Crítica | A Cabana (The Shack)

A Cabana fala sobre questionar a religião em um momento de perda. Mack Phillips (Sam Worthington), o protagonista, perde a sua filha que é assassinada por um serial killer. Inconformado, ele não consegue seguir em frente e culpa Deus pelo seu ódio e sofrimento. Como Ele pode deixar isso acontecer com sua garotinha? A dor e a perda influenciam negativamente toda a família, ele tem mulher e outros dois filhos, mas ele é o que demonstra maior dificuldade em lidar com a situação.

A forma que o personagem encontra para enfrentar a questão é indo para a cabana do título, local onde foi encontrada uma prova de que sua filha estava morta. Mack recebe uma carta o convidando para retornar ao lugar. Inicialmente o homem acha que alguém está querendo pregar uma peça de mau gosto, mas depois ele resolve ir lá em busca de respostas.

O que ele encontra lá é um acesso a uma espécie de “paraíso”. Quem mostra o acesso para ele é ninguém menos que Jesus (Aviv Alush), mas é claro que Mack não sabe quem é essa pessoa. Ao chegar ao lugar ele é recebido por Papa, o nome pelo qual sua família apelidou Deus, representado por uma mulher negra (Octavia Spencer). Essa é a oportunidade que o protagonista vai ter de refletir e questionar sua religião, além de lidar com seu sofrimento.

Como podemos observar o roteiro de John Fusco, adaptando o livro de William P. Young, mostra uma visão um pouco diferente da religião cristã, como por exemplo, ao mostrar uma personagem que representa Deus na forma de uma mulher negra. Essa é a maneira que a divindade encontra para levar Mack a refletir sobre a forma que ele enxerga a sua crença.

A religião é uma forma do homem encontrar refúgio e respostas para sua vida, principalmente em momentos de perda. A história de A Cabana tem como objetivo levar não apenas o seu protagonista, mas também o espectador, a fazer a mesma reflexão. No entanto, a forma como a narrativa é construída não caminha nesse sentido. A “resposta” para os questionamentos de Mack são dadas de forma quase literal, principalmente através de diálogos expositivos. Mesmo utilizando alguns simbolismos e metáforas, a parte visual é retratada de forma óbvia e “mastigada” para quem está assistindo o filme. Assim, não sobra muito espaço para algum tipo de reflexão. Nesse sentido o filme poderia ser mais sutil, mas ele prefere criar personagens concretos para coisas abstratas, como a interpretada por Alice Braga, que se apresenta como Sabedoria.

Os diálogos também deixam a desejar. A maioria das conversas entre Mack e algum personagem parece mais um discurso de autoajuda vindo deste do que uma conversa entre eles. Isso não seria um problema se as palavras tivessem um sentido mais profundo, mas elas ficam na superficialidade.

O elenco tem atuações corretas, mas o texto não deixa muito espaço para que eles possam aprofundar as emoções dos personagens. Worthington é o que mais sofre com isso e durante todo o filme ele não consegue passar toda a dor que Mack está sentindo.

Visualmente o filme tem bons momentos por contar com uma fotografia de qualidade e efeitos visuais convincentes na maior parte do tempo. Só que o simbolismo óbvio não ajuda a passar a emoção necessária e a trilha sonora exagera no sentimento artificial e forçado durante todo o filme.

A melhor maneira de resumir o filme é que trata-se de uma “fábula infantil” feita para adultos. A emoção que ele consegue passar vem muito mais do espectador ao se identificar com o sentimento de perda do personagem, do que pelo o que o filme realmente consegue mostrar na tela. Talvez no livro, apenas com palavras, exista uma reflexão maior sobre o questionamento da religião. Mas, como cinema, A Cabana falha por não conseguir transpor esses sentimentos em forma de imagens.


Uma frase: – Papa: “O amor sempre deixa uma marca.”

Uma cena: A chegada de Mack a cabana.

Uma curiosidade: Forest Whitaker (Rogue One: Uma História Star Wars) iria dirigir o filme originalmente, mas ele desistiu.

 


A Cabana (The Shack)

Direção: Stuart Hazeldine
Roteiro: John Fusco, baseado no livro de William P. Young
Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Aviv Alush, Radha Mitchell, Alice Braga e Tim McGraw
Gênero: Drama, Fantasia
Ano: 2017
Duração: 132 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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