Crítica | Casa de Dinamite

Crítica | Casa de Dinamite

O que aconteceria se houvesse um ataque nuclear nos EUA? O filme “Casa de Dinamite”, de Kathryn Bigelow, investiga as nuances dessa premissa. A diretora aprofunda-se na dimensão humana dos personagens ao apresentar os funcionários do alto escalão lidando com um iminente ataque ao país.

Acompanhamos um intervalo de 20 minutos após a descoberta do lançamento de um míssil e como as pessoas lidam com a escalada da tensão, tendo que tomar decisões baseadas em poucas informações ou suposições. Vemos esses mesmos eventos de pontos de vista diferentes, nos quais cada um deles nos mostra um grupo do governo e suas tomadas de decisões.

A diretora adota o estilo documental para filmar “Casa de Dinamite”, empregando câmera na mão, zooms e cortes rápidos para dar uma dinâmica de urgência à narrativa. A montagem é eficiente em manter o ritmo do filme, alternando entre atores e telas de computador, exibindo legendas/descrições para o espectador quando alguém fala alguma sigla ou entramos na sala de algum departamento da administração.

Nesse ponto, a trilha sonora de Volker Bertelmann chama a atenção ao apresentar temas dominados por violoncelos com um estilo bem similar a outro trabalho do compositor: “Conclave”. A música ressalta o clima de urgência e tensão da narrativa com temas pesados que demonstram a pressão da situação em que os personagens se encontram. Em “Casa de Dinamite”, esses temas não funcionam tanto como uma muleta emocional do roteiro, mas sim como uma forma do espectador lembrar que apesar do realismo, está diante de uma obra de ficção.

O roteiro de Noah Oppenheim é inteligente ao manter a verossimilhança da situação ao nos apresentar alguns pequenos detalhes sobre os personagens, para nos lembrar que são apenas humanos. Um bom exemplo é o secretário de defesa, interpretado por Jared Harris, que ao descobrir que o míssil pode atingir uma determinada cidade comenta que sua filha mora no lugar. É interessante notar também a incredulidade no nível de gravidade do que está ocorrendo, como quando uma funcionária comenta com a colega sobre nunca ter visto o DEFCON 1.

Além disso, o filme explora uma questão política importante sobre o uso de armas nucleares. A cultura belicista norte-americana é um tema central, tanto que o filme faz esse paralelo ao mostrar uma tradição do país em encenar a Batalha de Gettysburg. O país costuma intervir na geopolítica global e, frequentemente, realiza incursões militares com a justificativa de combate ao terrorismo. Consequentemente, quando eles são atacados se sentem na obrigação de revidar, para não demonstrar fraqueza. O dilema central reside em como retaliar sem identificar a origem do ataque.

É justamente nesse ponto que “Casa de Dinamite” mostra a loucura da política envolvendo armas nucleares. Os EUA têm artefatos suficientes para acabar com o mundo diversas vezes. Dessa forma, como decidir quando usar? Especialmente sem saber a quem atacar. É uma situação impossível de ser resolvida e que Bigelow desenvolve com maestria ao representar como os humanos tentam encontrar alguma solução “razoável”. Como diz um dos personagens: é escolher entre rendição ou suicídio.

Essa verossimilhança torna o terror da vida real ainda mais palpável. Ao transpor a ficção para a realidade, imaginem que atualmente o país é comandado por uma pessoa como Donald Trump e pensem em como ele lidaria com isso. É ainda mais assustador.

Em síntese, “Casa de Dinamite” é mais um grande trabalho de Kathryn Bigelow. A diretora explora bem a urgência do tema político em torno das armas nucleares em uma obra cinematográfica tão verossímil que parece que estamos diante de um documentário.


Uma frase: – Jake Baerington: “Falamos de acertar uma bala com outra bala.”

Uma cena: Quando ligam para a agente Ana Park.

Uma curiosidade: O sistema de defesa dos EUA contra um míssil balístico intercontinental (ICBM), o Ground-based Missile Defense (Defesa Antimíssil Baseada em Terra), que consiste em uma rede de silos de mísseis no Alasca e na Califórnia, tem na verdade 55% de chance de sucesso, e não 61%, como afirmado no filme, de acordo com um artigo do NYT intitulado “‘Tão realista a ponto de ser aterrorizante’: Como o filme da Netflix sobre guerra nuclear se compara ao mundo real”.


Casa de Dinamite (A House of Dynamite)

Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Noah Oppenheim
Elenco: Idris Elba, Rebecca Ferguson, Gabriel Basso, Jared Harris, Tracy Letts, Anthony Ramos, Moses Ingram, Jonah Hauer-King, Greta Lee e Jason Clarke
Gênero: Drama, Suspense
Ano: 2025
Duração: 112 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *