Crítica | O Homem que Matou Dom Quixote

O Homem que Matou Dom Quixote, novo filme de Terry Gilliam, faz uma abordagem interessante no obra literária de Miguel de Cervantes. O cineasta faz uma mistura de adaptação do livro com metalinguagem do “filme dentro do filme” para construir a jornada de Toby Grisoni, um diretor de cinema cujo seu primeiro trabalho foi justamente adaptar o livro Dom Quixote.

O filme começa com Toby já como um diretor mais experiente, que enfrenta problemas na produção do seu novo longa – que curiosamente também é uma adaptação de Dom Quixote. A primeira versão ele dirigiu quando ainda era estudante de cinema, foi seu trabalho de conclusão. No meio da crise ele resolve ir em busca das pessoas que estiveram presentes no seu trabalho de estreia. Ele encontra com o senhor que foi o protagonista da película, que mesmo alguns anos após as filmagens ainda acredita ser o próprio Dom Quixote. O suposto Dom Quixote acha que Toby é Sancho, seu fiel companheiro de aventuras. Assim os dois se juntam em uma jornada que mistura realidade e fantasia.

Essa mistura é algo bem comum na filmografia de Terry Gilliam, então o cineasta aposta no caminho mais seguro. A jornada de Toby é interessante já que essa convivência com o falso Dom Quixote faz com que ele reflita sobre sua própria vida como artista. Afinal de contas qual é o limite entre realidade e a arte? Até onde um ator ou um diretor de cinema podem ir para apresentar algo na tela que seja verossímil para quem está assistindo?

As reflexões são interessante, mas a verdade é que O Homem que Matou Dom Quixote é um filme irregular em explorar essas questões. O longa apresenta altos e baixos que se sustem graças ao talento dos atores. Adam Driver e Jonathan Pryce são a alma da narrativa e a forma como eles constroem a relação entre seus personagens é o grande atrativo da história.

Quem se destaca é Pryce que apresenta uma atuação totalmente “insana”. O ator transforma a figura de Dom Quixote em uma mistura de comédia e loucura. Uma pena que o roteiro não consiga apresentar de maneira bem feita a transformação do homem comum em uma figura literária clássica. Mas após a “mutação” o resultado é totalmente divertido.

O Homem que Matou Dom Quixote é bom na parte técnica, com uma fotografia belíssima que usa muito bem cenários reais para construir sua narrativa de forma mais verossímil possível. Apresenta também um ótimo figurino, principalmente nas cenas que se passam dentro de um castelo.

É uma pena que o roteiro de Terry Gilliam e Tony Grisoni pareça perdido em muitas partes da narrativa sem saber o que fazer com os personagens ou simplesmente apresentar o que realmente quer contar com sua história. Vemos um pouco da reflexão sobre a arte, por exemplo, mas boas ideias são desperdiçadas durante o desenvolver da história, principalmente em sua conclusão. Ainda assim o resultado final é positivo, principalmente graças a fantástica atuação de Jonathan Pryce como Dom Quixote.


Uma frase: – Toby: “Eu não sou Sancho e você não é Dom Quixote!”

Uma cena: O duelo de cavalos entre Dom Quixote e um Cavaleiro.

Uma curiosidade: O Homem que Matou Dom Quixote é dedicado à memória dos atores Jean Rochefort e John Hurt, que teriam sido escolhidos para participar em outras versões do projeto deste filme, mas ambos morreram antes das gravações serem finalizadas.


O Homem que Matou Dom Quixote (The Man Who Killed Don Quixote)

Direção: Terry Gilliam
Roteiro:
Terry Gilliam e Tony Grisoni
Elenco: Adam Driver, Jonathan Pryce, Stellan Skarsgård, Olga Kurylenko e Joana Ribeiro
Gênero: Aventura, Comédia, Drama
Ano: 2018
Duração: 132 minutos

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