Crítica | Trumbo – Lista Negra (Trumbo, 2015)

A Academia parece voltar-se para Trumbo mais por culpa do que por mérito da obra, mas Bryan Cranston vale muito o preço de qualquer ingresso.

Dalton Trumbo foi um roteirista famoso (e também infame) em Hollywood por dois motivos: seu talento e sua ideologia política. Trumbo, afinal, era comunista. E sua posição ideológica lhe proporcionou uma considerável quantidade de sofrimento pessoal e profissional que, lamentavelmente, pouco tinha a ver com o mérito de seu trabalho.

Estamos falando de um período negro na história do pensamento político de um país que no passado teve na luta pela liberdade dos direitos civis uma de suas grandes marcas. No período sucedâneo à Segunda Guerra Mundial – que marcou o mundo pela polarização entre a URSS e os EUA, conhecido como Guerra Fria -, a histeria política, a perseguição e a culpa por associação eram a regra. O medo da “ameaça vermelha” assombrava o imaginário popular e os pesadelos das famílias e transformavam qualquer um que pensasse diferente em um inimigo do Estado e da Sociedade.

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O personagem de Louis C.K.; mais fiel a causa do que o próprio Trumbo.

Nesse contexto Trumbo foi o ícone de uma luta fundamental. Não do comunismo. Mas da afirmação do direito à liberdade de associação política, celebrado pela primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, que não por acaso é frequentemente invocada no filme, como grande símbolo de defesa de direitos fundamentais em um Estado que, com a conivência e o apoio de muitos, começava a tomar contornos totalitários.

Assim, um dos principais méritos do filme de Jay Roach (outro diretor conhecido por suas comédias, que, como Adam McKay, vem explorando temas políticos) é mesmo sua mensagem. O outro mérito é a já costumeira ótima interpretação de Bryan Cranston, na pele de Dalton Trumbo, mais uma vez imergindo em seu personagem. Ainda que em alguns momentos sua interpretação pareça ser menos inspirada, na maior parte do tempo vemos o personagem ganhar vida e carregar o filme consigo. É, enfim, uma performance que vai além do meramente competente, porém dificilmente classificável como brilhante. Pelo papel, inclusive, Cranston recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Uma indicação que não deixa de ser válida, dada a carreira do ator, mas que, considerando apenas o trabalho específico do filme, nos faz questionar se talvez Spike Lee não esteja certo em seus questionamentos à Academia.

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Bryan Cranston e Helen Mirren: adversários convincentes.

Trumbo, enfim, se sustenta mesmo em suas boas atuações; o já citado Bryan Cranston, e a sempre ótima Helen Mirren – que no filme interpreta a antagonista Hedda Hopper – estão ambos muito bem em seus papéis. Além disso estão bem acompanhados de boas atuações de John Goodman, Louis C.K. e do sempre surpreendente e competente Michael Stuhlbarg, que esse ano também pode ser visto em Steve Jobs. Compare as duas atuações e ficará claro o quão bom ele é. Essa qualidade na atuação do elenco não deixa de ser também um ponto positivo digno de nota no trabalho do diretor.

Para além disso, porém, Trumbo não é nada de excepcional. Essa é uma das grandes armadilhas de películas biográficas. Os  diretores desse tipo de filme costumam incorrer no erro de sustentar-se apenas nos fatos e personagens e no valor intrínseco que o mesmo teria. Para Hollywood, a propósito, o valor da história de Trumbo é extremamente importante, o que deve explicar o apreço especial da Academia pela película. Mas como realização cinematográfica em si Jay Roach não consegue levar seu filme para além do patamar básico. É preciso de tipo especial de diretor para evitar que a dramatização de uma história real seja apenas uma espécie de documentário com atores interpretando um roteiro.

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Elle Fanning no importante papel da filha Nikkola: o filme demandava uma atriz com mais força.

Ironicamente a luta de Trumbo é bastante atual, e o filme funciona como um relevante registro de tempos negros que não devem retornar. Basta trocar o termo comunista por terrorista e fica evidente a semelhança entre os idos da década de cinqüenta e o nosso tempo. E essa realidade não se restringe ao dilema da ameça terrorista, mas também pode ser comparada à luz do clima de polarizações políticas atuais, que transforma em inimigos vis qualquer que se oponha, dessa vez não ao Estado, mas a um ditador muito mais inclemente e pernicioso: o senso comum. Afinal são mais o senso comum e a sanha moralista da esfera privada – simbolizadas no filme pela infame e vergonhosa lista negra de Hollywood e pela personagem Hedda Hopper – os maiores inimigos de Trumbo ao longo de décadas, do que o Estado. E não se desafia o senso comum impunemente sem se pagar um alto preço por isso.


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Uma frase: a perda de um direito civil para um, é a perda dos direitos civis para todos.

Uma cena: Frank King (John Goodman) explica polidamente a um membro da MPA que concorda em discordar dele com relação à Lista Negra e Trumbo.

Uma curiosidade: Apesar de retratar diversas personalidades da história de Hollyood um dos personagens principais da história, que contracena bastante com Bryan Cranston, Arlen Hird (Louis C.K.) é totalmente fictício.


Trumbo – Lista Negra (Trumbo, 2015)

Direção: Jay Roach
Roteiro: John McNamara
Elenco: Bryan Cranston, Hele Mirren, Diane Lane, Louis C.K., Michael Stuhlbarg, Adewale Akinnuoye-AgbajeElle Fanning e John Goodman.
Gênero: Drama, Biografia
Ano: 2015
Duração: 124 minutos.
Graus de KB: 1 – John Goodman trabalhou em Sentença de Morte (2007) com Kevin Bacon.



Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

3 thoughts on “Crítica | Trumbo – Lista Negra (Trumbo, 2015)

  1. Excelente crítica MB.

    Gostei mais do filme pela história e sua importância do que propriamente pelas suas qualidades técnicas. Parece que Dicaprio vai levar esse Oscar pela fraca concorrência. Não que o Sr. Cranston seja um ator fraco, longe disso, mas não é lá uma atuação digna da estatueta dourada que temos aqui.

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