Crítica | Somente o Mar Sabe (The Mercy)

O ser humano gosta de superar desafios, mesmo que isso envolva riscos a sua própria vida. Mas o que levaria um homem comum a encarar um desafio complicado: dar a volta ao mundo sem parar, sozinho em um barco? O filme Somente o Mar Sabe, do diretor James Marsh, apresenta a história real de Donald Crowhurst (Colin Firth), um homem comum que resolveu participar da Golden Globe Race em 1968, mesmo sem muita experiência como velejador. O longa apresenta suas motivações e tenta explicar o que o levou a encarar uma tarefa tão complicada, mesmo com tanto a perder.

Donald é casado com Clare (Rachel Weisz) e juntos eles têm 3 filhos. Eles levam uma vida comum no interior da Inglaterra, mas o homem não parece satisfeito em ser ordinário. O senhor Crowhurst é dono de uma pequena empresa que fabrica instrumentos de navegação para velejadores, e seu sonho é transformá-la em algo maior. Ele enxerga a participação na corrida como uma boa oportunidade de alcançar seu objetivo. Dessa forma, ganharia mais dinheiro e daria uma vida melhor à sua família. Mas será que o risco de vida envolvido valeria a pena, afinal de contas ele tem mulher e filhos que dependem dele?

O roteiro de Scott Z. Burns explora esses prós e contras do dilema do protagonista. Ele estaria realmente fazendo isso em nome da família ou seria apenas em nome do seu próprio ego, uma forma de querer mostrar que é capaz? Outra questão é que após decidir participar, Donald resolve construir o seu próprio barco, precisando de dinheiro para isso. O senhor Crowhurst coloca sua própria casa como garantia, então caso não consiga completar a corrida, perderá o seu imóvel. Dessa forma o risco ficou ainda maior, já que além da própria vida, ele ainda estaria arriscando o futuro da sua família.

A montagem do filme apresenta de forma rápida como a decisão de Donald em participar da corrida tomou proporções grandiosas, envolvendo patrocínio e aparições na imprensa. Entretanto, durante a sua jornada, acompanhamos alguns flashbacks que apresentam momentos junto com a família, onde ele conta com o apoio da esposa. Assim, a história fica mais dinâmica e transforma a viagem do senhor Crowhurst em um momento reflexivo do próprio personagem. O filme aborda de maneira eficaz esse lado psicológico e mostra como o protagonista aos poucos se dá conta de que talvez tenha tomado a decisão errada.

A atuação de Colin Firth é contida e convincente, então mesmo que não concordemos com suas atitudes, compreendemos de alguma forma suas motivações. No entanto, o grande destaque do filme é Rachel Weisz. A mulher ficou em casa cuidando dos filhos, enquanto o marido partiu em uma jornada ao redor do mundo, então todo o peso e responsabilidade de manter a família bem durante a ausência dele ficou com Clare. Além disso, a senhora Crowhurst ainda tinha que lidar com a imprensa, posando como a esposa bonita e apoiadora da viagem do marido, um papel que ela não estava disposta a desempenhar.

Somente o Mar Sabe, foto

O tema da narrativa do longa lembra um pouco “A Teoria de Tudo”, também dirigido por James Marsh, onde enquanto os homens tentam realizar os seus sonhos, as mulheres ficam responsáveis apenas pela família. Contudo, o cineasta aqui comete o mesmo equívoco ao abordar mais o lado masculino, quando na verdade é a personagem feminina que deveria ser a protagonista da narrativa. Somente o Mar Sabe talvez ainda seja pior, já que o teor da história tem um desfecho trágico, então por mais que pareça que foi Donald quem fez o maior sacrifício, sem dúvidas a situação da esposa foi pior.

Tecnicamente o filme é correto, apresenta bons efeitos visuais durante a viagem de barco de Donald, o que facilita a imersão dentro da narrativa ao mostrar um ambiente verossímil. A trilha sonora também é eficiente em realçar os momentos mais emocionais da narrativa, sem transformar em algo artificial.

Somente o Mar Sabe é competente em apresentar sua história e o diretor James Marsh mantém o tom sóbrio da narrativa sem cair no melodrama. As atuações de Colin Firth e principalmente de Rachel Weisz, são os principais destaques do longa.


Uma frase: – Clare Crowhurst: “Prometa-me que voltará para casa.”

Uma cena: Donald Crowhurst subindo no mastro do barco para tentar realizar um conserto.

Uma curiosidade: Colin Firth tem 55 anos, ele é 20 anos mais velho que Donald Crowhurst quando entrou na Golden Globe Race.


Somente o Mar Sabe, cartazSomente o Mar Sabe (The Mercy)

Direção: James Marsh
Roteiro:
Scott Z. Burns
Elenco: Colin Firth, Rachel Weisz, David Thewlis e Ken Stott
Gênero: Biografia, Drama
Ano: 2017
Duração: 101 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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