Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker

Star Wars: A Ascensão Skywalker é um filme cheio de problemas e alguns deles serão discutidos aqui nesse texto. Mas o principal defeito da obra cinematográfica de J. J. Abrams é a falta de emoção. E olha que estamos diante de uma franquia com mais de 40 anos de história, então criar um elo emocional com o espectador deveria ser algo fácil. Contudo, não é isso que é visto na tela durante os 142 minutos.

Star Wars virou um “filme da Marvel” (no sentido “industrial”), só que isso não é um elogio, já que o principal trunfo dos filmes da outra franquia famosa da Disney é justamente manter uma coesão e a conexão emocional com o público. Além disso, o último capítulo da saga (criada por George Lucas e vendida para o estúdio do Mickey) é covarde. Após a recepção controversa por parte dos fãs em Os últimos Jedi, a Disney chamou J. J. Abrams “operário padrão” de volta para “consertar” os erros cometidos por Rian Johnson. A Ascensão Skywalker é a prova de que o estúdio está mais preocupada com Star Wars como produto do que como obra de arte. Preferiu voltar ao “terreno seguro” e apostar em um filme que teoricamente agradaria mais os fãs em geral. O resultado é um filme irregular, sem imaginação, mas que funciona em alguns momentos graças à capacidade técnica do diretor.

O primeiro ato de A Ascensão Skywalker é uma grande confusão, onde J. J. Abrams parece perdido sem saber para onde ir, apresentando sua marca registrada: correria. Os personagens só reagem ao que está acontecendo, sem refletir sobre suas ações, e a montagem deixa o filme ainda mais confuso. Um bom exemplo é a cena do deserto de Passanna, onde Poe, Finn e Rey fogem após um conflito entre Rey e Kylo Ren, enquanto Kylo fica apenas observando a situação como se nada estivesse acontecendo diante dos seus olhos. Corte para cena seguinte e não importa como o grupo de heróis conseguiu sair daquela situação.

O episódio 9 parece estar disposto a resolver as questões deixadas no anterior da maneira mais fácil possível, além de deixar muitos elementos desenvolvidos de lado, quase como se não tivessem existido. O principal exemplo é a personagem de Rose, que vira uma figurante de luxo e sua relação com Finn é ignorada. Outro que tem um desfecho triste é o General Hux, especialmente ao mostrar suas reais intenções que são tão bestas que beiram o ridículo.

O grande foco da narrativa está na relação entre Rey e Kylo Ren, contudo o filme insiste em estender esse conflito de forma desnecessária. Os 2 se encontram e se enfrentam diversas vezes, sendo que as primeiras têm desfechos esdrúxulos. E a partir dessa “tensão” surge outro problema grave de A Ascensão Skywalker: fazer algo e logo em seguida desfazer, sem ter coragem de assumir riscos dentro da narrativa.

A Ascensão dos problemas (e dos spoilers)

A suposta morte de Chewbacca é um bom exemplo disso, já que o filme mostra que teoricamente o personagem teria morrido diante de Finn, Poe e Rey, sendo que ela com seus poderes de Jedi teria percebido se o wookiee realmente teria morrido, para pouco depois mostrar que magicamente o membro da Millennium Falcon estava em outra nave de transporte da Primeira Ordem. Esse recurso também é usado de maneira ruim entre Kylo e Rey e suas supostas mortes, mostrando que o roteiro de J. J. Abrams e Chris Terrio quer forçar uma emoção com o público, mas sem ter coragem de enfrentar as consequências.

A solução para agradar os fãs é colocar diversas referências e usar algumas participações especiais. O grande destaque é a presença de Lando Calrissian, que apesar de pouco tempo em tela consegue deixar a sua marca. Já Luke e Han Solo ficam como figurantes de luxo, sem conseguir obter o potencial total que suas respectivas presenças trariam a narrativa. Mas sem dúvidas o grande problema é a presença de Leia, já que com a morte da atriz Carrie Fisher diversas mudanças foram necessárias para conseguir manter a personagem na história. O resultado é irregular e a sua despedida também não tem o impacto emocional que deveria.

A Ascensão da parte técnica

A trilha sonora de John Williams, marca registrada da série, é um dos pontos altos do filme. O compositor sabe utilizar muito bem os temas clássicos de Star Wars, principalmente dos personagens, para invocar a emoção necessária, mesmo que o que seja visto em cena não passe o mesmo sentimento.

J. J. Abrams é um bom cineasta, mas em A Ascensão Skywalker ele está no piloto automático, mas interessado em agradar a Disney, que tenta agradar o público, do que em realizar um grande filme. Ele mostra um pouco de suas marcas registradas, como ao filmar algumas cenas usando movimentos em círculos ao redor dos personagens, mas no geral sua direção é pouco criativa, mesmo sendo “competente”. Seu comando é o responsável pelo resultado mediano e irregular de Episódio 9. Faltou o talento e a inventividade de Rian Johnson, que conseguiu incluir um sub-texto fascinante na narrativa de Os Últimos Jedi, sem perder a essência de Star Wars.

A Ascensão da conclusão

C3-PO é um outro bom exemplo de como os personagens não são bem aproveitados pelo roteiro, já que o robô se transforma em uma forma de inserir diversos diálogos expositivos, em boa parte desnecessários. Mas é difícil ficar indiferente diante de um elemento tão clássico da saga Star Wars, e a presença do dróide é fundamental para a narrativa. Diante de tantos problemas temos as ruínas da Estrela da Morte, um Porg ali, um Ewok ali, e outros fan services para agradar os fãs. Até temos um pouco de diversidade, já que é mostrado um beijo gay, mas isso é pouco considerando o tamanho da franquia.

Star Wars: A Ascensão Skywalker é um filme irregular, que erra principalmente nas decisões sobre o que fazer com seus personagens. Prefere caminhar em terreno seguro, tentando agradar os fãs, mas esquece de apresentar a mesma qualidade apresentada nos últimos 2 capítulos. É bom focar as críticas e ressalvas ao filme no que ele representa, mas sem pensar em ser “dono” da franquia, como muitos “fandons” criticaram, principalmente no Episódio VIII.

O filme de J. J. Abrams sofre da “maldição” do capítulo de encerramento das trilogias, onde é muito difícil conseguir agradar aos fãs. Basta lembrar de outro exemplo de 2019: Game of Thrones, apesar de que os problemas da conclusão da série da HBO sejam bem diferentes. O problema é querer focar apenas no público, esquecendo que o cinema é primeiramente uma obra de arte, e essa não tem a obrigação de satisfazer a todos. Mas não existe dúvida de que o desfecho deixou a desejar, ainda que o resultado final não seja tão desastroso assim.


Uma frase: – C3-PO: “Estou dando uma última olhada, senhor… nos meus amigos.”

Uma cena: A primeira aparição de Lando Calrissian.

Uma curiosidade: Anthony Daniels (C-3PO) é o único ator a ter participado de todos os 9 filmes de Star Wars.


Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker)

Direção: J. J. Abrams
Roteiro:
J. J. Abrams e Chris Terrio, história de Derek Connolly, Colin Trevorrow, J. J. Abrams e Chris Terrio
Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid e Billy Dee Williams
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Ano: 2019
Duração: 142 minutos

5 thoughts on “Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker”

  1. Mesmo com opiniões um pouco diferentes (hihihi), a crítica está ótima, bem dinâmica e um pouco persuasiva também. Acho que só faltou ressaltar que é um filme fofo, apesar de tudo kkkkkk Mas tirando isso, tá show!

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