Review | Stranger Things – 2ª Temporada

* Esse texto teve a colaboração de Mário Bastos

A 1ª temporada de Stranger Things conquistou o público aos pouco em uma mistura de nostalgia com a propaganda “boca a boca” através das redes sociais. A série criada pelos Duffer Brothers investiu no clima dos anos 80 junto com o infanto juvenil ao colocar crianças como protagonistas remetendo a produções cinematográficas como “Os Goonies”, “Conta Comigo”, “E.T. – O Extraterrestre”, entre diversas outras. Isso tudo com uma temática de mistério, terror e suspense. O resultado foi um grande sucesso e era claro que a Netflix iria investir em uma nova temporada.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados na segunda temporada de Stranger Things.

Stranger Things 2 é mais ambiciosa e investe muito mais no clima cinematográfico. Fica bastante visível através do avanço da parte técnica, como um design de produção ainda mais caprichado e cuidadoso, principalmente por se tratar de um seriado “televisivo”. Mas se a história também é “maior” ao mostrar uma ameaça de grandes proporções, os Duffer Brothers foram inteligentes em investir agora na parte emocional relacionada aos personagens, já que o público já os conhece e criou uma “conexão” com eles.

Claro que o clima de nostalgia aos anos 80 continua e inclusive chega a atrapalhar bastante no início da temporada com um excesso de referências pop. Isso incomoda um pouco, como se a todo momento a série quisesse “jogar” na cara do espectador algo da época, seja uma música, um cartaz de filme ou um jogo de videogame.

Em compensação a temporada começa “devagar” ao apresentar como está a vida dos personagens 1 ano após os acontecimentos da 1ª temporada. O principal elemento é Will (Noah Schnapp), que foi o mais afetado, e tenta levar uma vida normal apesar de sua conexão com o Mundo Invertido continuar. Na verdade agora está pior já que ele começa a ter visões do lugar. O problema é que o que ele enxerga não é um sonho, mas algo real. Quando o “Mind Flyer” (ou “Devorador de Mentes”, na melhor tradução que a Netflix poderia fazer, retirada diretamente do Manual de Monstros do DnD) – mais uma vez o “monstro” usa uma referência ao jogo Dungeons & Dragons – consegue “possuir” o garoto a conexão dele com a outra dimensão apenas se intensifica. Isso é muito bem explorado pela série, principalmente no episódio “O Espião”. E se antes a forma de comunicação do personagem era através das luzes piscando, agora é através de desenhos. A cena na qual o pessoal se reúne para tentar desvendar o significado deles é bem divertida.

Essa cena também é um bom exemplo para citar a importância dos novos personagens da temporada. Um deles é Bob, interpretado por Sean Astin, que apesar de começar apenas como um novo namorado de Joyce (Winona Ryder), demonstra ser capaz de utilizar sua inteligência e conhecimentos para sua ajudar a solucionar o problema apresentado na cena. E o carisma do ator – o eterno Mikey de “Os Goonies” e também Samwise da trilogia Senhor dos Anéis – também ajuda a reforçar a importância e relevância do personagem.

Entretanto outros personagens não funcionam tão bem. O principal exemplo disso é Billy (Dacre Montgomery), meio-irmão de Max (Sadie Sink) – também novidade no elenco -, inserido como um tipo de “vilão humano” para substituir de alguma forma Steve (Joe Keery), que agora é oficialmente do grupo. A atuação levemente exagerada do ator não ajuda e a subtrama dele com a irmã e sua respectiva família mais atrapalha do que realmente acrescenta algo a narrativa. Já Max é melhor desenvolvida e é utilizada para ser uma nova figura feminina no grupo dos garotos enquanto Eleven (Millie Bobby Brown) – ou Onze se preferir – não aparece, virando alvo da disputa de atenção entre Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin).

O melhor mesmo é a nova dinâmica entre alguns antigos personagens. A melhor é a relação estabelecida entre Eleven e o policial Jim Hopper (David Harbour) que se transforma em algo entre pai e filha. Outra decisão inteligente dessa nova temporada é mostrar aos poucos o que aconteceu com a garota, além de apresentar novos fatos sobre o seu passado. Logo no 1º episódio conhecemos Kali (Linnea Berthelsen), a “irmã perdida” de Eleven, uma jovem que também tem “poderes” e em seu braço tem o número 8 tatuado (assim como Eleven tem o 11). O encontro das duas no episódio 7 serve para expandir um pouco o universo do seriado e nos mostrar novos elementos que devem ser melhor explorados na próxima temporada.

Temos também finalmente o romance entre Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton), em um dos melhores momentos da temporada quando os dois resolvem procurar Murray Bauman (Brett Gelman), um jornalista que virou um tipo de “teólogo da conspiração”, para tentar desmascarar os responsáveis pela morte de Barb. O roteiro consegue dar função para todos os personagens que em nenhum momento pareçam perdidos dentro da narrativa. As crianças, agora adolescentes, continuam fazendo “merda” – como Dustin resolvendo criar, escondido dos amigos, a criatura D’artagnan, numa referência direta a “Gremlins”, clássico de 1984 de Joe Dante -, mas isso reflete bem o comportamento da idade (o que não quer dizer que adultos também não tenham sua cota besteiras reservada).

