Review | Pluribus – 1ª Temporada

Review | Pluribus – 1ª Temporada

A premissa de Pluribus é a história de uma mulher triste em um mundo feliz, mas o seriado é muito mais. Criada por Vince Gilligan, conhecido por ter criado as séries Breaking Bad e Better Call Saul, estamos diante de uma série com um padrão de qualidade incontestável e um ritmo de narrativa propositalmente lento, marca registrada do autor.

É importante lembrar também do trabalho dele como roteirista em séries de ficção científica, mais especificamente Arquivo X, que era um seriado que envolvia muitos mistérios em torno das tramas. Porém, em Pluribus logo no primeiro episódio Gilligan faz questão de deixar bem claro o que está acontecendo.

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos encontrados na 1ª temporada de Pluribus

A protagonista da série se chama Carol Sturka, interpretada de maneira brilhante por Rhea Seehorn após ter se destacado em Better Call Saul. Ela é autora de uma série de livros e não se sente muito confortável com o sucesso deles, por acreditar que eles não têm qualidade. Um dia ela está junto com sua esposa e empresária Helen, quando de repente todas as pessoas ao redor começam a ter uma crise de convulsão, inclusive sua companheira. A escritora enfrenta um caos na cidade para conseguir chegar a um hospital. Ao chegar no local ela é surpreendida pelo fato de todas as pessoas saberem seu nome.

Com a morte de Helen e o caos inicial, a série poderia focar no mistério, no entanto, conforme dito, Gilligan (que escreveu e dirigiu o episódio piloto) não está interessado no enigma, mas sim em fazer um estudo de personagem e uma reflexão em torno da situação enfrentada por Carol. Assim a protagonista retorna para casa e descobre uma transmissão de tv na qual diz para ligar para um número de telefone. Ao ligar, ela conversa diretamente com o presidente dos EUA, que a explica a situação.

Conforme vemos no mesmo episódio, astrônomos detectaram uma transmissão vinda de outro planeta e, após algumas pesquisas, descobrem se tratar de uma sequência viral de RNA. Acontece um acidente e o vírus se espalha, fazendo com que os infectados se tornem uma mente só. É uma mistura de distopia, principalmente do ponto de vista de Carol, que enxerga aquilo como o fim da humanidade, com uma utopia, no qual de uma hora para outra todos os problemas do mundo são resolvidos de maneira imediata, como fome e violência.

A partir desse ponto e ao longo de 9 episódios, acompanhamos a jornada de Carol enquanto enfrenta essa situação no mínimo curiosa. Encontramos diversas reflexões sobre o tema, seja da solidão da protagonista a fim do individualismo. É interessante ter o ponto de vista de uma mulher americana contrastando com o de algumas outras pessoas que, assim como ela, não foram infectadas e com isso não se conectaram à grande rede mental de humanos.

Esse é um dos pontos altos da série que é mostrar esses outros pontos de vista. Temos personagens muito peculiares, como Manousos, um colombiano que tem uma postura ainda mais resistente do que a de Carol em relação ao contato com a rede de humanos. Ele tenta da maneira dele encontrar respostas. Por outro, temos Koumba, um mauritano que resolve aproveitar a vida fazendo pedidos extravagantes, como estar cercado de belas mulheres e ter muito luxo.

Uma leitura interessante da situação diz respeito justamente a essa individualidade norte americana onde o capitalismo dentro da sociedade de consumo diz que sua personalidade e sucesso é baseado no que você compra. Então quando a protagonista perde isso, por mais que tenha muitos outros benefícios para a sociedade (como as já citadas: fim da violência e fome), não valeria a pena, pois o que importa é o individual. Poderia ser também uma crítica a um tipo de socialismo, ou o fantasma do comunismo, ainda mais vindo dos EUA. Tudo isso é apresentado sem julgamento de valor em formato de sátira do ponto de vista de Carol.

Outro elemento de destaque é a parte técnica, algo marcante nas produções de Vince Gilligan, que em Pluribus se manifesta novamente com um primor técnico que se destaca em todos os elementos cinematográficos.

A fotografia é fantástica, com movimentos de câmera que alteram a simplicidade e complexidade a depender do que a cena peça. A montagem de cada episódio dita um ritmo que apesar de lento, nunca é enfadonho, sempre criando um clima de curiosidade do espectador sobre o que vai acontecer. O uso das cores também é fascinante, onde a paleta sempre usa pouca coloração da mesma tonalidade para enfatizar a tom do momento, fazendo com o que quem esteja assistindo preste mais atenção à narrativa.

É importante ressaltar também a trilha sonora, que define bem o tom da cena, seja ele de suspense e mistério ou de melancolia, por exemplo. O compositor Dave Porter, frequente colaborador de Gilligan, apresenta temas que apoiam a cena sem competir com a narrativa visual.

Por último, é preciso falar sobre o trabalho de atuação de Rhea Seehorn. Pluribus foi um grande presente que Gilligan deu à atriz após sua performance em Better Call Saul. Facilmente Carol poderia se tornar uma personagem chata e insuportável, mas Rhea constrói a protagonista de maneira humana e multidimensional. Mesmo que não concordemos com algumas de suas atitudes, entendemos sua motivação. Ela demonstra um carisma incrível, sendo difícil não criar empatia. Em cada episódio vemos uma evolução da personagem, seja em negação ou em aceitação da situação. Isso só tem efeito positivo sem se tornar entediante graças ao talento da atriz.

No final das contas temos muitas reflexões e descobertas durante a primeira temporada. É intrigante ver como Carol quase cede à mente coletiva por causa da conexão amorosa com Zosia, principalmente depois do encontro não bem-sucedido com Manousos. Contudo ela decide se juntar novamente ao colombiano em busca da “salvação” da humanidade. Quando vemos que ela pediu uma bomba nuclear e o artefato é entregue em sua residência, percebemos que a protagonista não está de brincadeira. Mas agora o jeito é aguardar ansiosamente pela próxima, ou quem sabe próximas temporadas de Pluribus.



Pluribus

Criado por: Vince Gilligan
Emissora: Apple TV
Elenco: Rhea Seehorn, Karolina Wydra, Carlos-Manuel Vesga, Miriam Shor, Samba Schutte, Menik Gooneratne e Darinka Arones
Ano: 2025

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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