Crítica | T-34 (Rússia – 2018)

Escrito por Tássya Queiroz: uma porquinha radioativa fazendo mestrado em energia nuclear na Rússia, que adora química, Harry Potter e Minions, além de amar escrever, se arriscando como crítica de cinema após um tempo se dedicando como band aid de um certo porcolunista da POCILGA.

Filme que aborda a Segunda Guerra Mundial é bastante recorrente nas produções cinematográficas. Qual então seria o destaque de T-34 nesse meio? O grande diferencial aqui não é somente o impressionante número de vezes em que se repete a palavra “tovarisch” (companheiro); é a versão da história, contada pela perspectiva dos russos, e sua ênfase no patriotismo e na confiança depositada em sua tecnologia. Aqui o longa se desenvolve de forma bem atrativa, sendo possível entender a trama sem nem mesmo saber falar russo.

Basicamente, o filme se divide em três partes: A batalha inicial, a reconstrução do tanque T-34 em um campo de concentração e a batalha final.

A trama se inicia em 1941, em um campo dizimado pela guerra. O comandante Nikolay Ivushkin (Alexander Petrov) se vê cercado por um tanque de guerra nazista e foge do combate frente a frente, o que o leva de volta a uma base russa, tornando-se assim o novo comandante do único tanque de guerra que sobrou, o T-34. A partir daí, a equipe de operação do tanque é enviada para combate. O destaque aqui fica pela excelente atuação do mecânico-piloto Stepan Vasilyonok (Viktor Dobronravov) que desenvolve um personagem real e carismático, que cria uma verdadeira relação de confiança e amizade com Nikolay.

Somos então apresentados à armada fascista, liderada por Klaus Jäger (Vinzenz Kiefer). Em uma batalha perto de Moscou é possível ver o extremo patriotismo russo. Aqui há uma mistura de 007 com Matrix. As cenas de ação são coerentes, no entanto os efeitos especiais chegam no limite do absurdo, mas ainda assim conseguem prender a atenção do espectador. O tanque T-34 liderado por Nikolay consegue abater dezenas de tanques alemães, no entanto, o combate entre comandantes acaba com a derrota da equipe de resistência russa.

Na segunda parte do filme que se passa em 1944, vemos o campo de concentração. Somos apresentados à Anya Yartseva (Irina Starshenbaum) então tradutora de Russo-Alemão para os recém chegados e, por incrível coincidência, vemos o reencontro de Nikolay e Klaus, que sobreviveram ao combate há 3 anos. O comandante alemão faz a proposta ao prisioneiro que conserte o tanque de guerra T-34, único até então capaz de abater os tanques alemães, para que a tecnologia seja estudada. Após negar veementemente, Nikolay se vê forçado a aceitar a proposta quando Klaus ameaça matar Anya – começo perturbado de uma história de amor forçada e sem propósito (mas o que seria de um filme de guerra sem um par romântico…).

Viktor então tem a oportunidade de selecionar alguns prisioneiros para executar a atividade. Ao se deparar com os possíveis candidatos (para surpresa geral da nação) ele reencontra Stepan, seu antigo piloto, que também milagrosamente sobreviveu ao combate. Mantendo as aparências de desconhecidos, a então nova equipe de russos arma uma possível fuga quando descobrem que dentro do antigo tanque T-34 ainda existe munição.

Aqui começa a parte do filme que lembra Jogos Vorazes. Após os ajustes finais no tanque russo, a equipe é enviada a um campo no qual servirá de alvo para treinar a nova tecnologia alemã de tanques, chamados de “Pantera”. Obviamente, sem saber que a equipe está munida, os fascistas são surpreendidos e o T-34 consegue mais uma vez derrotar o seu inimigo e fugir do campo de concentração rumo a Moscou. Inclusive com um novo passageiro: Anya – que se alia ao grupo por amor a Nikolay.

A batalha final ocorre numa pequena cidade, já fora dos limites da Alemanha. A trama aqui é muito interessante do ponto de vista cultural. Os russos a todo momento mostram sua superioridade moral e tecnológica, uma vez que de fato o tanque T-34 foi considerado um dos melhores do mundo, sendo produzidos mais de 80.000 unidades. Uma afronta à ideia de que os alemães detêm a melhor tecnologia. Aqui os tiros de canhão em câmera lenta e os cálculos de tempo para recuar e atirar são bem planejados, mas também bem caricatas de filmes como Missão Impossível.

De forma geral, a fotografia do filme é excelente. Em algumas cenas é possível ver os feixes de luz invadindo a sala, com poeira em suspensão no ar, dando veracidade à época. Os efeitos visuais são aceitáveis, no entanto em algumas passagens do filme, as cenas vistas de cima lembram muito mais um jogo de videogame.

O elenco é satisfatório, no entanto a química entre o par romântico de Nikolay e Anya é tão forçado e sem propósito que parece mais ser usado como uma desculpa para ter um personagem feminina na trama. Porém não é de se estranhar algo desse tipo, uma vez que na Rússia, na vida real, não é comum ver casais em público demonstrando afeto.

Ao contrário do par romântico, a química entre Stepan e Nikolay é surpreendentemente cativante. Os dois criam uma relação de amizade baseada na confiança e respeito mútuo. Aqui o “bromance” é tão forte que eu já estava torcendo para os dois ficarem juntos no final do filme – imagine o ultraje que isso seria aqui na Rússia.

A trilha sonora é agradável. Com sua maioria composta por músicas nacionais, o patriotismo russo fica ainda mais evidente, ajudando a criar um clima de resistência. Há uma cena em que Stepan canta uma canção típica folclórica russa, sobre saudades de casa, que traz à tona a única parte do filme em que os russos choram, então podemos ver seu lado mais frágil.

O filme T-34 traz mais uma vez a temática da Segunda Guerra Mundial às telas de cinema, no entanto dessa vez através da perspectiva dos russos, numa mistura de Jogos Vorazes com Missão Impossível. Os efeitos especiais são bem trabalhados, mas a computação gráfica deixa um pouco a desejar, assim como a relação apresentada entre o par romântico. O patriotismo fica evidente a cada cena e trilha sonora basicamente composta de canções russas ajuda a enfatizar esse fato. O plano de fundo da trama é o tanque de guerra russo T-34, que apresenta a tecnologia “superior” da época, se tornando assim o símbolo de resistência e confiança russa em sua nação.


Uma frase: – “Мне нужен командир, которому хочет жить” (Eu preciso de um comandante que queira viver).

Uma cena: Primeiro teste do tanque T-34 depois dos ajustes mecânicos, ao som de “Lago dos cisnes”, composição do russo Tchaikovsky.

Uma curiosidade: Vários tanques foram usados nas filmagens, incluindo o verdadeiro T-34, abatido durante a Segunda Guerra Mundial. Para o filme, o tanque foi restaurado: o motor foi separado, trazido para o modo de combate e a camuflagem usada no inverno de 1941, chamada de “floresta de inverno”, foi recriada.


T-34

Direção: Aleksey Sidorov
Roteiro:
Aleksey Sidorov
Elenco: Alexander Petrov, Viktor Dobronravov, Vinzenz Kiefer, Irina Starshenbaum e Semyon Treskunov
Gênero: Ação, Guerra
Ano: 2018
Duração: 139 minutos

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