Crítica | Coringa (Joker, 2019)

Aos espectadores do cinema e, principalmente, aos amantes das adaptações do universo dos super heróis nas telinhas, que buscam um filme fora dos padrões atuais, todavia, marcado com características originais e com uma história bem trabalhada e desenvolvida, o novo filme da editora DC Comics é exatamente aquilo que se procura.

Coringa (The Joker) apresenta para os fãs do universo de HQs da editora a história de um dos mais icônicos personagens criados por essa de uma maneira bastante original, realista e entusiasmante, sem perder a chance de apostar na crítica social, como também de trazer mais representatividade para o público. E para que o filme atendesse as altas expectativas criadas, os componentes que o formam – como o trabalho da direção, a trilha sonora, a apresentação do cenário e o trabalho apresentado pelo elenco do filme – foram trabalhados de maneira impecável ao longo do filme.

Sob a direção de Todd Phillips – conhecido por seu trabalho como diretor, roteirista e ator na trilogia Se Beber Não Case -, a nova película do Universo Cinematográfico da DC expõe um roteiro – escrito por Scott Silver juntamente com Todd – bem resolvido, manifestando o cuidado apresentado pela direção em cada tomada. Não há pontas soltas ou informações desnecessárias. Cada elemento enquadrado pela câmera de Phillips atende a um propósito narrativo.

Desde a primeira sequência o filme se ocupa de estabelecer um necessário laço de empatia com aquele difícil personagem que se tornará o desconfortável foco das atenções da audiência ao longo da projeção. O diretor e o roteiro sabem que a audiência ter sua visão deslocada para a perspectiva subjetiva do personagem título é imprescindível para que a jornada proposta seja menos incômoda.

Além da direção, outro componente de destaque do filme é o trabalho impecável do elenco. Merece destaque, sem dúvida, o  trabalho de personagem realizado por Phoenix, dando vida ao personagem que transita do perturbado Arthur Fleck ao maníaco Coringa. É a força de Joaquin Phoenix (Ela; O Meste; Você Nunca Esteve Realmente Aqui; Vício Inerente) o ponto alto do filme.

Desde as risadas icônicas até as caretas e feições, Phoenix entrega uma surpreendente e inédita caracterização jamais vista em qualquer outro meio do palhaço do crime – um dos personagens mais icônicos da cultura pop mundial. Sua versão traz a velha e marcante essência do personagem lhe adicionando camadas de sensações e pensamentos extremos, cruéis e grotescos em um nível muito exagerado. O trabalho corporal, conhecida marca do ator, também impressiona, com uma expressividade que aparenta manifestar fisicamente as profundezas da mente distorcida do Coringa. Essa composição que mistura características clássicas do vilão com elementos trazidos pelo próprio Phoenix garantem uma experiência particularmente assustadora e arrebatadora.

Embora todas as prévias deem conta de que a trama irá se concentrar no personagem interpretado por Phoenix, há bastante espaço para o elenco de apoio brilhar.  Do lado masculino, a presença de Robert de Niro dá o estofo necessário ao apresentador de tv que funciona como importante contraponto do Coringa e instrumental no desenvolvimento do mesmo. Do lado feminino, as atrizes Zazie Beetz (Sophie Dumond) e Frances Conroy (Penny Fleck) emprestam suas habilidades a importantes cenas que servem para ressaltar o lado humano e emotivo do protagonista da fita, definindo um contraste imprescindível para aquilo que o longa se propõe a fazer.

O filme de Todd Phillips ainda acerta na trilha sonora, na fotografia e no cenário que dão vida a um outro importante e icônico personagem da cultura pop e do filme: a cidade de Gotham. Os tons escuros utilizados pela fotografia juntamente aos elementos que compõem o cenário, como sacos de lixo e as pichações nos prédios mais antigos, pintam uma representação bastante fiel da caótica cidade que abriga as aventuras vividas pelo homem morcego e demais personagens de seu universo. Por sua vez, a trilha sonora de Hildur Guõnadóttir (Chernobyl) marca sua presença de maneira intensa em todos os momentos que é utilizada amplificando a tensão de cada cena, e se misturando com a sinistra risada do Coringa.

Ao apresentar uma perturbadora história de origem de um dos mais complexos, fascinantes e perturbadores ícones da cultura pop, diretor e protagonista executam uma ousada manobra. Entretanto a competência e talento de ambos entrega um resultado impressionante capaz de alçar a produção a um status de arte que supera em muito as pretensões comerciais mais corriqueiras das adaptações dos chamados “universos de super-heróis”. O Coringa de Todd Phillips e Joaquin Phoenix se anuncia como o grande filme do ano, digno da hall da fama das grandes obras da sétima arte.


Uma frase: – “Sou só eu ou está ficando mais louco por aí?”

Uma cena: O Coringa anda pelo metrô em direção oposta aos apressados policiais de Gotham;

Uma curiosidade: Antes de decidir encarnar um personagem das histórias em quadrinhos de super seres, Phoenix, conhecido por seus papéis exóticos e profundamente “artísticos”, já havia recusado outros dois heróis: Dr Estranho (que foi encarnado por Benedict Cumberbatch e, antes, Bruce Banner (assumindo o papel deixado por Edward Norton que foi assumido por Mark Ruffalo em Vingadores, de 2012).


Coringa (Joker, 2019)

Direção: Todd Phillips
Roteiro:
Todd PhillipsScott Silver
Elenco:  Joaquin PhoenixRobert De NiroZazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Marc Maron, Douglas Hodge, Carrie Louise Putrello e Dante Pereira-Olson
Gênero: Crime, Drama, Thriller
Ano: 2019
Duração: 121 minutos

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