Review | Black Mirror – 4ª temporada

Isso [não] é muito Black Mirror!

Quarta temporada não empolga como as anteriores, mas investe em narrativas com protagonistas femininas fortes

Um dos mais aguardados lançamentos do catálogo da Netflix para 2017, a quarta temporada de Black Mirror foi disponibilizada para os assinantes no dia 29 de dezembro. Os seis novos episódios, apesar de ainda priorizarem o confronto da relação do ser humano com a tecnologia, não apresentam plot twists tão empolgantes quanto nas três primeiras temporadas. O criador e roteirista da série, Charlie Brooker, parece ter sido mais comedido e até mesmo menos criativo na construção das histórias. Em contrapartida, os principais temas abordados (racismo, bullying, machismo, controle parental, saúde mental, uso de aplicativos de relacionamento e consumismo) aproximam mais a série do cotidiano contemporâneo com narrativas bem executadas e protagonistas femininas fortes. Por isso, vale a pena maratonar mais uma vez as antologias distópicas de Black Mirror.

Os melhores episódios da nova temporada, para quem gosta de enredos de “explodir a cabeça” — os mais surpreendentes ou aqueles que fazem o expectador ficar horas digerindo o que viu —, são, nesta ordem: Black Museum, Hang The DJ, Arkangel e Crocodile. Os mais fracos nesse quesito são o primeiro, U.S.S. Callister, e o quinto, Metalhead. Já com relação ao uso da tecnologia, à exceção de Black Museum, todos os demais episódios podem ser decepcionantes para o público acostumado a ser surpreendido pela série com a apresentação de diferentes tipos de criações e plataformas tecnológicas, fama que, inclusive, foi responsável pela popularização do bordão brasileiro “Isso é muito Black Mirror”.

Do ponto de vista técnico, de direção e fotografia, por exemplo, os que se destacam são, respectivamente: Metalhead, Crocodile, U.S.S. Callister e Arkangel. Em Metalhead, o que mais impressiona é exatamente a estética do episódio, todo em preto e branco, numa referência direta aos clássicos do cinema de terror dos anos 50 e 60. Crocodile trabalha com muitos planos abertos e exibe cenários belíssimos na neve, que remetem metaforicamente à frieza e ao isolamento do estado emocional da protagonista. Já U.S.S. Callister utiliza parte da cenografia para tornar ainda mais óbvia a inspiração nas produções de Star Trek dos anos 70. Arkangel, dirigido por Jodie Foster, utiliza enquadramentos e jogos de câmera para mostrar os pontos de vista das protagonistas, além de explorar com eficiência recursos de passagem temporal.

Protagonismo feminino

Nesta quarta temporada, pela primeira vez, a série aposta no protagonismo feminino em todos os seis episódios. Conforme a produtora executiva Annabel Jones anunciou antes da estreia do novo ano de Black Mirror, não foi uma decisão intencional sob a perspectiva de gênero, porém, segundo ela, a esperança é de que a escolha represente um progresso. Mesmo sem querer, uma das séries mais famosas da Netflix subverte o padrão das produções cinematográficas e de tv, principalmente, as de ficção científica. Tudo isso no final de 2017, ano marcado por inúmeras manifestações de atrizes de Hollywood contra o assédio sexual, a falta de representatividade e a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

E são essas protagonistas femininas fortes e suas boas atuações que compensam a queda na qualidade de roteiros da série. Em U.S.S. Callister, Cristin Milioti (a mãe de How I Met Your Mother) interpreta a estagiária de programação Nanette Cole, que questiona várias situações machistas. As atrizes Rosemarie DeWitt (premiada por O Casamento de Rachel) e Brenna Harding vivem um conturbado relacionamento de mãe e filha. No terceiro episódio, Crocodile, Andrea Riseborough (Birdman) empresta veracidade às expressões faciais da personagem Mia Nolan, cujo drama pessoal se confunde com loucura. Hang the DJ é estrelado pela inglesa Georgina Campbell e Metalhead tem no papel principal a experiente Maxine Peake, conhecida por ser feminista e ativista política britânica. A atuação mais surpreendentemente reveladora é a da atriz Letitia Wright (Pantera Negra e Jogador Nº 1) no último episódio, Black Museum, no qual ela interpreta a curiosa jovem Nish. Qualquer comentário sobre essa personagem já pode ser um spoiler.

