Crítica | Aquarius

Um edifício chamado Aquarius, uma moradora e muitas memórias. Clara (Sônia Braga) leva uma vida modesta, com vista para o mar. Mas a tranquilidade de sua rotina acaba quando uma construtora compra todos os apartamentos do prédio para a construção de um novo empreendimento. Sem disposição alguma para deixar seu lar, Clara enfrenta verdadeira batalha para permanecer no prédio.

Essa é a trama de “Aquarius”, novo trabalho do pernambucano Kleber Mendonça Filho de “O Som ao Redor”, que dirigiu e escreveu ambos os filmes. Um baile, uma conversa na sala de estar, um móvel. No filme de Mendonça Filho, tudo tem uma conotação especial e carinhosa. Tia Lúcia (Thaia Perez) olha para uma cômoda e rememora momentos ternos vividos há anos. A história dá um salto no tempo e lá está a cômoda, fazendo parte do lar de Clara. E é assim que o roteiro mostra ao espectador a importância de objetos em nossa memória afetiva. Para Clara, a música é uma outra forma relembrar a vida. A coleção de vinil da personagem remete a outras histórias e cada disco a uma lembrança diferente.

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Sobrevivente de um câncer de mama, Clara transmite a ideia de valorização da vida, principal metáfora do filme. Afinal, se ela derrotou um câncer, por que desistiria diante de uma construtora, ainda que as situações enfrentadas sejam difíceis? Trata-se de uma guerra psicológica. Outro olhar diante do conflito é a imposição do poder do capitalismo nas vidas das pessoas. A construtora tenta comprar o imóvel de Clara de maneira cordial, no início. Entretanto, quando Clara resiste ao negócio, a empresa mostra sua verdadeira face para persuadir a última moradora do prédio.

A interpretação de Sônia Braga é brilhante. O papel de Clara parece ter sido feito para ela e é até difícil pensar em outra atriz que pudesse dar vida à personagem com tamanha maestria. Talvez seja a sua melhor performance até então. Sônia carrega o filme com seu carisma e excelente atuação e é, sem dúvidas, o destaque do filme. O restante do elenco também é muito bom, porém como ela está presente na maior parte das cenas é difícil para os coadjuvantes se sobressaírem a ela.

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Aquarius é uma obra rica, complexa e que usa simbolismos e metáforas para falar sobre o valor das memórias afetivas. Dentro do contexto social e político brasileiro, o filme mostra que nem sempre as pessoas estão dispostas a abrir mãos de suas vidas, objetos e lares em prol de um capitalismo desenfreado.

* Texto revisado por Elaine Andrade


Uma frase: – Clara: “Quando você gosta é vintage, quando você não gosta é velho.”

Uma cena: A cena final do filme.

Uma curiosidade: O filme foi selecionado para a Mostra Competitiva do Festival de Cannes em 2016.

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Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sônia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Julia Bernat, Humberto Carrão, Carla Ribas, Paula De Renor e Thaia Perez
Gênero: Drama
Ano: 2016
Duração: 142 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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