A Nostalgia Era Melhor Antigamente: Batman – Morto… Até Prova em Contrário

Seja bem vindo à coluna A Nostalgia era Melhor Antigamente, na qual eu covardemente analiso histórias que foram escritas em outro contexto e aponto incongruências inaceitáveis em gibis sobre um homem que se veste de morcego para investigar criminosos e reis do iê iê iê.

No episódio de hoje, acompanharemos a semana de férias coletivas dos criminosos de Gotham City, descobriremos que Batman não sabe como funciona um festa de aniversário e veremos até onde pode ir uma campanha de marketing viral.

Batman e Robin – Morto… Até Prova em Contrário!

História: Frank Robbins
Arte: Irv Novick e D. Giordiano
Publicado no Brasil em Batman em Côres #10, Editora Ebal
(nota: dedico este texto ao meu querido amigo Tango Commando, grande fã do Batman e dos Beatles)

A história de hoje trata dos Britos, uma banda totalmente fictícia da Inglaterra cujos integrantes Saul, Glenon, Bingo e Harris compuseram grandes clássicos como “Submarino Rosa”.

Pois bem, aparentemente há uma lenda urbana sobre essa banda cuja semelhança com eventos reais é pura coincidência: o vocalista Saul Cartwright teria falecido em um acidente automobilístico, mas os demais integrantes encobriram o fato e o substituíram por um sósia.

Assim, nossa história começa no campus da universidade de Hudson, onde estudantes escutam no rádio a mais recente de uma série de pistas que a própria banda deixou sobre o mistério da morte do cantor: quando tocada em certa velocidade, é possível ouvir uma mensagem gravada por Glenon falando “é claro que foi bom, Saul… mas pena que acabou”.

Graças à sua mente prodigiosa e experiência como detetive, nosso herói Robin, em sua identidade secreta de Dick Grayson, logo conclui que “Saul” mencionado pelo integrante dos Britos no disco dos Britos é de fato Saul Cartwright, o vocalista dos Britos.

Só mesmo o pupilo do maior detetive do mundo poderia concluir isso

Em seguida, o locutor informa que a banda que alimenta o boato da morte do próprio vocalista vai sair em turnê especificamente para provar que ele está vivo. Fica evidente, portanto, que se trata apenas de um golpe publicitário, aquele marketing viral feito para sua tia Bernadete compartilhar no Whatsapp e que só convence as mentes mais crédulas.

Mas talvez fosse uma semana mais tranquila em Gotham City, porque os grandes heróis Batman e Robin decidem que esse é um mistério digno de sua atenção, muito embora não exista nenhum indício de crime.

Tão tranquila que a maior autoridade policial da cidade está fazendo bico de segurança de banda

Nossos heróis concluem que a melhor forma de investigar esse mistério é convidar o músicos para se hospedar na Mansão Wayne durante sua estadia na cidade, porque a maior banda do mundo certamente vai preferir dormir com dois completos desconhecidos em uma mansão isolada do que em um hotel cinco estrelas reservado pela produção.

Claro que eles aceitam, porque a coisa tá feia. É crise, Brexit, Liverpool jogando de igual pra igual com o Flamengo, tem mais é que cortar custos mesmo.

Mas talvez Saul tenha sido voto vencido nessa questão da hospedagem, porque ele mal entra na mansão e já compara a casa do seu anfitrião a um túmulo.

A famosa cortesia britânica

Além de ser um hóspede muito mal agradecido, Saul anda sempre com um imenso gravador a tiracolo e logo esclarece que não está morto, caso o fato de andar e falar não tenha sido indicativo suficiente para os dois detetives. Ele explica que estiveram sumidos por um ano apenas porque os demais integrantes estavam em retiro no Himalaia e ele achou que não seria conveniente fazer shows dos Britos sem 3/4 dos Britos.

Aparentemente ninguém avisou isso para os Titãs nem para o Sepultura

O fato de Saul estar sempre com um gravador de uns três quilos a tiracolo dá a Robin uma ideia: ele pode usar o Bat-Computador para comparar as gravações que o cantor faz de si mesmo ao longo do dia com registros antigos da banda e assim descobrir se as duas vozes pertencem à mesma pessoa.

A história não deixa claro, no entanto, por que diabos Saul grava a si mesmo em uma conversa aleatória sobre as instalações da Mansão Wayne, ou por que Robin decide furtar a gravação que o cantor fez em vez de utilizar qualquer uma das centenas de entrevistas que ele concedeu em rádio e TV.

O plano no entanto não dá certo, porque o Bat-Computador não é capaz de fazer a comparação entre uma gravação de Saul falando com um registro antigo dele cantando.

ESSA FITA NÃO PROVA NADA, ROBIN

Infelizmente não ocorre à dupla dinâmica nenhuma forma de gravar o canto de um sujeito que veio a Gotham especificamente para fazer um show, então eles precisam de um novo plano que de preferência envolva cometer crimes e invadir a privacidade alheia.

Durante o jantar, Saul tem momentos de inspiração e canta algumas músicas para os comensais, tudo devidamente registrado em seu gravador. Assim, Dick decide entrar no quarto do artista na calada da noite para furtar-lhe a fita com a gravação da cantoria.

Porque ele decide que precisa vestir a sunga verde para fazer isso dentro da própria casa permanece um mistério

Porém, quando está se esgueirando para fora do quarto — lembrando, após invadir a privacidade alheia e furtar propriedade privada –, nosso herói é atacado por uma misteriosa figura, que lhe derruba escada abaixo e toma o gravador furtado.

