Crítica | Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

Quentin Tarantino chega a seu oitavo filme com “Os Oito Odiados” e o próprio título do longa já faz uma brincadeira com isso. Após “Django Livre” ele se empolgou com o gênero faroeste e aqui investe nele novamente. Mas obviamente que as coisas não são tão simples assim. O diretor criou o seu próprio estilo de filmar que vai além dos gêneros com suas próprias regras e marcas registradas usando como referência o seu amor ao cinema.

Capítulo 1: As Referências

O clima do filme me lembrou algo bastante parecido com alguns filmes de Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, como por exemplo “Festim Diabólico”. E também de filmes que se passam praticamente o tempo todo dentro de um mesmo lugar, como o filme citado. Um outro exemplo é o filme “O Enigma de Outro Mundo” de John Carpenter que além de ter alguma semelhança na trama ao mostrar personagens preso dentro de um lugar, também conta com Kurt Russell no elenco e trilha sonora de Ennio Morricone. Recomendo para quem já assistiu o filme ler o texto do crítico Pablo Villaça do site Cinema em Cena para ver sua leitura e análise sobre o contexto da história do filme. E recomendo também uma entrevista feita com Tarantino no site Jovem Nerd.

Já a brincadeira do título e o fato de ser seu 8º filme é muito boa, apesar de que não termos apenas 8 personagens dentro da casa (ele deixou o condutor da carroça de fora de propósito). Mas é claro que o que chama mais a atenção são as marcas registradas da filmografia de Tarantino.

Um dos meus destaques é o fato dele gostar de filmar em close os pés dos atores enquanto eles estão caminhando. Aqui ele dá uma “inovada” ao fazer a mesma coisa, só que com os cavalos (risos).

Um tema recorrente de sua filmografia é a vingança. Aqui o tema está presente, mas tentar explicar o motivo pode estragar a história do filme. Mas não é qualquer diretor que consegue manipular e brincar com as emoções do espectador ao ponto de fazê-lo vibrar e se emocionar com o comportamento moralmente duvidoso de seus personagens.

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Capítulo 2: A parte técnica

Uma das marcas registradas de seus filmes é a trilha sonora e aqui temos uma grande diferença. Geralmente Tarantino costuma fazer uma compilação de diversas músicas para compor a trilha. Aqui quem ficou com o cargo de fazer a trilha foi o músico Ennio Morricone, um dos grandes gênios dessa arte responsável por diversos temas clássicos de faroeste, entre outros gêneros. O diretor já tinha usado músicas dele em outros filmes, mas ter músicas originais escritas especialmente para o filme é uma grande honra. Ainda assim temos algumas canções escolhidas por Quentin, como uma do White Stripes. A trilha de Morricone da um toque especial ao filme com temas que remetem aos clássicos do faroeste só que fugindo do habitual, mas que também funcionam para compor, antecipar e intensificar o clima de suspense e tensão das cenas.

Já a fotografia de Robert Richardson enfrentou um desafio interessante já que Tarantino resolveu filmar em 70mm (geralmente os filmes são filmados em 35mm) com uma razão de aspecto de 2.76:1. Isso já chama a atenção na projeção no cinema onde vemos um retângulo mais comprido que o normal. Isso é ótimo para filmar panorâmicas já que é possível mostrar mais coisas na tela em grandes cenários em que o fundo é importante. Só que a maior parte do filme se passa dentro de uma cabana com um clima totalmente claustrofóbico. Acabou sendo uma escolha peculiar, mas que funciona de maneira muito eficaz e surpreendente. Então mesmo em closes nos rostos dos personagens ainda é possível ver muita coisa do cenário no fundo. Isso sem dúvidas deve ter sido um grande desafio nas filmagens, mas que se justificam no resultado visto na tela.

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razão de aspecto de 2.76:1

Capítulo 3: O personagem X tem um segredo

Tarantino mais uma vez divide a história em capítulos (assim como esse texto, fazendo referência ao filme) e brinca com a estrutura narrativa que até lembra um pouco “Cães de Aluguel”, seu 1º filme (e o meu favorito), mostrando uma parte dos eventos de forma não linear. E também usa um pouco de flashback num dos melhores momentos do filme quando o personagens de Samuel L. Jackson conta uma história.

Mas o melhor são os títulos dos capítulos. Um deles é esse que da título a esse capítulo do texto: o personagem X tem um segredo (obviamente não vou contar quem é o personagem X). Isso me lembrou o nome dos episódios do desenho Dragon Ball Z que muitas vezes davam SPOILER sobre a trama, algo tipo “boneco X derrota boneco Y usando o golpe Z”. Só que aqui ele brinca justamente com essa expectativa ao mostrar qual o segredo que o personagem sabe e vai desenvolver a ideia de forma sensacional utilizando até um narrador para explicar bem a situação (risos).

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Capítulo 4: Um faroeste claustrofóbico com mistério, suspense e tensão

Um faroeste que se passa em grande parte dentro de uma casa ou dentro de uma carroça dando um clima claustrofóbico ao filme. Isso é algo que parece não fazer muito sentido, mas não na mente de Tarantino que conseguiu fazer com que esses elementos funcionassem juntos. Some a isso também um clima de mistério, suspense e tensão. Pronto, já temos os principais elementos do filme.

A história se passa algum tempo após a Guerra Civil americana. O caçador de recompensa John “O Enforcador” Ruth (Kurt Russell) está levando sua prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para a cidade onde ela será executada. No caminho ele encontra com outro caçador de recompensa Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e com Chris Mannix (Walton Goggins), futuro xerife da cidade destino. A tensão começa já que Warren e Mannix lutaram em lados opostos durante a guerra. Graças a uma nevasca eles são obrigados a se refugiar numa cabana onde irão encontrar com: Bob (Demian Bichir), um mexicano que está tomando conta do local enquanto os donos estão viajando; Oswaldo Mobray (Tim Roth), um inglês que é o carrasco da cidade; Joe Gage (Michael Madsen), um vaqueiro; e o general confederado Sanford Smithers (Bruce Dern).

Pela descrição dos personagens já dá para perceber as diversas maneiras de se criar um conflito entre eles. Principalmente porque John acredita que alguém do grupo pode estar querendo soltar Daisy. Está criado o clima de mistério e tensão para saber quem não é quem aparenta ser.

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Capítulo 5: Elenco e os personagens

Num filme de quase 3 horas de duração, Tarantino usa quase metade do tempo “apenas” para desenvolver seus personagens. O ritmo começa um pouco lento e com diversos diálogos, outra marca característica do diretor, só que aqui trocando as referências pop pelas históricas. Isso é importante para quando chegarmos no momento de maior tensão entre os personagens tudo faça sentido na história. Além disso, ele consegue construir a trama de maneira eficiente e satisfatória.

Para isso funcionar é preciso um trabalho extra dos atores para conseguirem entregar boas atuações para que toda essa conversa não fique chata e flua num ritmo interessante para o espectador. E Tarantino consegue mais uma vez tirar o melhor do seu elenco. Fica até difícil destacar porque até mesmo os personagens menores tem importância na história. Mas sem dúvidas os que mais se destacam e roubam a cena quando estão persentes são Samuel L. Jackson e Jennifer Jason Leigh.

Warren e Domergue representam as principais minorias do elenco: um negro e uma mulher. Então se eles ainda hoje sofrem preconceito racial e lutam por igualdade, imaginem na época em que o filme se passa. Esse talvez seja o filme de Tarantino que melhor represente questões raciais e sociais de maneiras mais claras.

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Capítulo 6: A conclusão

Tarantino é o tipo de diretor que se preocupa com todos os detalhes da história. Muitos elementos não estão lá sem um sentido. Então coisas como um doce no chão ou uma porta com problemas terão alguma explicação para o deleite da plateia. Obviamente que ele não poderia deixar de fora as suas marcas registradas e uma das que faltou citar foi a violência. Ela sempre é mostrada de forma estilizada e exagerada. Sem dúvidas o auge desse recurso foi em “Kill Bill”, mas aqui ele encontrou bem um equílibrio entre o “bizarro” e o “cômico”, ou seja, um exagerado que também não parecesse tão absurdo. O clima de tensão criado dentro da casa é feito de forma brilhante e mais uma vez ele surpreende ao brincar com o gênero em questão, o faroeste, transformando o filme num suspense cheio de mistério com um clima claustrofóbico. Aqui ele prova mais uma vez porque é um dos melhores cineastas em atividade e sem dúvidas um dos meus diretores favoritos.

Classificação:


 

8odiados-cartazTítulo Original: The Hateful Eight (EUA, 2015)
Com: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Bruce Dern, Demian Bichir, Michael Madsen, Tim Roth, James Parks, Channing Tatum, Dana Gourrier e Zoë Bell
Direção e Roteiro: Quentin Tarantino
Duração: 167 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

18 thoughts on “Crítica | Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

  1. Eu reconheço muito dos esforços do Tarantino em mostrar referências e usá-las para construir algo único, porém, ele se deixou levar demais nesse filme e ficou uma miscelânea exagerada. Nem sempre ter muitos elementos juntos significa que aquilo é tão bom assim. O filme é bom e até surpreendente, muito em virtude do elenco usado, mas carregado demais.

  2. Para mim é sem dúvida um dos melhores filmes de Tarantino. Não tive a impressão de que o filme começa lento. Na verdade o filme mantém um ritmo tenso durante toda a projeção. A tensão já começa quando os personagens de Kurt Russel e Samuel L. Jackson. Cada linha de diálogo tem seu valor e todos são muito bem entregues pelos atores. Claro, uns melhores que os outros. Não se trata de um filme de ação. É um western mesmo. Estilo os Imperdoáveis de Clint Eastwood que vai se construindo até o final, que normalmente é anticlimático. Assisti Pulp Fiction essa semana e falo sem medo de errar: esse filme é tão bom ou até melhor do que Pulp Fiction. Como qualquer grande diretor Tarantino não se acomodou e melhorou com o tempo. Como um bom vinhedo que produz vinhos de safras cada vez melhores. E Hateful Eight é uma das melhores safras já produzidas por Tarantino. Algo para se sorver com paciência e atenção e se deliciar. Uma vez após a outra.

  3. Ah sim, e sem dúvida é o filme mais politicamente engajado de Tarantino. E muito por isso merece nosso aplauso.

  4. Um filme sensacional que, pouco a pouco, provará seu valor nas discussões propostas por Quentin. A música de natal colocada de maneira sútil na hora que a ação começa a “prosperar” foi demais.

    1. Concordo com você, Gabriel. Daqui a alguns anos, quando Tarantino tiver sua obra completa, tenho poucas dúvidas que essa será reputada como uma de suas grandes obras.

  5. muito foda esse filme, Quentin Tarantino dando aula de roteiro, não sou fã de faroeste mais se tratando de Tarantino eu abro uma exceção, que venham outros iguais a este, todos os atores mandaram muito bem, filme super inteligente, vale muito a pena…Oscar muito bem merecido!

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