Review | Westworld – 1ª Temporada

Como seria misturar uma história que se passasse ao mesmo tempo no Velho Oeste americano, mas que de alguma forma fosse uma visão futurista sobre o tema? Talvez essa seja uma boa explicação inicial para definir a série Westworld da HBO. No entanto, o programa criado por Jonathan Nolan – irmão de Christopher Nolan – e Lisa Joy é muito mais do que um “faroeste do futuro”.

Inspirado no filme de mesmo nome realizado em 1973 por Michael Crichton, que dirigiu e escreveu o longa, Westworld é um parque temático onde os frequentadores experienciam uma viagem imersiva no Velho Oeste. No lugar o público é recepcionado por andróides anfitriões programados para transformar a visita em algo único e realista. As pessoas vão ao lugar em busca de si mesmos e quanto mais se adentram no parque mais se aprofundam na experiência. Essa também é a lógica de quem assiste a série e a cada novo episódio vamos descobrindo novos elementos, personagens e mistérios dentro da narrativa.

A história mostra tanto o que acontece dentro do parque, apresentando a experiência de alguns frequentadores, como também os bastidores, onde os funcionários cuidam para que tudo funcione bem. Entretanto, os personagens principais da narrativa são os anfitriões. O que mais chama a atenção em Westworld não é o funcionamento do parque temático, mas sim o comportamento dos andróides. Inteligência artificial é um tema muito comum no gênero Sci-Fi, mas apesar dos clichês, o seriado encontra uma forma bastante interessante e inteligente de abordá-la.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados na primeira temporada de Westworld.

Os anfitriões

Dolores, Evan Rachel Wood, Westworld

Logo no início do primeiro episódio vemos Bernard Lowe (Jeffrey Wright), um dos principais funcionários de Westworld, conversando com Dolores (Evan Rachel Wood), talvez a principal e mais importante anfitriã do parque. A cena parece uma sessão de terapia, com diversos questionamento de Bernard sobre o comportamento de Dolores. Através de comandos de voz o homem consegue ativar modos diferentes de funcionamento da andróide, como o modo análise, onde ela não demonstra emoções. A mulher andróide está sentada sem roupa, em um recurso visual interessante da narrativa, para apresentá-la como um ser com emoções controladas. Dessa forma não existe vergonha nenhuma em estar nua, resultando em uma forma inicial de diferenciar os anfitriões dos humanos.

Os anfitriões são a grande atração de Westworld, tanto do parque temático em si, quanto da série. Cada um deles tem uma história e uma narrativa a ser seguida dentro do lugar, isto é, cada um tem um papel. Dolores é uma espécie de de mocinha em perigo esperando para ser “resgatada” por algum cowboy. Porém, a anfitriã começa a apresentar um comportamento fora do padrão, e isso parece estar se espalhando para outros andróides. O que estaria acontecendo com eles?

O funcionamento de Westworld

Homem de Preto, Ed Harris, Westworld

Agora é a vez de falar sobre Westworld como uma empresa. Um dos criadores do parque é Robert Ford (Anthony Hopkins), que também é o diretor criativo da narrativa do que acontece no local. Bernard é o seu braço-direito e juntos eles são responsáveis pelo comportamento dos anfitriões. Existem diversos setores dentro do lugar, cada um deles responsável por um determinado tema, como uma empresa qualquer. Então temos os responsáveis pela segurança, aqueles que cuidam da manutenção física dos anfitriões, entre outros. A dinâmica do funcionamento também é muito interessante, já que como qualquer grande companhia temos um conselho diretor que não parece muito satisfeito com o rumo artístico realizado por Ford.

Dentro de Westworld é onde tudo acontece, então é preciso falar também sobre seus frequentadores. A maioria deles está interessada apenas em fazer sexo com os anfitriões, beber, fazer besteiras que não poderiam realizar no mundo real, e é claro, fingir que são cowboys atirando e matando pessoas. Não existem muitas regras dentro do lugar, mas os andróides são programados para não matar os visitantes e também não passar dos limites em relação a segurança física dos mesmos. São as emoções e o realismo dentro do parque que transformam a experiência de visitar Westworld em algo único. É uma forma do público escapar da sua realidade ou quem sabe encontrar dentro si quem realmente são.

A narrativa segue basicamente dois desses visitantes. O primeiro é O Homem de Preto, interpretado por Ed Harris, que é um homem misterioso e sem nome em busca da experiência mais profunda dentro de Westworld. Ele está em busca do Labirinto, um dos símbolos misteriosos apresentados na narrativa, e sabe muito bem o funcionamento do lugar. O personagem é o retrato do quanto a imersão dentro do parque afeta o comportamento das pessoas, a ponto delas ficarem sempre dentro do lugar, como se sua vida real fosse aquela. No outro extremo temos William (Jimmi Simpson), que está visitando o parque pela primeira vez e não parece levar a experiência a sério. O homem foi trazido ao lugar por seu futuro cunhado Logan (Ben Barnes), que é um visitante frequente, aparentemente para uma despedida de solteiro. Porém William vai aos poucos se entregando a imersão dentro de Westworld, principalmente após começar a se envolver com Dolores.

Simbolismos

Robert Ford, Anthony Hopkins, Westworld

Após essa longa “apresentação” do funcionamento de Westworld, podemos agora refletir sobre os simbolismos por trás da narrativa. É fascinante como o seriado desenvolve os mistérios por trás do lugar e seus elementos, passando por seus frequentadores, funcionários, e claro, os anfitriões. Tudo de forma inteligente e interessante, de forma que o espectador reflita sobre os questionamento existenciais da narrativa, mas é claro, também tenham um entretenimento de alta qualidade. Nenhum detalhe é apresentado por acaso e tudo é muito bem construído de forma envolvente e instigante. Dessa forma, a cada novo episódio vemos uma nova camada sobre o parque temático e assim como seus frequentadores, não queremos mais sair daquele local.

