Crítica | Carro Rei (2021)

Crítica | Carro Rei (2021)

O filme “Carro Rei”, da diretora Renata Pinheiro, é apenas mais uma prova da pluralidade do cinema brasileiro. A obra apresenta uma história de fantasia com influências de ficção-científica que explora temas atuais, especialmente políticos, sobre a realidade brasileira. O tom da narrativa pode causar um estranhamento inicial, mas tem uma pegada pop com influência de comédia apesar da predominância do drama. A crítica social é o principal ponto da história e a cineasta também encontra lugar para incluir muitos outros temas em camadas menores.

O protagonista da história é Uno, um jovem que ganhou esse nome após nascer dentro do carro de mesmo nome. Ele tem o dom de se comunicar com automóveis e por causa de um trauma na infância criou uma aversão aos veículos automotivos, preferindo andar de bicicleta. Após uma lei proibir a circulação de carros com mais de 15 anos de uso colocar em risco a empresa de táxi do pai, o rapaz se junta a um tio mecânico para reformar os veículos antigos deixando-os com aparência de novos e assim conseguir burlar a lei. O primeiro a ser modificado é o automóvel em que o protagonista nasceu e assim surge o Carro Rei.

Na construção da história surgem muitos detalhes e nuances, assim para poder discutir um pouco mais sobre o filme é necessário falar sobre algum deles. Um detalhe importante é que na construção do Carro Rei, o tio Zé Macaco (interpretado por Matheus Nachtergaele) inventa uma forma de dar voz ao veículo e assim qualquer um consegue se comunicar com ele. É a partir desse ponto que a influência do automóvel ganha forças.

Nós vivemos em uma sociedade em que em muitas cidades os automóveis têm mais prioridade do que o transporte público, refletindo um pouco na nossa individualização dentro da comunidade e também como o governo prioriza aqueles que têm mais dinheiro. A inclusão da lei em que os veículos podem ter apenas 15 anos de uso piora ainda mais essa situação, deixando o uso de carros algo ainda mais elitista. Aí entra a questão da luta de classes — talvez o tema principal dentro de “Carro Rei” — onde a reforma dos veículos é apenas um “jeitinho” de burlar a lei.

Além disso, outro tema interessante abordado em “Carro Rei” gira em torno da dependência das máquinas e como nós nos conectamos com a tecnologia. Quando o veículo ganha uma voz e as pessoas podem conversar com eles, o que pode surgir desse tipo de relação?

É isso que o filme de Renata Pinheiro explora também, especialmente na conexão entre uma mulher chamada Mercedes e o Carro Rei, com direito a um dos momentos mais impactantes do longa-metragem, que é a cena de sexo entre eles. É como uma mistura entre as temáticas de “Crash: Estranhos Prazeres” de David Cronenberg, onde os personagens sentem prazer sexual em acidentes de carro, com “Ela” de Spike Jonze, onde um homem cria um relacionamento amoroso com o sistema operacional do seu computador.

O que não faltam são simbolismos ao filme e outro interessante de se citar é o nome dos personagens. Uno é o mais óbvio, mas a já citada Mercedes também é significativo por nomear uma importante empresa automobilística. No entanto, temos outros dois que também são relevantes. O primeiro é Amora, interpretada por Clara Pinheiro. A jovem funciona inicialmente como um interesse romântico do protagonista na faculdade de agronomia, mas depois ela ganha mais valor ao mostrar o dilema de Uno dividido na relação entre carros e a natureza, pois o objetivo deles inicialmente era construir um mundo ecologicamente sustentável. Ou seja, “Carro Rei” inclui mais uma crítica à sua narrativa, talvez a mais direta ao atual “governo” Bolsonaro.

O outro personagem é Zé Macaco, talvez aquele que tenha o melhor arco dramático dentro do filme. A atuação de Matheus Nachtergaele é mais uma vez impressionante e a forma como ele apresenta a jornada de construção do papel é fascinante. O homem tem um jeito peculiar de andar e se comunicar, algo mais primitivo e que lembra justamente um primata. Sua conexão com os carros é muito forte e quando ele consegue se comunicar com eles a transformação em sua vida é total. Ele cria uma devoção absoluta ao Carro Rei, algo que mistura elementos de religião com um “mito”, ou seja, mais uma crítica quase direta a Bolsonaro. A catarse final dele é também um dos pontos altos da obra de Renata Pinheiro.

Isto significa que “Carro Rei” não tem medo de fazer críticas sociais, especialmente ao atual “governo”. Afinal de contas, esse é um dos papéis da arte, nos fazer refletir sobre determinados temas, especialmente os atuais. Dessa forma, o filme de Renata Pinheiro mistura muito bem fábula com comentário político-ambiental.


Uma frase: – Mercedes: “Você sabia que é no sexo que descobrimos melhor quem somos?”

Uma cena: O momento de sexo entre Mercedes e o Carro Rei.

Uma curiosidade: O filme foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2021 dos Kikitos de Melhor Filme, Melhor Direção de Arte, Melhor Som, Melhor Trilha Sonora, e também do Prêmio Especial do Júri para a atuação de Matheus Nachtergaele.


Carro Rei

Direção: Renata Pinheiro
Roteiro: Sergio Oliveira, Leo Pyrata e Renata Pinheiro
Elenco: Matheus Nachtergaele, Luciano Pedro Jr, Jules Elting, Clara Pinheiro, Adélio Lima, Ane Oliva e Tavinho Teixeira
Gênero: Fantasia, Drama
Ano: 2021
Duração: 97 minutos

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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