Crítica | Dia D (Disclousure Day)
A ficção científica contemporânea, em sua ânsia por espetáculo, muitas vezes esquece que o assombro não reside na escala do evento, mas sim no peso da verdade. Em Dia D (Disclosure Day), Steven Spielberg não busca apenas reafirmar sua iconografia — religião, ciência, mistérios inexplicáveis — como pilares de uma bagagem cinematográfica própria; ele tensiona essas marcas contra o ceticismo cínico do século XXI. Seu novo filme propõe uma reflexão incômoda: se a humanidade encontrasse, finalmente, a solução para suas próprias mazelas no contato com outras formas de vida, teríamos maturidade para aceitá-la ou nos afogaríamos no medo e ganância?
O filme nos joga em um cenário de paranoia constante, onde uma meteorologista, em plena transmissão ao vivo, é vitimada por um surto inexplicável — perdendo a voz e emitindo sons guturais. A partir daí o espectador é jogado em uma caçada implacável que se estende pelos 145 minutos de duração, transformando o longa em uma perseguição frenética e, ao mesmo tempo, enclausurada. Enquanto pequenos grupos tentam decifrar sinais de controle mental que se alastram, um informante solitário arrisca a vida para expor uma verdade que o governo insiste em manter sob silêncio, nos mantendo em um clima de tensão onde o fascínio pelo desconhecido é constantemente sufocado pelo pânico da vigilância.

O roteiro evita algumas derrapagens para o sentimentalismo exagerado, embora não alcance o brilho dos grandes clássicos da carreira de Spielberg. A narrativa prefere estruturar o impacto da revelação através de uma lente que prioriza a reação humana ante a crise, em vez de se perder no fato do mistério em si. O tradicional “quem são eles, o que querem?” que costuma dominar o gênero, aqui, cede espaço para o peso do que essa presença traz. A direção evita o CGI predatório em favor de um enquadramento que respira, utilizando a fotografia para isolar seus personagens numa espécie vazio onde a ciência tenta, sem sucesso, explicar o inefável.
Trata-se de um filme de texturas, de silêncios bem posicionados, mas que flui de maneira apenas protocolar, entregando uma experiência narrativa que corre, mas sem aquele arroubo ou o impacto arrebatador característicos da filmografia do cineasta. Em alguns pontos, até mesmo os efeitos especiais parecem derrapar, não sei se o senhor Spielberg usou IA para retratar os animais e jovem Blunt, ou se rodou tudo em seus antigos Macs, já que os novos estão custando pequenas fortunas. Brincadeiras à parte, em alguns momentos, algumas cenas nos tiram da história e nos transportam não para um disco voador, mas sim para o vale da estranheza.
A performance do trio central — Emily Blunt, Josh O’Connor e Colin Firth — confere a seriedade que o material exige. Não há muito espaço para o melodrama barato; os atores encarnam arquétipos que sustentam a verossimilhança de uma trama política e governamental em colapso. “Dia D” levanta um questionamento central: esse otimismo humanista, outrora o norte de suas obras, ainda encontra solo fértil em um mundo tão atomizado quanto o atual? O longa não entrega uma resposta redonda, mas o próprio ato de colocar essa dúvida em tela é o que o eleva acima do padrão comercial mediano, mesmo que a execução final soe, por vezes, um tanto quanto convencional.
Ao fim, Dia D é uma peça de resistência à mediocridade, mas que deixa um gosto de “quase” na boca. É um trabalho que diverte, tem boas sacadas e uma direção de arte primorosa, mas que carece de uma alma mais pungente para se tornar memorável. Ao evitar os atalhos comuns do gênero, a obra se consagra como um exercício técnico de respeito, mas que não consegue sustentar o peso da expectativa de quem esperava uma nova obra-prima do grande mestre.

Uma frase: – Hugo: “As pessoas estão famintas pela verdade!”
Uma cena: Quando Margaret está fazendo um anúncio sobre a previsão do tempo na televisão e começa a falar uma língua estranha.
Uma curiosidade: A 30ª colaboração entre Steven Spielberg e John Williams. Quando Steven Spielberg abordou John Williams para que este compusesse a trilha sonora, Williams sugeriu inicialmente quatro outros compositores para o trabalho, já que ele próprio havia se aposentado da composição de trilhas sonoras para filmes. Spielberg insistiu que Williams compusesse a trilha sonora do filme ele mesmo, e Williams finalmente concordou.

Crítica | Dia D (Disclousure Day)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp; história de Steven Spielberg
Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson e Colman Domingo
Gênero: Épico, Suspense, Ação, Drama, Mistério, Ficção científica
Ano: 2026
Duração: 145 minutos
