Crítica | Exit 8

Crítica | Exit 8

Um curioso fenômeno vem tomando forma no cinema: o das adaptações de jogos independentes. Embora filmes baseados em videogames existam há mais de três décadas, quase sempre nasceram de franquias consagradas, títulos de enorme popularidade e propriedades pertencentes a grandes estúdios. Nos últimos anos, porém, uma nova tendência começou a emergir: obras inspiradas em games independentes e, muitas vezes, relativamente obscuros, vêm ganhando espaço nas telas — normalmente em produções igualmente independentes. Casos como Five Nights at Freddy’s, Iron Lung e a futura adaptação de Sifu, produzida pelo diretor de John Wick, mostram que este é um movimento que está longe de ser passageiro.

Uma das iniciativas mais curiosas desse cenário é a adaptação do indie japonês The Exit 8. O jogo sequer possui uma história tradicional – o que o torna interessante está em uma premissa simples e engenhosa: você está preso em um loop no corredor de uma estação de metrô e, para escapar, precisa alcançar a eponímia “Saída 8”.

A mecânica é explicada logo no início, por meio de um cartaz. O jogador deve memorizar cada detalhe do corredor original. Ao notar qualquer elemento estranho — uma anomalia —, precisa recuar imediatamente. Se nada parecer fora do lugar, o caminho correto é seguir em frente. O processo deve ser repetido oito vezes – uma para cada saída, até a oitava. Qualquer erro, seja ignorar uma anomalia ou voltar em um corredor normal, leva tudo de volta ao começo.

E o jogo praticamente se encerra aí. Não há grandes explicações, desenvolvimento narrativo ou uma conclusão especialmente satisfatória. Seu verdadeiro apelo está na descoberta das dezenas de anomalias possíveis, apresentadas aleatoriamente a cada tentativa. Algumas são divertidas, outras apostam no jump scare, enquanto certas variações são apenas estranhas e curiosas.

Para funcionar como longa-metragem, a adaptação cinematográfica (também japonesa) precisava expandir essa base mínima em algo com drama, personagens e progressão narrativa. Felizmente, o filme entende essa necessidade e constrói um arco funcional para seu protagonista, que aqui recebe um desenvolvimento inexistente no material original.

Ainda assim, “funcional” talvez seja a palavra mais exata para definir o resultado. O filme cumpre o que se propõe, sem alcançar nada extraordinário — mas também sem afundar diante de um conceito tão limitado. A história serve como sustentação para aquilo que realmente importa, assim como no jogo: as anomalias.

E é justamente nesse aspecto que a produção encontra seu ponto forte: visualmente, Exit 8 é um filme interessante e tecnicamente bastante competente. A fotografia explora com criatividade um espaço extremamente restrito, encontrando ângulos e composições que evitam a monotonia do cenário repetitivo. Já a edição mantém ritmo firme e segura a atenção até os minutos finais.

No restante, porém, o filme resume-se ao almoço de domingo requentado durante a semana: pode até estar gostoso, mas é familiar demais para causar um impacto duradouro. O interesse do espectador se mantém até o desfecho, porém a obra começa a sumir da memória assim que os créditos sobem.

Ainda assim, há algo bastante admirável em sua própria existência. Adaptar para o cinema um jogo relativamente desconhecido e quase desprovido de narrativa exige certa ousadia. Mesmo que o resultado final seja apenas mediano, “Exit 8” amplia as possibilidades e reforça a ideia de que o universo indie ainda pode render boas surpresas nas telonas.


Uma frase: As regras: “Não negligencie nenhuma anomalia. Se você encontrar uma anomalia, recue imediatamente. Se não encontrar nenhuma anomalia, não recue. Saia pela Saída 8.”

Uma cena: A anomalia mais interessante do jogo também está presente no filme – mas eu não vou dizer qual é.

Uma curiosidade: O corredor do jogo é quase que milimetricamente reproduzido no filme – a principal mudança são os cartazes, que ficaram diferentes.


Exit 8 (8番出口)

Direção: Genki Kawamura
Roteiro: Kentaro Hirase e Genki Kawamura
Elenco: Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Naru Asanuma, Kotone Hanase e Nana Komatsu
Gênero: Ação, Aventura, Horror, Terror, Suspense
Ano: 2025
Duração: 95 minutos

Dario Lima

Dario Lima, além de ser faixa branca em todas as artes marciais e modalidades de combate conhecidas pelo homem, é também formado em Cinema. Mas sua verdadeira paixão são os joguinhos eletrônicos, desde que ganhou um Atari de presente do pai em uma época longínqua em que Menudo tocava nas rádios, Chevette era carro de playboy e McGyver passava na TV nas manhãs de domingo. Escreve sobre games na POCILGA e de vez em quando perturba os outros em algum episódio do Varacast.

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