Socorrido por Bruce Wayne, Robin relata o ocorrido e ambos concluem que o atacante deve ter sido Saul — e que talvez seja melhor deixar de fora do seu currículo super heroístico o fato de ter sido pego de surpresa e nocauteado com um único golpe por um músico mais velho sem treinamento em artes marciais e que presumivelmente leva uma vida desregrada de drogas e álcool.

Na sequência, Bruce Wayne, o herói das multidões, grande paladino da justiça e defensor da lei simplesmente não consegue compreender qual motivo misterioso levaria Saul a atacar uma figura mascarada que invade seu quarto na calada da noite para furtar seus pertences.

Não me ocorre nenhuma outra explicação

Logo, o maior detetive do mundo conclui que o sujeito que veio a Gotham para fazer shows e dar entrevistas está preocupadíssimo em esconder a própria voz para que ninguém prove que ele é um impostor.

No dia seguinte é servida uma bela torta de climão no jantar, sem que ninguém teça qualquer comentário sobre jovens em roupas mínimas invadindo quartos ou rolando escada abaixo.

Ou sobre Bruce e Dick vestirem paletó e gravata para comer em casa

Bruce tem um plano, que no entanto não envolve apenas esperar que Saul tome a iniciativa de cantar, como fez várias vezes na noite anterior: ele resolve forjar um aniversário para o mordomo Alfred, a fim de gravar Saul cantando Parabéns para Você à capella.

Não ocorreu ao nosso herói, contudo, que não tem solista em “Parabéns para Você”: toda a banda canta junto, assim como o “aniversariante” e o próprio idealizador do plano, tornando impossível isolar a voz de Saul.

Um estrategista brilhante

Nós podemos apenas imaginar quanto museus a Mulher Gato roubou e quantas pessoas o Coringa matou nesse meio tempo, mas Batman não pode se distrair com coisas menores como combate ao crime: a prioridade agora é desmascarar essa possível campanha de marketing viral (e presumivelmente fazer uma thread no Twitter a respeito depois).

Não satisfeito com a invasão aos aposentos e tentativa de furto, nosso herói (tem tanto sarcasmo nesse uso da palavra “herói” que eu estou com receio de cassarem a minha licença poética) decide fechar o bingo da violação à privacidade e escutar a conversa do músico ao telefone, com isso descobrindo que ele fará testes em um estúdio local.

Na edição seguinte eu espero que a história seja sobre Bruce Wayne às voltas com uma reportagem do Intercept revelando seus grampos ilegais

Continuando a ignorar todos os crimes que porventura estejam acontecendo em Gotham naquela semana, a dupla dinâmica parte em disparada para o estúdio portando uma maleta que tanto pode conter um gravador quanto uma procuração para o advogado que vai defendê-los de tantas invasões à privacidade.

Por que não os dois?

O encontro no estúdio, entretanto, é uma armadilha: Batman e Robin são recebidos por nada menos que quatro homens armados.

Um detalhe importante aqui é que, até esse momento, ninguém sabia que o Homem Morcego estava investigando o assunto — até porque pela lógica é pouco provável que um super herói não tivesse nada melhor para fazer que apurar um simples golpe publicitário.

Então, recapitulando: Bruce Wayne ouviu uma conversa ao telefone e alguém decidiu que esse comportamento fofoqueiro era razão suficiente para contratar quatro matadores de aluguel para dar cabo dele.

Ou “alugar bandidos”, como diz Robin, embora eu nunca tenha visto essa opção no OLX

De volta à Bat-Caverna, o Homem Morcego que poderia muito bem se chamar Homem Gato Mestre afirma que já desvendou o caso sem precisar de gravação, e que foi para o estúdio justamente por imaginar que se tratava de uma armadilha — e obviamente decidiu fazer isso sem alertar previamente o seu parceiro do perigo que corriam.

Convenhamos, é bem razoável presumir que artistas pop vão tentar te matar sem um motivo plausível

A dupla então decide confrontar Saul na Mansão Wayne, porque a uma altura dessas nem se importam mais com identidade secreta, coerência ou lógica, eles só querem mesmo é desvendar o mistério mais importante que qualquer coisa acontecendo na cidade naquele momento.

Mas o maior detetive do mundo na verdade não desvendou rigorosamente nada. Confrontado, Saul decide revelar toda a verdade, mas é interrompido por Glenon, que saca uma arma e revela ser o mentor da armadilha no estúdio.

Imagine all the people living life in peace

Após Glenon ser desarmado por Saul e seu gravador gigante, a verdade vem à tona: Saul não está morto. Na verdade, ele é o único da banda que não está; os três outros integrantes morreram em um acidente de avião e o cantor julgou que seria mais prático ocultar sua sua morte do mundo, arranjar três sósias, submetê-los a cirurgias plásticas e passar um ano ensaiando a… seguir em carreira solo.

Olha, eu não sou bem o fã número 1 dos Wings, mas também não acho que seja pra tanto

Por alguma razão, no entanto, o sósia de Glenon decidiu que deveria assassinar quem investigasse as pistas que a própria banda vinha deixando, o que não me parece um plano muito esperto porque reduz bastante a base de fãs da banda.

Assim, após prender “Glenon”, Batman e Robin conseguem convencer Saul a revelar a verdade para o mundo e montar uma nova banda, intitulada Fênix:

Peraí, Saul não é canhoto? Hum…

…o que significa que, além de furto e múltiplas violações à privacidade, Batman e Robin também são diretamente responsáveis pelo fim dos Britos — e esse é um crime imperdoável.

5 thoughts on “A Nostalgia Era Melhor Antigamente: Batman – Morto… Até Prova em Contrário”

  1. Saul não teve a visão da música pop atual onde sair em carreira solo é o caminho natural de muitos artistas, mas provavelmente ele era comunista e queria dividir os lucros da banda com outros 3 sósias.

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