráter de marginalidade: aberrações, estranhos, perigosos e quase sempre desonestos. Em uma relação bastante curiosa com a sociedade que os rejeita – que, del Toro sabe, é também bastante emblemática da sociedade “humana” – os Carni abraçam seus papéis de Freaks and Geeks, e entram em um jogo de ilusão, para assim sobreviver às custas do mesmo.


Uma frase: “Moço, eu nasci para isso.”

Uma cena: A última cena do filme.

Uma curiosidade: Segundo Guillermo del Toro o ator Bradley Cooper acertou de primeira a última cena do filme, aquela que ele também considera a mais importante.


Beco do Pesadelo (Nightmare Alley)

Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro e Kim Morgan
Elenco: Bradley Cooper, Cate Blanchett, Toni Collette, Willem Dafoe, Richard Jenkins, Rooney Mara e Ron Perlman
Gênero: Policial, Drama, Noir, Suspense
Ano: 2021
Duração: 150 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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