Filha dos anos 80, a Não Traumatizada, Mãe de Plantas, Rainha de Memes, Rainha dos Gifs e dos Primeiros Funks Melody, Quebradora de Correntes da Internet, Senhora dos Sete Chopes, Khaleesi das Leituras Incompletas, a Primeira de Seu Nome.

7 thoughts on “Review | Black Mirror – 4ª temporada”

  1. Vou discordar um pouquinho só, eu gostei bastante desta temporada e U.S.S. Calister, apesar de não ser o meu favorito aqui, curti bastante porque ele vai um pouco além da simples homenagem a Star Trek.

    Concordo que em termos de plot twists “geniais”, essa temporada está aquém das demais, mas mesmo assim gostei. O meu episódio favorito foi, de longe, Hang The DJ. Na minha sequência viriam, Arkangel, USS Calister, Crocodile, Black Museum e Metalhead.

    Metalhead é o episódio menos Black Mirror de todos os tempos talvez, mas ainda assim achei muito legal. Perde mesmo por ser muito “direto”, mas tanto a atuação da Maxine quanto a estética e demais aspectos fizeram dele um episódio bem divertido de se acompanhar.

    1. Márcio, acho que não discordamos totalmente. É por aí, mesmo. U.S.S. Calister isoladamente é um episódio muito bom, que suscita um rico debate e vai além, de fato, da homenagem a Star Trek. No entanto, na comparação com os demais, acho que ele só fica na frente de Metalhead, que talvez tenha sido fraco para mim por conta disso que você mesmo comentou: é o episódio menos Black Mirror de todos os tempos, porém, ainda assim, se aproveita. 😉

  2. Tenho a impressão que muita gente está se deixando enganar pelas aparências com USS Callister. Se a pessoa assiste como uma mera “homenagem/crítica” a Star Trek, provavelmente vai achar algo apenas legal.

    Mas o episódio tem muito mais que isso. Na minha humilde opinião é um dos episódios mais “Black Mirror” da temporada (não gosto dessa expressão, mas vá lá). E sem dúvida a melhor crítica social às relações de trabalho que já vi na TV, em muito tempo, recorrendo a alegorias inteligentes que se relacionam muito bem com o problema dessas relações no contexto do século XXI.

    Acho que é um episódio que merece ser revisto, com calma, ponderação, indo além das aparências, refletindo sobre temas como a relação da força de trabalho, capitalismo, trabalhador e capitalista, sob a influência da tecnologia e da era da informação. E como o capitalista do século XXI pode ser muito mais cruel e inclemente do que o do século XIX. Esse apenas explorava a existência física do operário. Aquele, o capitalista do século XXI, explora muito mais. E a mais-valia que ele extrai busca um tipo de lucro que vai além do dinheiro. E a tecnologia (e o controle absoluto da tecnologia por esse capitalista devido a seu acesso exclusivo ao conhecimento) é nesse caso o controle absoluto dos meios de produção que transcendem diversas esferas. Relação homem x tecnologia, com efeitos nefastos, é o mote de Black Mirror, e, nesse caso, ainda mais interessante por escolher a perspectiva das relações de trabalho contemporâneas.

    Creio eu que visto dessa perspectiva (imagino que uma das pretendidas por Charlie Brooker) o episódio fique muito mais interessante.

  3. A sua interpretação sobre U.S.S. Callister é bem interessante, Mário. Eu, no entanto, tive um outro olhar sobre a crítica central desse episódio. Ao assistir, tive a sensação de que a ideia era levantar um debate sobre o comportamento agressivo dos fãs de um determinado produto cultural, que passam a agir como se a sua série ou filme favorito são posses dele, ao mesmo tempo em que não aceitam e criticam todo tipo de tentativa de “atualização” ou releitura de seus clássicos favoritos. A gente vê o tempo todo isso com fãs de Star Trek e de Star Wars, que ficam apegados ao passado dessas franquias. Há ainda uma forte crítica aos gamers que se sentem à vontade para utilizar as plataformas multiplayers, nas quais podem se esconder atrás de um nome de usuário pouco identificável para serem o que realmente são: pessoas violentas. Um comportamento também bastante comum nos dias de hoje. 😉

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