Crítica | Uncharted – Fora do Mapa

Crítica | Uncharted – Fora do Mapa

Uncharted – Fora do Mapa é um ótimo filme de ação e aventura, mas que talvez não agrade tanto aos fãs da franquia de games.

O crítico de cinema Pablo Villaça costuma dizer, de maneira bastante acertada, que há muita semelhanças entre musicais e filmes de ação. Ambos dependem dos chamados set pieces, muito bem elaborados e conduzidos para funcionarem em seu objetivo final de agradar sua audiência. Enquanto os bons musicais são marcados por belos números de dança e canções, os bons filmes funcionam menos por conta de bons roteiros e atuações do que de boas sequências de ação.

Estas sequências de ação são tão melhores quanto melhores imaginadas de maneira criativa e conduzidas de forma clara e envolvente para a audiência – aquilo que costuma se chamar de mise-en-scène. Trata-se, infelizmente, de uma arte que, em meio ao processo de evolução digital das técnicas de efeitos especiais aparentemente passou a se perder no cinema. Cada vez mais se investe em sequências mais espetaculares, de uma perspectiva de CGI, porém mais confusas ou simplesmente desinteressantes.

Nesse sentido, é uma grata surpresa, sempre, ao nos depararmos com sequências de ação que no mínimo prezem pelo mise-en-scène. Uncharted – Fora do Mapa (Uncharted, 2022), supreende ainda mais por ser um filme que consegue ainda combinar isso a bons efeitos especiais e uma boa dose de imaginação. Nesse sentido, ponto positivo para a equipe técnica do filme, principalmente o diretor de fotografia Chung-hoon Chung, os editores e montadores Chris Lebenzon e Richard Pearson e a imensa equipe de efeitos especiais e visuais; todos, claro, comandados pelo diretor Ruben Fleischer que merece o devido reconhecimento, principalmente depois de ter cometido algo tão grotesco quanto Venom.

Fleischer acerta ainda ao saber o momento certo de fazer o aceno aos fãs no momento certo, contando com a precisa trilha sonora do sempre excelente Ramin Djawadi, que sabe também aproveitar muito bem o tema original da série de games para servir muito bem ao – já, aparentemente indispensável – fanservice, em filmes do tipo. Some-se a isso aos tradicionais efeitos sonoros e mixagem de som de filmes de ação, que aqui encontram também um ponto, se não ótimo, ao menos não desagradável – como infelizmente, a exemplo do CGI em excesso, também costuma vitimar filmes do gênero. É todo esse delicado equilíbrio de composição entre imagens, sons e narrativa que contribui para construir uma boa set piece e também um bom filme de ação, como é o caso que se dá em Uncharted – Fora do Mapa.

A produção embora tenha uma roteiro – como aliás, também não é incomum ao gênero – que padeça lá de seus problemas, trabalha com um enredo divertido e cheia de ideias interessantes que, mais uma vez, ou bebem o mais diretamente possível da franquia de games, ou fazem referência à própria mídia na qual esta se originou, apostando em elementos que, ainda que ingenuamente, lembram puzzles dentro de um game.

Nem mesmo as atuações são assim tão desastrosas, quanto se poderia imaginar. Mark Wahlberg, sendo Mark Wahlberg, não atrapalha e até entrega um Victor “Sully” Sullivan carismático. Quanto a nosso querido Tom “Spider-Man” Holland, embora careça de um certo ar mais maduro e másculo – típico dos heróis pulp em que o personagem original da franquia, Nathan Drake, foi inspirado – e transpire uma quase que incontornável ingenuidade, lá pela metade da película já é possível acreditar que ele não seja apenas Peter Parker e possa vir, um dia, a se tornar um Nathan Drake a altura do que os fãs tanto exigem.

E aqui entro no que me parece ser o grande “ponto negativo” de Uncharted: a base de fãs. Embora seja um bom filme de ação, os fãs não parecem ainda totalmente satisfeitos com o resultado final da adaptação. Alguns criticam – com razão, até certo ponto, como apontado – a escalação do elenco, mas outros tantos mais insistem no equívoco de comparar diretamente a experiência dos games com a do cinema: para estes últimos o problema principal parece ser justamente que, jogar um filme como Uncharted é muito mais emocionante do que assistir ao seu filme. E é bem possível que sim.

O difícil mesmo será, a partir dessa perspectiva, agradar a quaqlquer momento qualquer base de fãs de grandes franquias de games. As mais recentes adaptações menos desastrosas têm compreendido que adaptação é, sobretudo, uma transposição para outra linguagem e que, uma vez em outra linguagem fatalmente se fará necessário adequar conteúdos. Não compreender isso, sempre termina em frustração. E aí, nesse caso mesmo, faz mais sentido ficar restrito à experiência dos games.


Uma frase: “Eu acho que já passei por coisa similar um tempo atrás.”

Uma cena: O filme tem sequências de ação muito boas, a maioria não “estragadas” pelos trailers, mas sem dúvida aquela que irá empolgar mesmo os fãs será a sequência final que faz uma conexão direta com certos aspectos da série de games.

Uma curiosidade: Nolan North, ator que empresta a voz (e também inspira o visual) do personagem nos games da série faz uma pontinha no filme, como um hóspede sentado em uma cadeira de praia em um resort.


Uncharted – Fora do Mapa (Uncharted)

Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Rafe Judkins, Art Marcum e Matt Holloway
Elenco: Tom Holland, Mark Wahlberg, Sophia Ali, Tati Gabrielle e Antonio Banderas
Gênero: Ação, Aventura
Ano: 2022
Duração: 116 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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