Crítica | Enterre Seus Mortos
“Enterre Seus Mortos” é o primeiro filme do diretor Marco Dutra sem sua tradicional parceira Juliana Rojas. O longa-metragem adapta para o cinema o livro de mesmo nome de Ana Paula Maia e tem Selton Mello como protagonista. Ele interpreta Edgar Wilson, um homem que trabalha como removedor de corpos de animais atropelados na estrada. Uma profissão peculiar e que por si só já carrega um peso emocional, devido a isso ele assume a postura de uma pessoa introspectiva, aparentemente sem sentimentos e com poucas palavras.
O roteiro do próprio Marco Dutra junto com Caetano Gotardo é muito ambicioso e abraça diversos temas dentro da narrativa. Estamos em um mundo pré-apocalíptico, onde o fim está próximo, mas ninguém sabe ao certo quando ele vai chegar. O parceiro de trabalho de Edgar é Tomás (Danilo Grangheia), um padre excomungado. Dessa forma, “Enterre Seus Mortos” explora também o lado religioso dos personagens.
Outro personagem importante é Nete (Marjorie Estiano), que é chefe de Edgar e também sua namorada. A relação deles tem o lado passional dela e o mais calado com poucas emoções dele. Ela vive com a tia Helena (Betty Faria), que enxerga o rapaz com ressalvas, e vê em uma nova religião uma maneira de encontrar alguma paz diante do fim do mundo.
Assim, “Enterre Seus Mortos” explora o cotidiano de Edgar, apresentando um pouco do seu trabalho e da sua vida pessoal. O mais fácil seria desenvolver um estudo de personagem em torno do protagonista, mas Dutra foca no mistério em torno desse dia-a-dia. Dessa forma, somos apresentados ao universo da história sem muitos diálogos expositivos.

Nesse sentido, a parte técnica ganha destaque ao apresentar ambientes de atmosfera pesada, como um bar de estrada frequentado por Edgar e Tomás, onde a fotografia destaca a fumaça e a luz vermelha. A residência que eles dividem mostra um pouco da solidão de cada um e em como eles lidam de maneiras diferentes com seus próprios sentimentos, seja em relação ao trabalho quanto a suas vidas, isso tudo apenas através da cenografia.
O filme explora muito estímulos visuais e metáforas, sem nunca entregar para o espectador de forma mastigada a trama. Isso é interessante ao mostrar a importância da arte em provocar reações e sentimentos da platéia diante do que é apresentado na tela. Por outro lado, Marco Dutra se perde um pouco em suas ambições e muitos temas são apresentados na narrativa, sendo que nem todos são explorados de maneira eficaz.
É como se “Enterre Seus Mortos” tentasse ser muitas coisas: filme de terror, crítica às religiões, alusão à pandemia, história de amor (com direito até a uma referência peculiar ao filme “Titanic”), entre outros, mas que infelizmente se perde no resultado final por não conseguir contemplar toda a ambição pretendida.
Em síntese, mesmo sem alcançar toda a sua ambição, “Enterre Seus Mortos” ainda é um bom filme onde sem dúvidas o grande destaque é o elenco, principalmente Selton Mello e Marjorie Estiano.

Uma frase: – Tomás: “Enterre seus mortos, Edgar Wilson.”
Uma cena: O sonho de Edgar com uma menina da procissão.
Uma curiosidade: É o segundo filme que recebe o selo de Original Globoplay, o primeiro foi “Ainda Estou Aqui”.

Enterre Seus Mortos
Direção: Marco Dutra
Roteiro: Marco Dutra e Caetano Gotardo
Elenco: Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia e Betty Faria
Gênero: Terror, Drama, Ficção científica
Ano: 2024
Duração: 90 minutos
