Crítica | Meu Pai (The Father)

Crítica | Meu Pai (The Father)

Anthony Hopkins nos brinda com o poder de um mestre no ápice de sua técnica em Meu Pai.

Certos filmes têm em seu elenco sua principal força. Antes que seja possível nos dar conta do que se deu, nos vemos enredados em uma teia de olhares, gestos e expressões de maneira inescapável. Nesse momento, nos tornamos marionetes que se fascinam e anseiam pelo puxar e cordas do titereiro. Alguns mestres titereiros, porém, destacam-se e todos os outros em sua maestria. E nesse instante, sabemos que estamos diante de uma obra de arte marcante. 

Assim é com Anthony Hopkins em Meu Pai (The Father), adaptação da peça de teatro de mesmo nome do diretor e escritor francês Florian Zeller, que também assume a direção da película.

O trabalho de Zeller no filme, cabe ressaltar, é excepcional. Surpreende sua capacidade em perceber as distinções entre cinema e teatro e apresentar uma nova leitura de sua própria obra, recorrendo a todos os artifícios da sétima arte para imprimir uma força toda característica ao seu texto, já ele próprio, duro, silencioso e intenso.

A utilização da montagem, fotografia, figurino e design de produção formam um conjunto sutil, porém indispensável, para nos inserir, inadvertidamente, em um progressivo e desconcertante mundo de caos silencioso. Cada parte da produção é planejada para nos fazer mais do que sentir, mas vivenciar mesmo, a condição do protagonista vivido por Anthony Hopkins. É como se, ainda que em sentido cinematográfico, Zeller preparasse de forma cuidadosa o palco para deixar sua estrela brilhar. E é exatamente isso que Hopkins faz.

Claro que Hopkins não trabalha sozinho, e não seria justo aqui esquecer os demais atores. Os sempre ótimos Mark Gatiss, Rufus Sewell e Olivia Williams formam um excelente elenco de apoio, ao lado de Olivia Colman que, mais uma vez, merece o destaque no papel da filha Anne que vive na pele a difícil experiência de lidar com um pai em um estado progressivo de demência. Mas todo esse elenco, como não é demérito algum a eles reconhecer – ao contrário – também serve ao propósito de, sobretudo, preparar o espetáculo para sua grande estrela. 

Anthony Hopkins, é sabido, é celebrado como um dos grandes atores de nosso tempo desde sua marcante performance do Dr. Hannibal Lecter, em “O Silêncio dos Inocentes“. Por diversas vezes nos brindou com outras tantas performances bastante inspiradas ou apenas competentes. Nos últimos anos, porém, Hopkins parecia vir atuando em piloto automático. Dada sua idade, e sua contribuição já dada ao cinema, era difícil repreendê-lo por isso. Em certos casos, como o de Transformers: O Último Cavaleiro, embora fosse difícil, dada talvez a má companhia de Michael Bay, nos sentimos inclinados a perdoá-lo pelo crime cometido. 

Porém, mais recentemente, trabalhos como seu Dr. Ford na série Westworld, e seu Papa Bento VI, no ótimo “Dois Papas” de Fernando Meirelles, nos davam sinais de que talvez Hopkins ainda não estivesse tão cansado assim, e nas mãos de um bom diretor, com um bom roteiro, talvez pudesse nos surpreender e definitivamente se redimir de pecados como o mal citado desastre cinematográfico de Michael Bay.

Meu Pai (The Father) é a prova disso. Mais que isso, é a consagração definitiva de um dos maiores artistas que a Sétima Arte conheceu. Cada olhar, gesto, suspiro, choro; cada gaguejar e cada silêncio que Anthony Hopkins imprime a seu personagem enche nossos olhos da mais pura fascinação. Hopkins consegue realizar uma proeza das mais raras: ao tempo que se mistura ao personagem, nos permitindo vivenciar cada instante de seu sofrimento como se fosse o nosso, também não deixamos de perceber e apreciar como o domínio magistral da técnica apresentado por Hopkins é o principal responsável por aquela experiência. Exatamente, como se daria, talvez, com um grande mestre titereiro.


Uma frase: – Anthony: “Está tudo bem, Anne.”

Uma cena: O choro de Anthony.

Uma curiosidade: Florian Zeller queria Anthony Hopkins especificamente para o papel. Ele enviou o roteiro a Hopkins em 2017 e esperou por uma resposta. Nesse ínterim, ele não continuou a produção com nenhum outro ator no papel principal. Ele disse que se Hopkins não tivesse concordado com o filme, então provavelmente teria sido feito em francês.


Meu Pai (The Father)

Direção: Florian Zeller
Roteiro: Florian Zeller e Christopher Hampton
Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell e Olivia Williams
Gênero: Drama
Ano: 2020
Duração: 97 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

2 comentários sobre “Crítica | Meu Pai (The Father)

  1. Excelente filme e excelente crítica também. Eu gostei muito do jogo que o diretor (como vc falou, perfazendo-se de um mestre titeiro) propõe ao espectador. Se encontrar ‘perdido’ como o personagem e entender toda a sua angústia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: