Crítica | Paixão Obsessiva (Unforgettable)

Paixão Obsessiva é o trabalho de estreia da diretora Denise Di Novi, que antes trabalhava apenas como produtora e tem no currículo diversos filmes de Tim Burton como Edward Mãos de Tesoura, Batman: O Retorno, entre outros. O longa é estrelado por duas mulheres: Katherine Heigl e Rosario Dawson, e uma das roteiristas também é do sexo feminino: Christina Hodson, que escreveu o roteiro junto com David Leslie Johnson. No entanto, a presença de tantas moças não foi o suficiente para a história fugir da forma clichê com a qual elas costumam ser representadas na tela.

Na história Julia Banks (Rosario Dawson) se muda para uma cidade do interior para morar com seu futuro marido David Connover (Geoff Stults). O homem tem uma filha chamada Lily (Isabella Rice) do seu relacionamento anterior com Tessa (Katherine Heigl). Aparentemente a relação entre o senhor Connover e sua ex é amigável, mas a presença de uma nova mulher na vida dele não é bem visto por ela. Quando Tessa descobre que os dois vão se casar é que ela surta de vez.

O problema já começa com essa forma de mostrar uma mulher que não aceita ver o seu ex ter outra, ainda mais tendo uma filha com ele. É uma relação clichê e o filme não faz nenhuma questão de fugir disso. O mistério criado em torno do passado dos personagens é pouco explorado na tentativa de parecer mais assustador, mas na prática mostra apenas a fragilidade e preguiça do roteiro em não encontrar outras formas de criar um clima de suspense satisfatório. O jeito é tentar apelar para recursos técnicos como a trilha sonora de Toby Chu, que piora a situação tornando o suspense e tensão ainda mais artificiais.

O desenvolvimento dos personagens é ruim, principalmente Tessa. Ela é retratada como uma típica mulher certinha do interior, sempre elegante e bastante rígida em relação ao comportamento e maneira de se vestir. Ou seja, que gosta de manter as aparências. Aos poucos é apresentado o que a moça é capaz de fazer para acabar com o novo relacionamento do seu ex. E a cada novo elemento a coisa vai ficando mais absurda e exagerada, sem falar do falso moralismo. Por exemplo, em uma determinada cena a mulher aparece fazendo sexo casual com um homem qualquer dentro do carro. Depois ela faz um perfil falso em uma rede social de Julia para atrair um ex-amante da moça, e enquanto eles conversam em um chat Tessa se masturba. Em resumo, segundo o filme uma mulher que gosta muito de sexo só pode ser uma psicopata. A atuação de Katherine Heigl também não ajuda. A atriz tem uma performance exagerada abusando de caras e bocas que tornam a personagem ainda mais clichê, principalmente a cada vez que ela ajeita o cabelo.

A trama ainda usa um recurso manjado ao selecionar uma atriz morena para ser a mocinha (Dawson), enquanto a loira (Heigl) é a vilã louca. No entanto Rosario Dawson não demonstra carisma para fazer com que o espectador se importe com ela. Sua atuação também é exagerada, mas um pouco menos que Katherine. A dupla não consegue ir além da disputa de duas mulheres pelo mesmo homem. O passado de Julia também é desperdiçado ao não explorar o relacionamento abusivo que ela teve antes de David. Tudo é mantido em “mistério” apenas como artifício do roteiro em mostrar que a mulher ainda não se recuperou totalmente do que ocorreu e o passado a está “assombrando”, fazendo com que ela enlouqueça. No entanto isso não funciona já que desde o início sabemos que é Tessa que está por trás de tudo.

O pior é que Julia largou tudo para ficar com David, mas ao chegar no interior para morar com seu futuro marido o homem trabalha exaustivamente ficando ausente de sua vida, a ponto de deixar sua filha sozinha para ela cuidar. A pobre Lily é utilizada como muleta da narrativa para explorar a disputa entre mãe e madrasta de forma previsível e frouxa.

Em resumo, Paixão Obsessiva é um suspense que falha em criar um clima mínimo de mistério e tensão. O mais triste é que, em pleno 2017, ainda seja necessário destacar o fato de ter um filme estrelado e dirigido por mulheres que infelizmente, apesar da presença feminina, não parecem ser capazes de se retratar de maneira digna no cinema. Uma pena!


Uma frase: – Tessa: “Não se preocupe. Logo você volta para a mamãe.”

Uma cena: Tessa e Julia tomando uns drinks em um restaurante mexicano.

Uma curiosidade: Amma Asante estava definida inicialmente para dirigir, mas ela deixou o projeto quando Kerry Washington recusou um dos papéis principais. Denise Di Novi assumiu, transformando esse filme na estréia na direção da produtora de longa data.


Paixão Obsessiva (Unforgettable)

Direção: Denise Di Novi
Roteiro: Christina Hodson e David Leslie Johnson

Elenco: Katherine Heigl, Rosario Dawson, Geoff Stults, Isabella Rice, Cheryl Ladd, Simon Kassianides, Whitney Cummings e Robert Wisdom
Gênero: Drama, Thriller
Ano: 2017
Duração: 100 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

One thought on “Crítica | Paixão Obsessiva (Unforgettable)

  1. “Paixão Obsessiva” é uma das estreias da semana aqui na minha cidade, mas, depois de ler sua crítica, difícil querer assisti-lo.

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