Review HQ | Isolamento

Review HQ | Isolamento

A pandemia de covid-19 afetou o mundo inteiro e o isolamento mudou totalmente a vida das pessoas ao redor do planeta. É interessante ver como artistas lidaram com a situação e a hq “Isolamento” de Helô D’Angelo é um ótimo exemplo. A autora se inspirou livremente nas histórias que ouvia de seus vizinhos durante a época do distanciamento social. O resultado é uma bela história em quadrinho que mistura 12 histórias independentes de 12 apartamentos diferentes de um mesmo prédio, mas que estão interligadas.

Helô captou muito bem em “Isolamento” como a pandemia afetou a vida das pessoas. A hq faz um recorte histórico muito bom desse período em que vivemos, algo que poderá ser relembrado no futuro com um mix de emoções. O formato de cada página mostra a frente de um prédio, onde vemos a varanda de cada um dos 12 apartamentos e uma fala de cada morador (ou moradores) de cada imóvel, sendo que em alguns momentos eles estão interagindo entre si.

Em cada página acompanhamos uma pequena evolução na vida dos moradores e como, com o avançar da pandemia, ela vai se transformando. Esse recorte de Helô apresenta muito bem a realidade da classe média brasileira, assim fica mais fácil o leitor se identificar de alguma maneira com o que é visto nos desenhos.

Temos casais, tanto heterossexuais quanto gays, uma avó que mora com neto, pai e filha, um velho bolsominion, ou seja, o recorte de tipos diferentes de pessoas é bastante amplo. Acompanhamos um pouco do dia-a-dia deles, como uma jovem que reporta tudo nas redes sociais através do celular, indicando que ela é algum tipo de influencer, mas sem dúvidas um dos mais curiosos é a uma mulher que conversa com o cachorro, que responde claramente em português. Isso mostra a genialidade de Helô em adaptar a realidade de maneira criativa e divertida para “Isolamento”, trazendo um pouco do elemento “fantástico” para uma história tão cotidiana.

Em algumas páginas a autora também contextualiza explicando a situação, como ao sinalizar a marca dos 100 mil mortos, que na época foi um marco muito impactante, mas que infelizmente foi superado por números piores. Esse contexto ajuda o leitor a entender melhor as páginas seguintes e observa o impacto deste fato na vida dos moradores. Além disso, mostra como a artista se posiciona politicamente ao criticar o presidente Bolsonaro por achar que é “apenas uma gripezinha”.

Outro recurso encantador que Helô D’Angelo utiliza é inserir algumas letras de música em algumas páginas, para em seguida mostrar cada um dos moradores cantando um trecho dessa canção, simbolizando assim que nesse momento, de alguma forma, eles estão todos conectados através do sentimento da música.

Os traços de Helô são simples, mas muito bonitos e a autora faz um ótimo uso das cores para passar o sentimento dos personagens. É encantador ver tons mais coloridos para mostrar alegria, enquanto em outros momentos vemos tons azuis mais escuros simbolizando a tristeza. Ela também usa a cor das páginas para retratar, por exemplo, uma situação ocorrida durante a noite, assim o preto retrata a escuridão.

Durante a leitura a imersão é completa, pois a autora constrói muito bem a narrativa, desenvolvendo personagens cativantes e situações onde o leitor consegue facilmente se conectar. Temos um pouco de drama, comédia, romance e obviamente muitas brigas, tudo retratado de maneira muito emotiva e divertida.

Helô D’Angelo publicou durante 1 ano em seu perfil no Instagram as tirinhas, como uma webcomic, e depois viabilizou através de um financiamento coletivo no Catarse a publicação da hq. Esse recurso tem se mostrado fundamental para apoiar os artistas independentes a publicar seus trabalhos. Quem não participou da campanha de apoio, pode adquirir “Isolamento” no próprio site da artista.


Classificação:


Isolamento

Autora: Helô D’Angelo
Editora: Independente
Número de páginas: 208

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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