Crítica | Piedade (2019)

O diretor Cláudio Assis tem um estilo próprio e em sua filmografia costuma explorar o “pior” da humanidade em filmes como Amarelo Manga e Baixio das Bestas. Em “Piedade” ele segue na mesma linha, mas com um tom um pouco mais ameno. A história gira em torno da especulação imobiliária, algo similar a Aquarius – obra do também pernambucano Kleber Mendonça Filho.

A empresa Petrogreen está interessada em comprar o terreno de famílias da Praia da Saudade, Piedade. Ela envia o executivo Aurélio (Matheus Nachtergaele) para negociar com os donos do bar Paraíso do Mar, que é gerido por Dona Carminha (Fernanda Montenegro) e seu filho mais velho, Omar (Irandhir Santos). E o homem vai usar de diversos artifícios, entre eles explorar um segredo de família que envolve Sandro (Cauã Reymond), o dono de um cinema pornô na cidade.

A sexualidade é um tema também explorado pela filmografia de Cláudio Assis e não é por acaso que o personagem Sandro é dono de um cinema pornô. Sexo é uma das “táticas” que Aurélio encontra para concluir seu plano. O paralelo entre pornografia e as ações do executivo é interessante, mostrando mais uma vez o “pior” do ser humano, isto é, que está disposto a fazer qualquer coisa em nome da corporação.

A crítica ao capitalismo, mais especificamente na especulação imobiliária é clara, mas não é retratada de maneira tão brilhante por Cláudio Assis quanto Mendonça. Contudo, Assis tem nas mãos um elenco brilhante e tira o melhor deles, entregando atuações excelentes. Como sempre o principal destaque é Fernanda Montenegro que mesmo com pouco tempo na tela sempre rouba a cena.

No entanto, o filme pertence a Matheus Nachtergaele. O ator é a representação do “pior” do ser humano de Piedade e ele constrói Aurélio de maneira excelente, mostrando todas as nuances e multidimensionalidade do personagem. A química dele com o restante do elenco também é muito boa, especialmente nas cenas com Irandhir Santos. A conversa deles sobre a venda do terreno do bar é ótima e também mostra a boa fotografia do filme, que apresenta movimentos de câmera interessantes ao seguir os atores enquanto falam e dão um ritmo agradável ao momento, ditando o sentimento de cada um.

O problema de Piedade é que ele apresenta diversos elementos interessantes na narrativa, mas não tem tempo de lidar com todos eles de maneira eficaz. Com apenas 85 minutos de duração o diretor Cláudio Assis não consegue dar conta de tudo que ele quer dizer com sua história. Apesar desse problema, o resultado é positivo principalmente graças ao incrível elenco que transformam o filme em algo a mais.


Uma frase: – Sandro: “Sexo é cheiroso.”

Uma cena: A conversa entre Aurélio e Omar sobre a venda do terreno.

Uma curiosidade: O filme foi exibido no 52º Festival de Brasília, em novembro de 2019.


Piedade

Direção: Cláudio Assis
Roteiro:
Cláudio Assis (argumento); Hilton Lacerda, Anna Carolina Francisco e Dillner Gomes (roteiro)
Elenco: Fernanda Montenegro, Irandhir Santos, Matheus Nachtergaele, Cauã Reymond, Mariana Ruggiero, Gabriel Leone e Francisco de Assis Moraes
Gênero: Drama
Ano: 2019
Duração: 85 minutos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *