Crítica | Sonhos de Trem

Crítica | Sonhos de Trem

A figura de um lenhador normalmente é associada à um homem viril, que tem força suficiente para executar tarefas manuais. Contudo, o protagonista de “Sonhos de Trem” é uma pessoa tímida e sensível. A partir do seu ponto de vista, a obra de Clint Bentley narra uma história com uma reflexão sobre a beleza da vida, mas nem sempre consegue traduzir a força estética de suas imagens em igual profundidade narrativa.

O protagonista interpretado por Joel Edgerton se chama Robert, ele é um homem comum que durante o início do século XX passa por situações extraordinárias graças à sua profissão. Por ser um lenhador é necessário que ele esteja sempre viajando para lugares diferentes. E em cada novo trabalho tem contato com pessoas diferentes que trocam experiências de vida interessantes. Estamos em um mundo onde esse tipo de interação é fundamental para ter um pouco de alívio após um dia extremamente cansativo de trabalho braçal.

A maioria dos trabalhos envolve construção de ferrovias, um símbolo do progresso humano do início do século XX antes da chegada dos automóveis. Através da simbologia dos trens e as inspirações de vida do protagonista, temos o título do longa-metragem “Sonhos de Trem”. É um simbolismo inicialmente interessante, mas que não se sustenta de maneira satisfatória durante a construção da história, pois a narrativa se desvia ou não explora plenamente a relação entre o progresso representado pelos trens e a jornada interior de Robert.

Vemos a evolução da vida de Robert onde ele segue o padrão da vida: encontra um grande amor, se casa e juntos tem uma criança. Nada disso foge do lugar comum. No entanto, a forma como a história é captada pela fotografia é o que mais chama a atenção no filme de Clint Bentley.

O diretor de fotografia é o brasileiro Adolpho Veloso, indicado ao Oscar por esse filme, e que já tinha chamado a atenção em obras como “Tungstênio”. A maneira como ele capta as imagens é fascinante com enquadramentos que fogem do óbvio. Um bom exemplo é um plano no qual vemos o protagonista um pouco de longe no canto esquerdo do quadro apenas da cintura para cima. Dessa forma, o mais importante no momento é apreciar a vista. Afinal de contas, a natureza é um elemento fundamental na história de “Sonho de Trem” graças à profissão do protagonista.

Os movimentos de câmera também são fluídos, seja na hora de mostrar Robert levando da sua cama pela manhã, onde o acompanhamos até o lado de fora da casa, ou ao mostrar as árvores sendo derrubadas, um momento ao mesmo tempo bonito pela forma como é apresentado, mas triste em relação à devastação da natureza. É importante destacar também o uso da luz natural, tanto em ambientes externos com a luz do sol, ou em locais fechados com luz de velas ou lampiões. É como se cada frame do filme de Clint Bentley exaltasse uma grande beleza.

Apesar da excelência técnica, infelizmente, essa beleza das imagens não é representada com a mesma qualidade pelo conteúdo do roteiro do próprio Bentley junto com Greg Kwedar. É como se a qualidade estética da fotografia ao invés de deixar a história mais naturalista, a deixasse mais artificial. Entretanto, isso não é culpa do elemento técnico, mas sim do argumento que aprofunda a narrativa com a mesma competência.

É como se os sonhos de trem do protagonista ganhassem forma em imagens, mas não em palavras e na construção dos personagens. A atuação de Joel Edgerton é boa, mas as situações nas quais o protagonista se envolve tem um ar reflexivo sobre a vida, mas o espectador só consegue sentir um vazio na maior parte do tempo, possivelmente devido ao foco excessivo na contemplação e à falta de conflitos dramáticos que justifiquem a jornada emocional de Robert.

Ele é um homem de poucas palavras, então suas expressões corporais são a forma de transmitir os sentimentos. Mas somente quando ele encontra com Arn Peeples, interpretado de maneira brilhante por William H. Macy, que sentimos um pouco de contemplação sobre o sentido da vida. Infelizmente essas interações têm pouco tempo em tela, mas sem dúvidas são os melhores momentos de “Sonhos de Trem”. Ou seja, o longa-metragem de Clint Bentley tem belas imagens, mas é uma obra que tem mais estética do que conteúdo. Permanece a sensação de que o filme entrega um belo cenário, mas hesita em explorar os trilhos mais profundos de sua própria narrativa.


Uma frase: – Robert: “Será que as coisas ruins que fazemos nos acompanham pela vida?”

Uma cena: Quando Robert se depara com um incêndio ao voltar para casa.

Uma curiosidade: A Bentley afirmou que apenas um número limitado de árvores reais foram derrubadas durante a produção; as cenas que mostram os personagens cortando uma árvore foram realizadas usando um adereço artificial construído com madeira e fibra de vidro, com efeitos visuais aplicados para estender o tronco e a copa, de modo a se assemelharem a uma árvore em tamanho real.


Sonhos de Trem (Train Dreams)

Direção: Clint Bentley
Roteiro: Clint Bentley e Greg Kwedar
Elenco: Joel Edgerton, Felicity Jones, Nathaniel Arcand, Clifton Collins Jr., John Diehl, Paul Schneider, Kerry Condon, William H. Macy e Will Patton
Gênero: Drama
Ano: 2025
Duração: 102 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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