Crítica | Jóias Brutas (Uncut Gems)

O cinema dos irmãos Safdie é bem interessante, já que os cineastas Josh e Benny colocam como protagonista de seus filmes figuras de comportamento amoral, egoísta e imperfeito, construindo dessa forma personagens extremamente humanos. Se foi assim em “Bom Comportamento“, a fórmula se repete em “Jóias Brutas”.

Um dos destaques de “Jóias Brutas” é a presença de Adam Sandler, que sai mais uma vez da sua zona de conforto de comédias e investe em um papel que tira o melhor do seu talento como ator, que é desperdiçado em filmes ruins. Ele interpreta Howard Ratner, um dono de uma joalheria que vive enrolado com empréstimos de dinheiro reinvestido em apostas esportivas. A solução dos seus problemas surge em forma de uma opala negra, comprada da Etiópia após o investimento de tempo de 2 anos. Contudo, a pedra também traz diversos problemas.

O filme é tensão do início ao fim e o simbolismo da jóia bruta do título é explorada na forma de como os personagens enxergam a opala como a solução dos seus problemas. O nervosismo surge logo no começo da narrativa, com os mineiros que encontram a pedra, e continuam até o final da história. Como o próprio Howard diz em um determinado momento do longa em que afirma que nos jogos de basquete da NBA o que realmente importa são os dois últimos minutos. É possível dizer que “Jóias Brutas” leve esse conceito a sério, mas o espectador talvez tenha dificuldade para se acalmar para aguentar até o final.

Os irmãos Safdie filmam com a urgência que a história precisa, mas nem por isso precisam fazer com que a história seja sempre tensa. A narrativa é bem construída com altos e baixos, mas sempre deixando o espectador apreensivo com que irá acontecer. A montagem e a fotografia tem papel fundamental nisso, desenvolvendo a narrativa de maneira fluída, sempre apresentando novos elementos que deixam o protagonista mais angustiado. A trilha sonora com sintetizadores e um clima meio retrô futurista da mesma forma contribui para criar um clima de “estranheza” na história, contribuindo para o tom de inquietude.

É interessante ver como está a vida de Howard, já que seu casamento está com problemas, sendo praticamente de fachada apenas por causa da família e da religião judaica. Sua relação com a esposa e com os filhos já mostra muito da sua imperfeição e egoísmo. Enquanto isso, ele tenta encontrar felicidade com Julia, uma jovem que trabalha em sua joalheria, mas aparentemente também sem sucesso. E o personagem funciona muito bem graças ao talento de Sandler, que mesmo dando vida a uma pessoa também problemática, ele a constrói de maneira humana e carismática, então a todo tempo estamos torcendo para que ele consiga se dar bem no final.

Jóias Brutas” inclui também elementos em torno das apostas esportivas, o grande causador dos principais problemas do protagonista. Aí entra a presença do jogador de basquete Kevin Garnett, que visita a joalheria de Howard e se encanta com a opala, criando uma conexão energética com a pedra, se tornando do mesmo modo a solução para seus problemas.

São as figuras que surgem durante a história que tornam o filme tão interessante. E isso só funciona por causa do ótimo elenco. O já citado Kevin Garnett funciona muito bem por mostrar esse lado esportivo, mas temos também outros destaques. Temos também a participação do músico The Weeknd e como a história se passa em 2012 o vemos como um artista novato que está chamando a atenção. Sua presença pode parecer meio gratuita, mas tanto a apresentação musical quanto algo que ele faz é bem importante no desenrolar da narrativa.

Entre os atores “de verdade”, vale destacar a presença de Julia Fox, a amante do protagonista que lida com o comportamento abusivo de Howard e em troca oferece todo o seu amor. Esse é o 1º trabalho de destaque da atriz e ela rouba a cena quando aparece, seja pela sua beleza, mas principalmente pelo seu talento. Quem também está muito bem é Lakeith Stanfield, que interpreta um homem que leva cliente para comprar na joalheria e ganha uma comissão. Ele desenvolve Demany como um personagem que parece estar o tempo todo escondendo suas reais intenções e mostra o quanto o ator é versátil e qualidade de interpretação, que vem chamando a atenção em outros projetos como a série “Atlanta”.

Jóias Brutas” ainda encontra um pouco de espaço para falar sobre a religião e a relação entre família e dinheiro. Isso é apresentado através do relacionamento entre Howard e seu cunhado Arno (Eric Bogosian), um agiota do qual o protagonista deve dinheiro e o persegue em busca de uma dívida. O que seria mais importante: a família ou o dinheiro? O que percebemos durante a narrativa é que dívida é dívida. Seria isso uma crítica aos judeus? Talvez sim, mas também a própria ganância do ser humano. Vale lembrar que tanto Sandler quanto Idina Menzel, que interpreta a esposa do protagonista, são judeus.

Ou seja, uma simples história sobre um homem que enxerga em uma pedra preciosa a solução de seus problemas apresenta elementos complexos e interessantes, principalmente na relação entre os humanos. É justamente nas nossas imperfeições que nós nos tornamos humanos. Isso faz com que “Jóias Brutas” mostre mais uma vez o talento dos diretores Josh e Benny Safdie. Através da história de um personagem tão problemático quanto Howard Ratner o espectador consegue enxergar um pouco de compaixão e empatia, apesar de todos os defeitos. E isso só funciona graças ao talento e carisma de Adam Sandler.


Uma frase: – Howard Ratner: “NBA é sempre os últimos dois minutos, então vamos nos acalmar.”

Uma cena: A tensão final dentro da joalheria.

Uma curiosidade: Kevin Garnett e The Weeknd estrearam no cinema neste filme interpretando a si mesmos.

 


Jóias Brutas (Uncut Gems)

Direção: Josh Safdie e Benny Safdie
Roteiro:
Ronald Bronstein, Josh Safdie e Benny Safdie
Elenco: Adam Sandler, Lakeith Stanfield, Julia Fox, Kevin Garnett, Idina Menzel, Eric Bogosian, Judd Hirsch e Keith Williams Richards
Gênero: Crime, Drama, Thriller
Ano: 2019
Duração: 135 minutos

One thought on “Crítica | Jóias Brutas (Uncut Gems)”

  1. Eu simplesmente adorei este filme, mesmo não achando que a atuação de Sandler tenha sido injustiçada no Oscar. Ele atua bem, mas nada de extraordinário assim;

    Seu personagem “irritante” e ligado no 220 é fascinante, o ritmo acelarado do filme também me pegou.

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