Review | Round 6 – 1ª Temporada

Review | Round 6 – 1ª Temporada

Você sabe que um seriado entrou no hype quando até mesmo sites de notícias que não falam sobre cultura pop comentam sobre ele. Esse é o caso da série coreana Round 6, da Netflix, que se tornou o programa mais visto do serviço de streaming. De curiosidades sobre a cultura da Coréia do Sul a explicações sobre o que é visto na trama, pipocam na Internet os mais variados tipos de links para se aproveitar da popularidade da obra criada por Hwang Dong-hyuk.

É difícil explicar os motivos pelos quais Round 6 se tornou uma série tão popular, mas talvez isso não seja necessário para analisar a série. Sem dúvidas, uma das razões é o incentivo dado pelo governo da Coréia do Sul à divulgação da sua cultura no resto do mundo, como acontece com o k-pop. Recomendo assistir o episódio do Greg News sobre o tema para entender bem como funciona o investimento nessa indústria que gera um enorme retorno financeiro para o país.

Não é possível também falar sobre Round 6 sem citar o filme “Parasita”, de Bong Joon-ho, que foi o vencedor do Oscar de melhor filme de 2020. O longa-metragem aborda como a desigualdade social criada pelo capitalismo cria problemas na sociedade sul-coreana e esse assunto também é essencial na série de Hwang Dong-hyuk.

Em Round 6, um grupo de 456 “jogadores” é convocado para o “Jogo da Lula”, onde terão a oportunidade de ganhar uma enorme quantia em dinheiro que resolverá o problema que os fez participar da competição. Todos eles possuem uma enorme dívida financeira e enxergam na jogatina uma forma de solucionar suas vidas. Nesse “torneio”, eles irão jogar jogos infantis, mas o problema é que quem for eliminado é morto. Assim temos um battle royale, onde apenas uma pessoa fica no final e ganha o prêmio.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados na primeira temporada de Round 6.

Ao contrário do que vimos em Game of Thrones, onde volta e meia um dos personagens que julgamos ser o principal morre, em Round 6 logo no 1º episódio já somos apresentados a Seong Gi-hun (Lee Jung-jae) que claramente é o protagonista da história. Junto com ele é definido um grupo principal e a partir deles a trama é desenvolvida.

Seong é um homem desempregado, endividado, pai ausente, mora com a mãe e é viciado em apostas. Um dia ele é abordado no metrô por um homem misterioso que propõe participar de um jogo, que é uma prévia do “Jogo da Lula”. Ele recebe um cartão para entrar em contato e se inscrever para participar da competição. Gi-hun é transportado para uma ilha misteriosa onde o torneio acontece, assim ele conhece os outros competidores e cada um deles recebe um número, sendo que o dele é 456.

A primeira prova se chama “Batatinha frita, 1, 2, 3” (também é o nome do 1º episódio), e os competidores têm que atravessar um campo sem ser notado por uma boneca robô gigante. Quando ela vira a cabeça em direção a eles, ninguém pode se mexer, senão leva um tiro mortal. O caos toma conta dos participantes quando se dão conta que pessoas ao seu redor estão morrendo, então ao final decidem que é melhor encerrar o “Jogo da Lula”, já que uma das regras é que caso a maioria decida finalizar a competição é encerrada.

A partir do 2º episódio é que “Round 6” se torna um estudo interessante sobre a condição humana, já que os personagens sobreviventes se dão conta de que suas vidas no “mundo real”, onde estão endividados, é terrível, então é melhor arriscar no jogo em busca de uma melhora do que seguir assim. Dessa forma, todos resolvem retornar para ilha e prosseguir com a “competição”.

A tensão inicial do 1º episódio é retomada no desenrolar da temporada, quando a quantidade de “competidores” diminui, assim o espectador torce pelos seus favoritos e realmente sente quando algum deles é “eliminado”. Vemos cada vez mais o lado obscuro da humanidade, dispostos a se matar em troca de um grande prêmio em dinheiro.

Tramas secundárias

Enquanto a trama principal gira em torno dos jogos, surgem outras histórias paralelas em “Round 6”. Algumas são bem exploradas, outras nem tanto. Um bom exemplo é a narrativa do policial Hwang Jun-ho (Wi Ha-joon) que entra escondido na ilha do torneio para investigar o sumiço do seu irmão. A visão dele é interessante, já que vemos a trama do ponto de vista dos funcionários do local e entendemos um pouco mais do funcionamento dos bastidores.

Por outro lado, surge também uma trama sobre a venda de órgãos realizada secretamente por um grupo de funcionários do lugar. Esse elemento parecia promissor, mas infelizmente não é tão bem explorado como poderia, assim como alguns personagens secundários, que aparecem rapidamente e têm temas relevantes, tipo o casal que vai para a prova envolvendo bolas de gude, mas que depois de terminado o jogo são esquecidos pelo roteiro.

Visual

Outro destaque de Round 6 é o visual e é interessante notar como a série explora a iconografia, seja através dos símbolos dos funcionários do jogo (triângulo, quadrado e círculo) que simboliza a hierarquia, ou pelo uso das cores dos uniformes: vermelho para os empregados e verde para os competidores.

Os cenários também são fascinantes, a começar pelo local das provas, passando pelas escadas influenciadas pelo artista M. C. Escher, sempre com tons de cores claras, remetendo ao universo infantil.

O local onde os competidores descansam é ótimo, com beliches, mais uma vez simbolizando crianças, mas que ao mesmo tempo lembra dormitórios militares. Pouca gente nota inicialmente que nas paredes é possível ver os desenhos das brincadeiras infantis que viram os jogos a serem realizados, assim esse elemento funciona um pouco como um easter-egg dentro da série. É curioso notar como um local de tranqüilidade se transforma em um palco de guerra bastando trocar a iluminação, assim esse lugar de dormir se transforma também em palco de um “jogo extra”.

Os jogos e as motivações

O grande trunfo de Round 6 são os jogos e o mistério por trás de quem estaria organizando essa competição. Mesmo que o conceito de battle royale não seja algo inovador, a forma como a série de Hwang Dong-hyuk explora as brincadeiras infantis em forma de jogos mortais é criativa, inteligente e interessante.

Battle Royale, o livro, foi escrito pelo autor japonês Koushun Takami e publicado em 1999, e depois foi adaptado para os quadrinhos e também para o cinema. Essa obra influenciou muita coisa da cultura pop, inclusive a recente franquia “Jogos Vorazes”. A obra literária de Takami tem uma pegada de crítica social, ao mostrar o governo obrigando uma turma de colégio a lutar até sobrar apenas um vencedor, como uma forma de dar um “bom exemplo” de como os jovens devem se comportar e respeitar os bons costumes da sociedade.

Além disso, esse conceito de battle royale de lutar até sobrar apenas um virou uma febre e um gênero de jogos eletrônicos. Um bom exemplo é um game que faz enorme sucesso entre os jovens: Fortnite.

Se por um lado a série de Hwang Dong-hyuk explora as motivações financeiras que faz com que os jogadores se disponham a competir, mesmo com o risco de morte, ele deixa para o final a discussão em torno de quem estaria patrocinando os jogos. Nisso Round 6 também não inova, mas ainda assim desenvolve de maneira interessante.

A reviravolta de que o jogador número 1, o simpático velhinho Oh Il-nam (O Yeong-su), é na verdade a pessoa por trás dos jogos é muito boa, já que o espectador ficou com pena dele ter supostamente morrido, quando na verdade ele é a “pior” pessoa da competição.

A cena em que ele e Seong Gi-hun se encontram é um dos pontos altos da série, onde o jogador 456 fica perplexo ao entender as motivações do número 1. Ele explica que tem muito dinheiro e ficou “entediado”, assim juntou um grupo de amigos para criar o “Jogo da Lula”. Sua motivação gira da falsa simetria de que uma pessoa milionária é tão “infeliz” quanto uma sem dinheiro, afinal de contas quem nunca ouviu a frase “dinheiro não trás felicidade”.

Mas na verdade isso apenas serve apenas para tentar amenizar a crueldade do sistema capitalista, onde a desigualdade social faz com que pessoas estejam dispostas a qualquer tipo de sacrifício apenas para sobreviver, aceitando trabalhos que pagam pouco com péssimas condições. Ou até mesmo de maneira “menor”, quando vemos algum quadro na televisão que explora a “miséria” das pessoas e elas precisam de alguma forma se humilhar na frente da tela para ter alguma ajuda (é de você mesmo que estou falando, Luciano Huck).

Outro ponto interessante abordado pela série é o conceito de “meritocracia“, já que segundo o líder da competição a ideia é que os “competidores” disputem em condições iguais o “Jogo da Lula”, dessa forma qualquer um pode vencer, basta apenas se esforçar o suficiente e ser o melhor. Pensar que existe alguma “igualdade” no “torneio” é irônico, afinal de contas, esse conceito é usado no capitalismo para dar a impressão de que qualquer um pode ser bem sucedido na vida, basta querer, ou melhor, merecer. Mas nisso Round 6 é, infelizmente, muito parecido com a vida real, afinal de contas, muitos podem até se esforçar, mas vão continuar na miséria, enquanto isso os vips assistem de camarote essa “competição”.

Triste realidade

É triste notar como a realidade da Coréia do Sul é de alguma forma “menos pior” do que a nossa, e a cobrança em cima das pessoas e sua “honra” seja diferente, já que estar devendo dinheiro é uma grande humilhação, a ponto de arriscar a vida ser uma opção para solucionar a questão.

Se pensarmos na realidade brasileira, onde a desigualdade aumentou e 19 milhões de pessoas passam fome, talvez por aqui a população estivesse disposta a entrar no “Jogo da Lula” não por dinheiro, mas por um simples prato de comida.

Em síntese

Round 6 apresenta mais uma vez o potencial da Coréia do Sul e junto com obras como “Parasita” mostram que é possível criar arte de forma a impactar a cultura pop em grande escala, fugindo do domínio americano, sem deixar de refletir sobre as mazelas da desigualdade social.



Round 6 – 1ª Temporada

Criado por: Hwang Dong-hyuk
Emissora: Netflix
Elenco: Lee Jung-jae, Park Hae-soo, Wi Ha-joon, Jung Ho-yeon, O Yeong-su, Heo Sung-tae, Anupam Tripathi e Kim Joo-ryoung
Ano: 2021

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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