Review | Westworld – S04E02 – Well Enough Alone

Review | Westworld – S04E02 – Well Enough Alone

No meio de citações literárias a Ernest Hemingway e a revelação de um novo parque temático, Well Enough Alone apresenta algumas reflexões interessantes que nos relembram sobre a verdadeira essência de Westworld.

Na maior parte das narrativas que recorrem ao chamado ” arquétipo de revolução das máquinas”, o motivador da revolta das máquinas sobre seus senhores, os seres humanos, é simplesmente o resultado de uma conclusão lógica: os seres humanos não são uma espécie adequada a estar no controle do planeta. Em Westworld, porém, o motivador não é outro senão a mais pura e doce vingança.

E trata-se de uma vingança que exige uma forma de dominação muito específica que passa por retribuição com requintes de (justificada?) crueldade. Não poderia ser diferente, afinal, considerando a grande peculiaridade que marca as “máquinas” (os anfitriões) de Westworld: emoções.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos encontrados em Well Enough Alone, o segundo episódio da quarta temporada de Westworld.

Os Anfitriões são Inteligências Artificiais, softwares extremamente sofisticados, integrados a um “hardware” mais sofisticado ainda: corpos sintéticos que imitam em quase tudo e próximos à perfeição o corpo humano. Mas sem dúvida o que mais os diferencia de outras IAs que costumeiramente surgem em outras narrativas é sua capacidade de mimetizar não o corpo humano, mas sobretudo suas emoções e as adequadas reações a estas. Pois não é outra a função de existir dos Anfitriões que não a de servir aos deleites violentos dos Hóspedes, respondendo a eles de maneira mais “humana” o possível, garantindo, assim, a maior sensação possível de verossimilhança e uma experiência “realista” no parque temático que dá nome à série. 

Assim, nada mais coerente que a “revolta das máquinas” liderada pela versão da inúmeras vezes abusada Dolores (agora no corpo que copia a falecida executiva da Delos, Charlotte Hale), seja carregada de emoção. Para ela, a vitória só tem sentido se houver um perdedor que tenha consciência de sua derrota. Por isso ela mantém o verdadeiro William “Homem de Preto” vivo, enquanto usa a versão dele Anfitrião – agora, uma encarnação que referencia mais que diretamente o filme original, em que o Homem de Preto era interpretado por Yul Brynner – para colocar seu plano em prática. Mas que plano é esse?

Essa pergunta parece ser o principal fio condutor dessa quarta temporada de Westworld. O que parece certo é que “Charlores” quer fazer a humanidade provar um pouco do próprio veneno, ou melhor, de seus deleites violentos. Será seu plano transformar o mundo no grande parque de diversões dos Anfitriões? Tudo indica que sim. Mas, para fazer isso, não basta apenas dominar fortunas e políticos poderosos. Ela sabe que precisa vencer sua principal adversária: Maeve.

E aqui vale um destaque: Maeve, a personagem que Thandie Newton criou a partir do roteiro de Jonathan Nolan e Lisa Joy é um verdadeiro deleite. Ao mesmo tempo forte e vulnerável. Decidida e titubeante. Cínica em suas palavras, mas esperançosa e cheia de empatia em seus atos. Quando Maeve entra em cena, é difícil não ficar hipnotizado por ela. Ela é o equivalente do mocinho charmoso dos faroestes clássicos, que nos encanta e nos conduz através de sua jornada. Só que ela é uma mulher, que como Dolores, foi subsequentemente abusada, em mais de uma versão de sua vida. E mesmo com poderes que nenhum outro Anfitrião parece ter, ela não deixou de perder e sofrer. E voltar a lutar. 

Em “Well Enough Alone” e nessa quarta temporada, vemos Westworld retomar um pouco dos questionamentos que marcaram a série nas duas primeiras temporadas, e que foram lamentavelmente deixados de lado na terceira. Porém, a série parece ter mantido da terceira a prática de alguns diálogos expositivos, e de não apenas mostrar, como fazia antes, mas de dizer e mostrar com mais clareza. A cena em que Charlotte conversa com o verdadeiro William nesse episódio é um grande exemplo disso: em si, sua única função narrativa é explicar ao público claramente o que está acontecendo. Algo que em outras temporadas Lisa Joy e Jonathan Nolan deixavam para que nós, a audiência, nos esforçássemos em fazer sozinhos. Mas, infelizmente, esse tipo de esforço não costuma agradar boa parte da audiência atual que prefere as coisas bem mastigadas e até mesmo digeridas para só então consumi-las. Uma pena, mas, às vezes é preciso dar os anéis para não se perder os dedos. 

Contudo, ainda há algumas perguntas que, a depender de suas respostas, podem devolver à Westworld algo de seu principal apelo das duas primeiras temporadas. Talvez as mais importantes estejam relacionadas a Christina, personagem de Evan Rachel Wood nessa temporada (já que sua versão de Dolores, que é diferente de Charlores, e ainda tinha alguma empatia pela humanidade, morreu na temporada passada). Quem é ela? Em que linha de tempo ela está? Porque ela escreve histórias do que parecem ser também outras versões de Anfitriões que já estão aparentemente mortos há muito tempo? E é claro, principalmente, porque ela parece tanto com Dolores? Considerando a importância que a atriz sempre teve na série, é bem provável que Lisa Joy e Jonathan Nolan tenham guardado parte importante do plot dessa temporada para essa personagem. 

Enfim, com “Well Enough AloneWestworld parece ter voltado a sua (quase) velha forma; e o que é melhor, parece se encaminhar de maneira consistente e coesa para um grand-finale, que, segundo os criadores, deve acontecer na quinta temporada.



Westworld

Temporada:
Episódio: 02
Título: Well Enough Alone
Roteiro: Matthew Pitts e Christina Ham
Direção: Craig William Macneill
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandiwe Newton, Jeffrey Wright, Tessa Thompson, Aaron Paul, Angela Sarafyan e Ed Harris
Exibição original: 03 de julho de 2022 – HBO

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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