Crítica | Natal Amargo

Crítica | Natal Amargo

O quanto a vida pessoal de um artista e das pessoas ao seu redor influencia sua obra? O diretor espanhol Pedro Almodóvar propõe um pouco de reflexão sobre esse tema em seu novo filme “Natal Amargo”. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, usa metalinguagem em uma história que começa truncada, mas que na sua conclusão deixa bem clara a sua intenção.

A história gira inicialmente em torno de Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora de cinema que trabalha com publicidade por conta do dinheiro. Ela sofre com dores de cabeça e, durante a investigação sobre a origem dessa condição, surge a inspiração para realizar um novo filme. Durante o desenvolvimento da trama, conhecemos também Raúl (Leonardo Sbaraglia), que também é cineasta. Da mesma forma, ele está há um tempo sem filmar e tem uma inspiração com o pedido de demissão da sua amiga e assistente Mónica (Aitana Sánchez-Gijón).

Descobrimos que Elsa é, na verdade, uma personagem do roteiro que Raúl está escrevendo. Então o quanto da vida dele se reflete na história da mulher? Durante a construção da trama descobrimos mais sobre os paralelos entre a vida dos personagens. E claro, pensamos também em quanto toda essa narrativa tem a ver com a própria vida de Almodóvar. Não faltam referências à filmografia dele e elementos que remetem a coisas que aconteceram em sua vida particular.

É claro que a vida de Almodóvar sempre esteve presente em seus filmes e ele inclusive já realizou obras que remetem mais diretamente à sua vida particular, como em “Dor e Glória”. Em “Natal Amargo” ele vai um pouco além, pois além de confundir obra com artista, o cineasta provoca no espectador uma reflexão sobre as motivações em torno da inspiração de um artista ao conceber sua nova arte.

Além disso, Almodóvar explora mais uma vez elementos que tornam suas obras cinematográficas tão marcantes e que refletem o seu estilo de filmar. A que sempre chama mais a atenção é o uso das cores, especialmente a dualidade entre vermelho (que ajuda a definir a protagonista) e azul, com ajuda do verde. Essas cores se refletem especialmente no figurino, que ajuda o espectador a visualizar os sentimentos das personagens, e também na cenografia, que contribui para determinar o tom das cenas e definir melhor as características de cada personagem

Outro elemento fundamental é a trilha sonora de Alberto Iglesias, colaborador de longa data do cineasta. Suas composições contribuem de maneira decisiva para estabelecer o tom da narrativa. É um elemento que define a intensidade do drama, sem nunca passar do limite do melodrama e do caricato. As belas melodias do compositor sempre se destacam e contribuem para a qualidade dos filmes de Almodóvar.

Em síntese, “Natal Amargo” é mais um grande filme de Pedro Almodóvar que mostra o quanto o cineasta é constante em manter um padrão de qualidade em sua filmografia. Além disso, ele sempre prova através do seu estilo que conseguiu criar uma forma marcante e autoral de contar suas histórias.


Uma frase: – Mónica [para Raúl]: “Acha que você é um salvador? A ficção não tem esse poder.”

Uma cena: Quando Elsa conta como conheceu Bonifacio.

Uma curiosidade: O filme que Patricia está assistindo quando Elsa entra é Frida (2002). Nele, Chavela Vargas interpreta um fantasma cantando “La Llorona” (a música sobre a qual elas falam mais tarde).


Natal Amargo (Amarga Navidad)

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit e Quim Gutiérrez
Gênero: Comédia, Drama
Ano: 2026
Duração: 111 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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