Crítica | Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 2016)

Por que “7 Homens e um Destino” é o western que nossa geração precisa?

O western spaghetti – ou bangue-bangue à italiana – se notabilizou nas décadas de 60 e 70 por reviver um gênero que Hollywood à muito já considerava desgastado. O western spaghetti imprimiu uma estética própria que apostava no lúdico e imaginativo ainda que no processo algo (ou muito) da realidade histórica se perdesse. Mas como o cinema é sobretudo a arte da ilusão em favor entretenimento, o cinema estadunidense reinventado pelos italianos agradou em cheio, não apenas nas terras do Tio Sam, mas no mundo inteiro.

Um dos grandes nomes desse gênero foi, sem dúvida, o diretor Sérgio Leone. Com um domínio de câmera, fotografia, edição e um timing narrativo impecável, Leone tomou um gênero típico da história estadunidense e o reinventou na forma de uma espécie de ópera pop com muita pólvora, fumaça, tiros e cavalos. Ao fazer essa manobra Leone universalizou um gênero de nicho. Tal manobra, porém – como já ressaltado –  tinha o evidente custo de descolá-lo da realidade histórica.

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Dito isso, é bem provável que a maioria das pessoas já saiba que Sete Homens e um Destino (2016) é uma refilmagem de um dos grandes clássicos do western. O filme original de 1960 dirigido por John Sturges – que por sua vez, curiosamente, é também uma refilmagem do clássico de Akira Kurosawa, Os Sete Samurais (1954) – é quase uma unanimidade de crítica e público, sendo considerado um dos melhores filmes do gênero de western.

O fenomenal, o espetacular e o ótimo

Assim, fica evidente o tamanho do desafio que Antoine Fuqua – que já nos presenteou com o excelente Dia de Treinamento, mas que desde então teve um desempenho irregular na direção – tinha em suas mãos, ao menos de uma perspectiva cinematográfica: não ser considerado como um reles cópia ‘comercialesca’ do século XXI de dois dos maiores clássicos do cinema do século XX. A solução que Fuqua encontra, porém, não é menos audaciosa e também, curiosamente, um atestado de reverência, respeito e amadurecimento de um diretor que no passado não foi exatamente reconhecido por sua humildade.

A versão de 1960 dos Sete Magníficos, estrelada por Yul Brynner, Steve McQueen, Charles Bronson, Eli Wallach e James Coburn – apenas para citar alguns dos nomes lendários associados à película -, é importante que se frise, não era um exemplar do western spaghetti. Ao contrário, talvez esse tenha sido um dos últimos exemplares do autêntico western estadunidense que dominou os cinemas dos anos 30 até meados dos anos 50, quando começou a experimentar uma certa decadência.

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Ao optar por homenagear a estética do western spaghetti, assim, Antoine Fuqua  acerta com precisão no tom do filme. Se afasta do compromisso de ser melhor do que o original de 1960, por assumir uma estética completamente distinta, ao passo que concomitantemente homenageia um dos estilos mais amados dos cinéfilos. E ao optar pela estética lúdica que os italianos imprimiram ao mítico oeste selvagem, Fuqua acaba criando espaço para desenvolver o tipo de western que nossa geração e o século XXI, acima de tudo, necessitem.

Afinal, como já disse, precisão histórica não é a preocupação do western spaghetti. Tampouco geográfica. A maior parte dos filmes era produzida na Europa e suas falas eram dubladas em inglês para o mercado estadunidense. Essa despreocupação histórica e o apelo ao lúdico permitia, como já falei, a autores como Sergio Leone falarem uma linguagem que abordasse temas e personagens de uma perspectiva mais universal e que se comunicava com inúmeras platéias em todo o mundo.

A arte como forma de resistência, mesmo no velho oeste

Assim, se você espera por assistir a um filme que, no estilo de Oito Odiados de Tarantino, se ocupa em abordar a difícil tensão racial na reconstrução histórica dos EUA pós Guerra Civil, você irá com certeza se desapontar. Essa sem dúvida alguma não é a proposta de Fuqua. O que ele quer, simplesmente, é contar uma história de honra, sangue e bravura que é universal, utilizando o cenário de velho oeste mais simplório, idílico e maniqueísta, porém apresentado de forma bastante honesta, e que lhe permite compor os seus Sete Magníficos com todo o tipo de minorias, cada uma com seu espaço e relevância na trama.

Sim, seria muito difícil, no contexto do velho oeste, um pistoleiro negro como Sam Chisolm, o personagem do sempre “the fucking awesome greatest actor of all time. period.” Denzel Washington liderar um bando composto por brancos – um deles um ex-confederado -, índios, mexicanos e chineses, sem que não se operasse qualquer tipo de tensão entre eles? Praticamente impossível. Mas não é esse o ponto.

Diante de um mundo cercado de intolerância, conservadorismo e preconceitos disfarçados com um ar de falaciosa justificativa racional de apego, seja à história, seja à pretensa essência inconspurcável de um personagembasta lembrar da recente polêmica envolvendo a orientação sexual do Sr. Sulu em Star Trek – a questão da representatividade se apresenta com uma necessidade de afirmação urgente. É cada vez mais importante que as mais diversas minorias possam enxergar nos personagens na telona alguém que lhes representa sem recorrer a estereótipos.

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O melhor do western spaghetti com o ritmo do século XXI

Mas é claro que não é apenas isso que faz de Sete Homens e um Destino (2016) um dos melhores westerns feitos nos últimos 10 anos. Ao homenagear o western spaghetti, Antoine Fuqua demonstra não apenas amadurecimento, mas uma profunda admiração pela obra de autores com Sergio Leone. E uma admiração que é referenciada na telona com uma extrema habilidade e sutileza, recorrendo a tudo que fez do casamento entre western e cinema um dos mais felizes e belos da história da arte do entretenimento.

Todos os elementos clássicos estão lá: as tomadas em contra-luz, os planos panorâmicos, o enquadramento que valoriza mais o cenário do que os personagens, a câmera que começa lentamente dos pés e fecha no close dos olhos no momento do duelo decisivo; tiroteios, socos, fumaça, cavalos, e muita ação, tudo isso desenvolvido diante de seus olhos com clareza, ritmo e uma plasticidade simplesmente cativante.

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A trilha sonora é também um deleite à parte. Na mesma medida que Antoine Fuqua, James Horner – foi a última trilha do compositor antes dele falecer tragicamente em um acidente de avião no ano passado – homenageia o sempre lendário Ennio Morricone – que a Academia recentemente contemplou com um mais que merecido Oscar de Melhor Trilha Sonora pelos Oito Odiados – evocando temas típicos de suas lendárias trilhas para os filmes western spaghetti, ao mesmo tempo em que presta reverência e se utiliza do tema clássico do filme original criado por Elmer Bernstein.

O roteiro é simples, dividido em três atos bem demarcados, e sem muitas complicações, e este é seu maior trunfo. A história é já, praticamente, um dos mais importantes arquétipos da história do entretenimento: um grupo de foras-da-lei é contratado por uma comunidade indefesa para protegê-los de um criminoso ainda maior. E esse contrato se torna muito mais um ato de heroísmo e bravura do que um serviço.

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Um elenco afiado e… Denzel Washington

A simplicidade do roteiro dá espaço para o diretor explorar bem as cenas de ação, desenvolver de forma satisfatória cada indispensável cliché, e principalmente dar espaço merecido para cada personagem se desenvolver. Em cada linha de diálogo que sai dos lábios de Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D’Onofrio e até mesmo de Byung-hun Lee parece que descobrimos algo mais sobre a personalidade de seus personagens, sem que eles necessitem explicitar nada nesse sentido.

Peter Sarsgaard também está fantástico como o vilão Bartholomew Bogue. Um tanto quanto entediado, um tanto quanto megalomaníaco, o vilão consegue ser estereotipado no exato tom que a película necessita, cumprindo com sucesso o seu papel de ser odiado. Um detalhe interessante de se notar é que, como os novos tempos também determinam, o vilão da refilmagem não poderia mais ser um malvado Bandido Mexicano (interpretado por Eli Wallach na versão de 1960, que por acaso era judeu, apesar de sempre repetir o papel de mexicano em westerns); o vilão da vez reflete bem as marcas da sociedade estadunidense que acordou para a falácia do sonho americano: Bartholomew Bogue é um capitalista malvado, que especula, extorque e usa da força para se apropriar (no Brasil o termo da moda é “incorporar”) da terra e acumular riquezas.

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Do outro lado, porém, temos ninguém menos do que “the fucking awesome greatest actor of all time. period.” – acho que eu já disse isso, não é? – Denzel Washington. Apesar de interpretar um personagem diferente, a relação que se faz entre o figurino do Sam Chisolm de Denzel e de Chris Larabee Adams de Yul Brynner é imediata: ambos trajam o sóbrio preto que envolve os seus personagens com um ar austeridade, elegância, mistério e acima de tudo, de justiça. Ambos os personagens ocupam, afinal, o espaço da Justiça no filme. Mas não de qualquer Justiça. Da Justiça árida, rápida e inclemente do velho oeste que trava uma relação sempre íntima e nebulosa com a Vingança.

Mas afinal, quando a lei é desvirtuada pelos poderosos para seus próprios interesses, não nos resta senão nos apegar à ética de certos homens por alguma esperança de Justiça. Era assim no velho oeste, e talvez, cada vez mais, venha a ser assim em nossos dias.


1 (Kevin) Bacon

Uma frase: Eu busco por Justiça… mas eu me satisfaço com vingança.

Uma cena: Os sete cavalgam em contra-luz no horizonte.

Uma curiosidade: Wagner Moura quase, quase fez o papel do latino Vasquez, interpretado no filme por Manuel Garcia-Rulfo. Porém, por conta de conflitos de agenda nas gravações da segunda temporada de Narcos, ele teve que desistir do papel.


Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 2016)

Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: Richard Wenk Nic Pizzolatto
Elenco: Denzel WashingtonChris PrattEthan HawkeVincent D’OnofrioByung-hun LeeManuel Garcia-RulfoMartin SensmeierHaley Bennett e Peter Sarsgaard.
Gênero: Ação, Western
Ano: 2016
Duração: 133 min.
Graus de KB: 1! – Peter Sarsgaard e Kevin Bacon estiveram juntos em Aliança do Crime (2015)!

 



Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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