Crítica | Eternos (Eternals, 2021)

Crítica | Eternos (Eternals, 2021)
Gemma Chan, como Sersi. Talvez a primeira protagonista de origem asiática do cinema de Blockbuster estadunidense.

Chloé Zhao humaniza as criações cósmicas e divinas de grande mestre Jack Kirby, e nos entrega o maior e mais humano épico do MCU até hoje.

Desde o momento em que os primeiros acordes Time, música do Pink Floyd, tocou na sala de cinema na sessão de Eternos, eu tive a impressão que estaria diante de uma jornada diferente daquelas que comumente a Marvel pretende nos propiciar. E, felizmente, eu não estava errado. Eternos não é exatamente o filme que eu esperava, mas talvez seja justamente essa característica que o faz tão interessante e empolgante.

Para quem não conhece, o grupo de personagens foi criado por Jack Kirby na década de 70. Kirby é o indiscutível grande gênio visual por trás da Marvel e homem que definiu muito do que conhecemos dos quadrinhos de superseres. Um verdadeiro gigante, que não pode ser eclipsado nem mesmo pela sombra de um Celestial.

Não é exagero afirmar que Kirby é o patriarca do que hoje se chama de “universo cósmico” da Marvel. Kirby recorreu a mitologias da humanidade e as recriou para criar novas mitologias, povoando todo um universo narrativo com personagens que eram simplesmente personificações de elementos colossais que compõem o universo. Assim, nos deparamos boquiabertos com uma escala na qual planetas, galáxias, elementos como tempo e espaço, dentre outras forças naturais do universo, se apresentavam como seres sencientes, como personagens interagindo com outros seres. Era o épico elevado ao nível cósmico.

Diante dessa escala mencionada, seria fácil para uma adaptação cinematográfica inserida no contexto dos blockbusters “errar a mão” e cometer um imenso equívoco. Porém, felizmente, Kevin Feige e a Marvel, provavelmente considerando já esse risco, decidiram apostar em uma direção diferente. O desafio, diante da criação de Kirby, não seria reproduzir o seu tamanho em escala cinematográfica, mas justamente calcar aquilo que é desde de sua essência colossal, em algo bastante humano e minimalista.

Salma Hayek, como Ajak, a líder dos Eternos.

Para esse desafio foi escolhida a diretora oscarizada Chloé Zhao, conhecida por seu cinema intimista que recorre planos abertos e magnífica fotografia para enquadrar de maneira belíssima personagens profundamente humanos e identificáveis. E Feige, ao que tudo indica, deu liberdade (quase) total para a diretora que também assina o roteiro.

O resultado é um filme com um tom e ritmo bastante distintos do ritmo de aventura que costuma atravessar as produções da Marvel. É como se, daquele parque de diversões, tão repudiado por Scorsese, fôssemos transpostos para uma arena grega para assistir uma adaptação teatral do universo daqueles personagens.

Isso não quer dizer que Eternos não seja recheado de ação e aventura, e ótimos efeitos visuais (nem todos é, verdade) que já se tornaram parte da assinatura da Marvel Studios. Mas o conflito que move a trama sem dúvida se desloca para uma muito bem-vinda perspectiva mais intimista, desde as motivações até a própria formação de antagonismos. Só isso, ao que me perece, traz um certo frescor para o gênero de filmes de super-heróis que frequentemente não têm qualquer pudor de sacrificar consistência e coerência interna a fim de entregar ao grande público clímax superficiais e servir aos interesses de fandoms e consumidores em geral.

Marvel apresenta: Casos de família.

Evidente, que não deixa de ser um produto atrelado à mais bem sucedida franquia de cinema da última década e, nesse sentido, paga à mesma frequentes tributos. Há uma série de referências e até mesmo o estabelecimento de diálogos com outros elementos da franquia de uma maneira bastante didática, divertida e até mesmo honesta. Porém, isso tende a ser muito mais tangencial do que em outros filmes da Marvel Studios. O momento no qual a necessidade de marcar relações com o MCU de forma mais ostensiva é mais nas já famosas cenas pós-créditos. Dessa vez temos duas cenas bastante instigantes e ajudam a dar o tom do que deve vir pela frente no MCU e que farão alguns fãs de longa data, como eu, ficar com água na boca.

Enfim, Eternos não é o filme do MCU que o fandom espera, mas talvez seja o que a gente precisa. Foge da fórmula Marvel, mas não deixa de ser uma aventura de superseres de proporções épicas, profundamente enraizada em dramas humanos. É a história de uma família diversa e disfuncional tentando encontrar seu papel na ordem universal das coisas. É visualmente impressionante e, sobretudo, empolgante. Uma experiência que merece ser apreciada, vivida e, espero, continuada .


Uma frase: “Você sabe o que nunca salvou o mundo? Seu sarcasmo.”

Uma cena: Os Eternos reencontram Phastos.

Uma curiosidade: Gemma Chan, uma das primeiras protagonistas de origem asiática do cinema de blockbuster estadunidense, já havia atuado em outro filme da Marvel: Capitã Marvel (2019) no papel de Minn-Erva.


Eternos (Eternals)

Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao, Patrick Burleigh,Ryan Firpo e Kaz Firpo. Baseado na obra de Jack Kirby
Elenco: Gemma Chan, Richard Madden, Angelina Jolie, Salma Hayek, Kumail Nanjiani, Brian Tyree Henry, Lauren Ridloff, Barry Keoghan, Ma Dong-seok, Lia McHugh e Kit Harington
Gênero: Ação, Aventura, Drama
Ano: 2021
Duração: 157 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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