Crítica | A Vida Invisível

A Vida Invisível é uma livre adaptação cinematográfica do livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, da escritora e jornalista recifense Martha Batalha. O filme se passa no Rio de Janeiro e narra a história das irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida Gusmão (Julia Stockler), filhas de imigrantes portugueses, que tiveram suas vidas e sonhos literalmente invisibilizados pelo horizonte limitado da sociedade patriarcal dos anos 1950.

Duas mulheres jovens e com planos de um futuro fora dos padrões. Guida queria amar livremente e conhecer o mundo. Eurídice pretendia desenvolver seu talento musical estudando piano em Viena. Nenhuma delas queria se resignar ao papel machista atribuído às mulheres da época, o de boa esposa e mãe. Ironicamente, o destino promissor das irmãs sucumbe às decisões tomadas pelos homens.

A separação de Eurídice e Guida é ponto de partida de uma melancólica jornada, na qual as duas buscam o reencontro da identidade de si mesmas e da companhia uma da outra. O amor das irmãs é inspirador e, ao mesmo tempo, desolador para o espectador. O drama desenhado na tela por Karim Aïnouz vai além da representação categórica da opressão feminina. O cineasta aprofunda os traumas decorrentes da anulação da mulher enquanto indivíduo social e nas formas antagônicas encontradas pelas personagens de resistir a tudo o que se é imposto a elas.

O maior exemplo disso é a relação que se estabelece entre Eurídice e Guida com suas respectivas maternidades. As duas não escolheram ser mães, mas fizeram dessa condição um mecanismo impulsionador de suas lutas diárias particulares. O diretor, propositalmente, apresenta o paralelo dos rumos da vida de cada uma, que apesar de separadas, travavam batalhas semelhantes em condições sociais diferentes, mas não menos adversas.

Chama especial atenção o apuro técnico e a semiótica da fotografia, dos enquadramentos e dos efeitos de cena. As paisagens e os cenários urbanos, em sua maioria, são retratados com um recorte diagonal ou destacando elementos nos cantos da tela. É a representação imagética do estado emocional das protagonistas, sempre acuadas, solitárias, como que a espera da completude. Há planos e ângulos interessantes e criativos que exploram a sensação de mutilação visual de Eurídice e Guida, em referência a descaracterização de si mesmas ocorrida ao longo do tempo.

Apesar de toda essa belíssima construção de roteiro dramático, A Vida Invisível é muito longo, talvez intencionalmente, o que torna a experiência exaustiva e excessivamente melancólica. O resultado é um filme que aposta alto na identificação do espectador para obter o resultado desejado, sob o risco de se tornar um filme esquecível. Esse desafio, no entanto, é superado pelas incríveis atuações femininas, incluindo, a de Fernanda Montenegro, na pele de uma Eurídice mais velha. Mesmo com pouco tempo de tela, a emoção proporcionada pela atriz é certa.


Uma frase: “Você não sabe a falta que você me faz. Queria voltar no tempo…”

Uma cena: A cena de Eurídice no cemitério.

Uma curiosidade: O longa passou por um processo de seleção para ser o representante do Brasil na campanha do Oscar 2020. Ele concorreu com outras nove produções nacionais. A Academia Brasileira de Cinema analisou por quase duas horas as opções antes de chegar ao resultado final. Não houve unanimidade e “A vida invisível” recebeu 5 votos contra 4 para “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.


A Vida Invisível

Direção: Karim Aïnouz
Roteiro:
Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Karim Aïnouz, baseado no livro de Martha Batalha
Elenco: Julia Stockler, Carol Duarte, Gregório Duvivier, Fernanda Montenegro, Bárbara Santos, António Fonseca, Flávia Gusmão e Maria Manoella
Gênero: Drama
Ano: 2019
Duração: 139 minutos

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