Mas talvez uma das melhores surpresas de Stranger Things 2 seja mesmo a já tão celebrada improvável parceria entre o pequeno e (já não tão) gorducho Dustin e o antigo bully e antagonista da primeira temporada, Steve Harrington (Joe Keery). Após tomar um fora de Nancy, Steve acaba se aproximando de maneira inusitada de um Dustin que as circunstâncias levaram a se afastar momentaneamente do grupo. Steve e Dustin forjam a partir daí uma das relações mais interessantes de toda a série, na qual o ex-jock da escola assume a função de irmão mais velho, primeiro do pequeno e adorável nerd, e em seguida de todo grupo. Curiosamente a partir dessa dinâmica tanto Dustin quanto Steve crescem muito na série. Cada vez mais fica evidente que Dustin é o cérebro do grupo, assumindo quase que completamente aquele que era o papel de Mike na primeira temporada. E Steve, de forma convincente, se torna um personagem tão heróico, ético e corajoso que quase nos faz lamentar que Nancy tenha trocado ele pelo – agora mais insosso do que nunca – Jonathan.

O momento mais emocionante da temporada é a chegada de Eleven em versão “punk” para salvar o grupo na casa da família Byers. O reencontro dela com Mike (Finn Wolfhard) exemplifica bem como Stranger Things sabe que a relação do público com os personagens já foi estabelecida e de como foi criada a expectativa em torno do momento. Ao longo dos 9 episódios a série não enrola e embora comece mais lentamente, assume uma dinâmica cada vez mais acelerada na resolução dos conflitos encontrando um bom ritmo na narrativa.

É interessante notar que a ameaça dessa vez, embora seja maior, não é simplesmente um monstro maior. Os criadores optam por conduzir a segunda temporada apostando mais no suspense do que no terror em si. A presença do Mind Flyer paira durante toda a temporada e sua presença física se sente apenas através de seus lacaios – os demodogs – da “contaminação” dos subterrâneos de Hawkins pelas vinhas negras ou pela manipulação e o simbolismo da violação da inocência através de uma possessão que ecoa o clássico “O Exorcista” de William Friedkin. Ao não colocarem o monstro ameaçando diretamente os protagonistas, mantendo a criatura agindo a partir do Mundo Invertido, os criadores ampliam a sensação de mistério e horror.

Assim, Stranger Things 2 consegue ser maior, mais sombria e ambiciosa sem deixar de lado o seu elemento principal: os personagens. É bom ver que os Duffer Brothers conseguiram mostrar uma evolução do universo que eles criaram indo mais além sem se sustentar apenas pelo clima de nostalgia. E também é interessante acompanhar o amadurecimento e desenvolvimento dos personagens. Que venham mais temporadas (ou mais sequências)!

Uma questão que fica ao final da temporada é qual a melhor forma de se assistir o seriado: maratonar vários episódios de vez ou assistir aos poucos? Fica claro que a série foi pensada para se assistir “tudo de vez”. Até porque é bem evidente que cada temporada da série é claramente pensada como um filme da década de 80, e essa temporada funciona exatamente como uma sequência de um filme da época. Esse formato de lançamento também afasta qualquer impressão de estar “enrolando” entre os episódios com um gancho para o próximo. Por outro lado, as cerca de nove horas de exibição da série acabam passando muito rápido – e olha que eu ainda demorei ao levar quase 1 semana para assistir! Sem dúvida se a série optasse pelo formato semanal, o hype seria muito maior, e uma das partes mais interessantes da experiência seria ficar comentando com amigos ao longo de dois meses, se deliciando com a expectativa entre cada episódio.O resultado é passar um final de semana no “hype” e depois ficar só na vontade tendo que esperar 1 ano pela próxima temporada.

Obs: Não deixem de assistir “O Universo de Stranger Things”, um programa apresentado por Jim Rash (do seriado Community) que em cada episódio reúne uma parte do elenco e de pessoas envolvidas na realização da série para falar sobre a produção e de como foi a temporada, com direito a algumas cenas de bastidores.



Stranger Things 2

Criado por: The Duffer Brothers
Emissora: Netflix
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Noah Schnapp, Sadie Sink, Joe Keery, Dacre Montgomery, Sean Astin e Paul Reiser
Ano: 2017

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

One thought on “Review | Stranger Things – 2ª Temporada

  1. Concordo muito contigo Ramão, excelente crítica da série. Muitos falaram que as crianças/adolescentes (Dustin mais especificamente) emburreceram, mas acho que nos acostumamos tanto em ver crianças prodígios e imporvavelmente inteligentes que, quando vemos alguém agir da forma como se esperar uma pessoa naquela idade, a gente acha que ela é burra. Não, ela é o que fomos anos (e bote anos lá ele nisso) atrás.

    O lance do episódio 7 que tanto falam eu até que concordo em partes. Entendo que tenha servido a um propósito maior de expansão da história, mas não curti. Também não vibrei tanto com o “retorno” de Eleven.

    Acho que Justin como a melhor babá do ano foi o grande diferencial nos episódios finais. E sim, eu já estou torcendo para ele e não mais para o tal Sonso irmão “não tão protetor” assim.

    Ps: Winona continua foda pra caray

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