O principal mistério da história está por trás da criação do parque, já que Ford nunca parece mostrar suas reais intenções por trás da sua narrativa. Surge então a figura de Arnold, que junto com Robert criou o Westworld, mas faleceu antes do parque começar a funcionar. Quem seria ele? Essa é sem dúvidas a grande revelação da temporada que trás uma ótima reviravolta na narrativa.

Os personagens e o elenco

Contudo o principal destaque de Westworld, a série, é a sua riqueza de personagens. Com 10 episódios, o programa tem tempo suficiente para desenvolver cada um deles de forma esplêndida. Assim nenhum deles parece desnecessário e sem propósito, mesmo que sua participação seja menor. Além de um ótimo roteiro, para isso funcionar foi necessário escolher um elenco maravilhoso.

É até difícil destacar apenas alguns dos atores que fazem parte do programa. Temos grandes medalhões como Anthony Hopkins e Ed Harris, que trazem consigo a experiência do cinema, além de serem grandes astros com carreiras consolidadas, mas que mostram que ainda estão dispostos a explorar personagens interessantes em outras mídias como a televisão. Temos também nomes que mereciam ter uma carreira mais conhecida, mas que já provaram ser ótimos atores, como Thandie Newton e Jeffrey Wright, mas que aqui ganharam uma nova oportunidade de se consagrarem. Outros seguem na linha da diversificação de papéis para consolidar seus talentos, como Evan Rachel Wood – que é talvez o grande destaque do elenco – e James Marsden. Não podemos deixar também de citar a ilustre presença brasileira de Rodrigo Santoro, cada vez mais fiel à sua carreira internacional.

Parte técnica

piano westworld

Westworld também é um primor em sua parte técnica, provando mais uma vez a incrível capacidade da HBO em investir na qualidade de seus programas, mostrando a importância da televisão que não deixa nada a desejar ao que é feito no cinema.

O design de produção é fantástico, tanto na recriação do ambiente do velho oeste, como na criação do parte corporativa do parque. Um local que apesar de ter muitas paredes de vidro, que passam a imagem de transparência, esconde diversos mistérios em seu funcionamento. O lugar central, que contém um mapa do parque e onde os funcionários acompanham o funcionamento do local, tem paredes vermelhas, simbolizando a emoção que o parque quer passar, mas também o perigo sobre o que ocorre lá dentro. A roupa dos funcionários também tem detalhes nessa cor, no intuito de disfarçar as manchas de sangue deixadas enquanto as pessoas carregam os corpos dos anfitriões. Já os figurinos vistos dentro de Westworld ajudam a apresentar os personagens, passando pela cor preta e misteriosa do Homem de Preto, simbolizando também um perigo, ou do azul do vestido usado por Dolores, passando a imagem da donzela inocente. Não é a toa que quando a moça troca de roupa, também percebemos a sua própria mudança de personalidade.

Outro ponto de destaque é a trilha sonora Ramin Djawadi, que já deixa claro no tema de abertura da série o clima grandioso e misterioso por trás de Westworld. Entretanto, o mais interessante são as músicas usadas dentro do parque. Quando vemos a imagem de um piano automático na tela, simbolizando também a passagem de tempo e mudança de ambiente entrando no saloon, uma canção é executada e muitas vezes é alguma canção popular da música pop de grupos como Radiohead (“No Surprises” e “Fake Plastic Trees”) e Soundgarden (“Black Hole Sun”). Isso causa uma surpresa e também uma sensação de familiaridade, gerando um efeito curioso que diverge do ambiente da narrativa. Um dos momentos em que esse recurso é melhor utilizado é durante uma cena de tiroteio ao som de “Paint it Black”, clássico dos Rolling Stones. O diferencial da trilha é misturar o clima clássico do faroeste com música pop, criando algo atual e retrô ao mesmo tempo.

A montagem dos episódios também é muito boa ao conseguir alternar bem entre os diversos acontecimentos que são apresentados pela narrativa. Isso cria um bom ritmo a história, sem parecer que estamos deixando algo importante de lado. Além disso, a noção de passagem de tempo fica um pouco distorcida. Uma das surpresas da temporada envolve não saber quando cada ponto da trama está se passando, sendo que em nenhum momento parecemos estar diante de eventos que se passam em linhas temporais tão diferentes.

O final da temporada e o que esperar da 2ª

foto 2ª temporada de Westworld

No final da temporada somos apresentados ao mistério por trás da nova narrativa desenvolvida por Ford, que é apresentada aos donos da empresa responsável pelo parque. Porém, não era bem isso que eles esperavam: um CAOS! Será que Robert realmente morreu ou essa é mais alguma de suas surpresas? Os anfitriões tomaram conta do lugar “tocando o terror” em cima dos humanos. O que esperar dessa revolta dos andróides? Apesar da série apresentar e resolver seus principais conflitos de maneira satisfatória, ela deixa pontas em aberto para uma continuação. Após surpreender com uma ótima 1ª temporada, a missão de Westworld será complicada em conseguir atender as expectativas na 2ª. Vamos ver que surpresas nos aguardam.



cartaz 1ª temporada WestworldWestworld – 1ª Temporada

Criado por: Jonathan Nolan e Lisa Joy
Emissora: HBO
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Ingrid Bolsø Berdal, Luke Hemsworth, Sidse Babett Knudsen, Simon Quarterman, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Shannon Woodward, Ed Harris, Anthony Hopkins, Ben Barnes, Clifton Collins Jr., Jimmi Simpson e Tessa Thompson
Ano: 2016

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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